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Que posso saber? Onde está o meu Eu? Quem sou eu? Quem raio é que me anda a enganar?

Um ensaio sobre o filme 13th Floor, de Roland Emmerich,

por Luís Rodrigues

 

 
 

(Aviso! Este artigo é clara, deliberada e intencionalmente, uma peça de pirataria filosófica. Adverte-se também que a exposição prolongada a este tipo de textos pode causar severos danos na saúde mental do leitor, nos seus conhecimentos filosóficos, e, mais grave ainda, nas suas convicções doutrinais sobre a verdade das suas crenças empíricas (ou outras) sobre a natureza da realidade e sobre a sua própria identidade pessoal. Aconselha-se uma leitura atenta e crítica a todos aqueles que conseguem ter um sentido de humor fino, que conseguem diferenciar o importante do acessório, o relevante do fútil, e, mais importante ainda, que conseguem distinguir o essencial do trivial quando se trata de procurar o saber. Informa-se, por último, que uma leitura acrítica e amorfa do texto pode conduzir a grave delito do foro intelectual, punível com pena de atraso mental que vai de seis meses até uma vida inteira de estupidez -- prisão perpétua)

O filme 13th Floor tem a particularidade de apresentar -- pelo menos -- dois problemas filosóficos com séculos e séculos de existência: primeiro, o problema do cepticismo epistémico que deriva, segundo, do problema de não haver contradição lógica em supor que somos cérebros em cubas, “ligados” ao mundo onde julgamos estar e que julgamos conhecer apenas por fios eléctricos ou sistemas wireless bluetooth . Estes problemas estão talvez ainda por resolver. Sendo tão ou mais cépticos que o céptico, podemos inclusive sugerir que nunca se irão resolver -- pois a sua resolução depende possivelmente de uma perspectiva do “olho de Deus” que nunca poderemos alcançar. Mas também não é menos correcto afirmar que ou nos deixamos de cepticismos pirrónicos ou nos devemos calar em nome da coerência. Todo aquele que afirma que “o conhecimento é impossível” tem que perceber que a sua própria afirmação terá que ser igualmente impossível (falsa), pois se fosse verdadeira qualquer afirmação seria falsa, incluindo essa, e, se fosse apenas falsa, apenas ficaríamos a saber que o conhecimento é, tanto quanto diz respeito a essa afirmação, possível. Estão confusos? Espantados? Cépticos? Humm…Ainda bem! Umas doses razoáveis de incerteza, espanto e cepticismo nunca fizeram mal àqueles que anseiam perceber o mundo e subir na escada do saber. Vamos então ao que interessa.

Imagine que o seu cérebro está dentro de uma cuba (não, não estou a pensar numa Cuba-libre , essa insere-se no seu cérebro através do sangue, e não contrário) e que se encontra “ligado” ao mundo por extensões eléctricas que conduzem os imputs-outputs que permitem que o leitor experimente todas as coisas que é habitual experimentar na sua condição normal de ser humano cujo cérebro se encontra no interior de uma caixa craniana. Já imaginou essa possibilidade? Feche os olhos por um momento e recorra à sua imaginação. Esforce-se mais um pouco…só mais um pouco… ai, está quase, está quase…ok, já está! Quase que pode “ver” o seu cérebro flutuando num líquido viscoso no interior de uma caixa de vidro cúbica e transparente, não é? Consegue até ver os dispositivos que efectuam a ligação ( wireless , para modernizar a rábula) do seu cérebro aos seus olhos, substituindo quase todo o nervo óptico. Consegue então ver-se pairando no interior da cuba, não é? É?... Mas como? Então o leitor não está no interior da cuba ? Não é lá que se encontra o seu cérebro, aquele que vê e pensa e processa a informação que está a ver-se? Não é aí que está localizado o seu “Eu pensante”? Então como é que pode “estar a ver-se” do lado de fora? Onde está localizado espacio-temporalmente e mentalmente o leitor, dentro ou fora da Cuba? Onde estaria o seu Eu-total-e-completo neste caso limite?

Satisfaça-me a vontade por uns breves instantes e, para bem da rábula, admita que nesta hipotética situação o leitor está “situado” no interior da cuba. Que se segue daí? (permitam-me os puritas que faça agora de advogado do diabo). Segue-se que tudo aquilo que o leitor costuma dar como garantido sobre o mundo é muito provavelmente falso. Tudo que o leitor acredita ser verdadeiro, ou quase tudo, todas as suas crenças sobre estados de coisas no mundo são postas em causa pela sua condição de incubado (a língua portuguesa é muito traiçoeira, não confundir aqui palavras que tendo fonéticas semelhantes têm contudo significados radicalmente diferentes). Este é um dos principais argumentos do céptico, muito eufemisticamente corre assim: se formos cérebros numa cuba não podemos saber nada porque a nossa condição de incubados nos impede de saber a verdade dos factos (uma expressão muito querida dos políticos, mas muito mal vista por alguns filósofos). Está incrédulo? Tem dúvidas? Então suponha que está um dia bonito e que está passear o seu cão no jardim. Nessas circunstâncias, aquilo que o leitor experimenta e acredita, a saber, que está um dia bonito, que está a passear num jardim e que o seu querido Bobi está a ferrar um xixi na arvore mais próxima, não pode ser verdade se você for um cérebro incubado -- pois, se o for, o leitor está de facto numa sala que contém uma cuba no interior da qual se encontra o pobre (em sentido figurado, claro) do seu cérebro a conceber crenças falsas e injustificadas (1) sobre uma eventual estadia num jardim onde passam raparigas (ou rapazes, depende da orientação) bonitas a quem você pisca o olho e mostra o cão obediente com orgulho (cuidado com o significado de “cão” nesta frase. Nada de mal-entendidos!)

A confirmar-se este cenário tenebroso que repudiamos com veemência, a consequência mais grave seria talvez possuirmos crenças falsas sobre a nossa própria identidade e sobre o estatuto ontológico da nossa própria pessoa (gostei desta! Ninguém percebeu, claro, mas não faz mal desde que me vejam como um intelectual que diz coisas difíceis e ininteligíveis, tipo, um seguidor de Derrida ou outro “bicho-monstro” filosófico do mesmo género)

Se fossemos cérebros numa cuba, se soubéssemos isso, e nos pudéssemos ver do lado de fora da cuba, teríamos talvez uma perspectiva privilegiada do nosso Eu físico (e mental?) -- uma visão de nós próprios a partir do que é vulgar chamar-se a “perspectiva da terceira pessoa”. Mas se não pudermos ter a certeza que não estamos incubados (esta é difícil, pensem nisto), nada podemos saber sobre a nossa real condição (a nossa perspectiva de nós próprios – da nossa mente – dificilmente pode ser mais do que uma perspectiva da primeira pessoa). É que se somos partes do mundo, e se da perspectiva de incubados só podemos ter crenças falsas sobre o mundo (há quem duvide disto, grandes filósofos como Chalmers e Williamson….e eu, por exemplo), segue-se que também só podemos ter crenças falsas sobre a nossa identidade e/ou pessoalidade.

Apesar de tudo o que disse até agora não ser nada evidente, estar mal explicado e estar longe de ter resolução, era aqui que queria chegar, pois este é o tema que domina 13th Floor , a saber, até que ponto não vivemos numa realidade fictícia -- uma simulação -- criada por um Demónio-enganador (que pode ser desde um cientista excêntrico a um conjunto de máquinas insensíveis e tão ou mais ditatoriais que o Fidel Castro) que nos incute crenças falsas sobre estados de coisas no mundo e, a limite, não nos deixa ver ou perceber a nossa verdadeira identidade e condição ontológica (e eu a dar-lhe! eehm!…Não tenho mesmo juízo nenhum. Sempre a brincar com coisas sérias. Será que podemos fazê-lo e sair impunes? Ora aí está uma boa questão filosófica, não é? É pena é que alguns professores nem sequer a coloquem…)

Devemos o exemplo do Demónio-enganador (apenas uma hipótese de trabalho, sem correlato na realidade, assim espero) ao filósofo francês René Descartes, que aventou a sua possibilidade teórica nas Meditações Metafísicas (2) (e que gentilmente, mas sem saber, provavelmente porque também era um cérebro incubado sem o saber, cedeu os direitos de autor da ideia para este artigo). Mas atenção que Descartes não era céptico relativamente ao conhecimento. Pelo contrário, a sua grande invenção foi a de forjar um método interessante, mas não 100% fiável (os entendidos percebem o que estou a dizer), para a aquisição de conhecimento. Esse método dependia da instauração prévia da dúvida, dita metódica, como medida profiláctica com a qual se pretendia instaurar um cepticismo moderado sobre as nossas crenças empíricas e assim permitir encontrar um processo de raiz purificador e gerador de justificações para elas (perdoem-me os puristas, isto também não me soa muito bem, mas foi o melhor que arranjei a esta hora avançada da noite).

O filme começa precisamente com uma citação de Descartes sobre o demónio-enganador e os terríveis enganos e ilusões que é capaz de nos incutir no espírito (Descartes ainda não falava de mentes e coisas elusivas deste tipo devido às quais os filósofos contemporâneos se guerreiam constantemente ao ponto de se chamarem nomes obscenos e de deixarem de se falar. Para os entendidos, estou a lembrar-me de Rorty & Co.) Apesar desta aparente gafe inicial, que confunde claramente a bota com a perdigota (para citar o Jerónimo de Sousa, esse proeminente filósofo do Materialismo Dialéctico português) o filme apresenta um cenário “inteligente”, na medida em que propõe uma situação de ilusão sobre ilusão. Explico-me.

O personagem principal, Douglas Hall (tem nome de porteiro de hotel, ou é só impressão minha?), é um bem-sucedido executivo numa empresa dos finais dos anos 90 do século passado. Essa empresa, mais exactamente o seu dono, inventa um inovador sistema de Hardsoftware que permite aos utilizadores projectarem a sua mente e a sua consciência (ou aquilo que constitui as duas coisas, um Dois-em-um tipo shampoo e “amaciador”, como diria teimosamente um meu ex-professor de filosofia pouco contemporânea), num mundo feito de bits informáticos que replica com grande exactidão a década de 30 (ou será a de 40? Bem, não importa) do século passado. Nessa simulação “vivem” entidades em tudo iguais a nós, pessoas de carne e osso, com mentes, consciência, sentimentos, emoções etc. A única diferença entre nós e eles é que eles são “feitos” de bits , e nós de átomos e electrões (ou quarks , como preferirem), que compõem carne e osso. Já perceberam, não é? Adiante! Depois de algumas viagens a essa simulação da realidade e algumas trocas e baldrocas na realidade-realidade de Hall, este vem a descobrir que a sua própria realidade-realidade não passa de uma simulação “corrida” por alguém que vive de facto a meio do século XXI e que se farta de “gozar o prato” com ele. Conclusão: o rapazito que andava a brincar na simulação da realidade da década de 30 (armado em cérebro incubado todo-poderoso, com dúvidas existenciais profundas e uma síndrome de playboy de bradar aos céus) descobriu que não passava também ele de uma simulação criada por alguém que se divertia com ele (Demónios enganadores do século XXI, malvados!) No final do filme, miraculosamente, a mente e a consciência de Hall conseguem “passar” para essa realidade-primeira do século XXI. Miraculosamente também (estas coisas nunca me acontecem, vá-se lá perceber porquê), o rapaz acaba feliz e contente com uma das demónio-enganador (Gretchen Mol, que demónio!, meu Deus!), dando um novo sentido à velha máxima que diz que “quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga” (quem me dera! bem que tento perder o juízo dessa maneira, mas nada de interessante acontece). Resultado, o Hall consegue finalmente encontrar uma realidade física realmente existente (o que é uma redundância dispensável, mas que o filme explora até aos limites do vergonhoso), na qual, supostamente, vai viver o resto dos seus dias bem agarradinho ao tal demónio de que falávamos acima, com a certeza de que não é um cérebro numa cuba e de que as suas crenças sobre o mundo são de facto verdadeiras (mais uma expressão controversa, se os puristas sabem disto sou ostracizado, ai, ai). Mas eis quando, no final do filme, muito subitamente, alguém desliga a simulação! A imagem final parece um daqueles televisores pré-históricos a desligar, sugerindo que alguém que estava a “jogar” aquela simulação-realidade do século XXI colocou a simulação em off ou em standby para ir esticar as pernas, petiscar umas bolachitas e empurrá-las para baixo com um copito de leite. Em que ficamos?

Vamos recapitular os problemas para pôr alguma ordem nisto:

1 - Há alguém que me engana deliberadamente, fazendo-me crer, falsa e injustificadamente (ou até justificadamente, mas isso já é outra história…), que vivo numa realidade normal, que sou feito de carne e osso, que tudo aquilo que vejo, sinto, penso, experimento etc, é o caso, quando afinal vivo numa simulação, sou feito de bits e podem desligar-me a qualquer momento (yerk! Que hipótese medonha, não é?)

2 - Se esta hipótese do demónio-enganador estiver correcta, então posso muito bem ser um cérebro numa cuba situada no “laboratório” desse demónio, em vez de ser aquilo que agora julgo que sou. E se for esse o caso, nada posso saber sobre o mundo e mim próprio excepto o que é dado pelos inputs-outputs que o demónio dá de alimento à minha mente e consciência.

 3 - E se isto for o caso, então é razoável admitir que tudo aquilo em que acredito é muito provavelmente falso (já vimos acima porquê).

4 - Mas se tudo aquilo que acredito é falso, então nada sei sobre o meu estatuto ontológico e a minha identidade pessoal (lá está ele outra vez a dar-lhe com esta do estatuto ontológico; é teimoso, o tipo!).

5 - Ergo… penso, mas não existo!…ah! mas esperem, quando digo que não existo quero dizer que não existo da maneira que penso que existo (Seus malandros! Já estavam todos a apanhar-me a falha, não era? Pois, pois, jogos de palavras. Não gostam? Têm bom remédio: comam só do que gostam).

Como se combate este argumento? Conheço apenas três formas de o fazer, nenhuma inventada por mim (3) .

A primeira maneira é admitir que esta hipótese está correcta mas que, apesar disso, a maior parte das nossas crenças ainda podem ser verdadeiras e justificadas. A ideia é conceder (1) e (2) e mostrar que (3), (4) e (5) -- mas principalmente (3) --, não se seguem necessariamente de (1) e (2). O artigo que melhor defende esta hipótese (que eu conheça, e não conheço assim tantos como isso) é o de David Chalmers, “ "A Matrix enquanto hipótese metafísica ”.

A segunda maneira é um pouco mais complicada de explicar porque envolve o chamado Princípio da Oclusão: se S sabe que P, e se P implica Q, então S pode saber que Q desde que possua suficiente evidência para P e Q. Mas, pelo mesmo princípio, se S não tem suficiente evidência para P, então, apesar de P implicar (logicamente) que Q, dificilmente S poderá alguma vez saber que Q. Traduzindo para português…. Se eu sei que não sou um cérebro numa cuba, então, pelo Princípio, posso saber tudo aquilo que pode ser implicado por isso (nomeadamente que sou um tipo normal, que vive num mundo normal, e que tem crenças verdadeiras e justificadas sobre a normalidade). Mas se eu não sei isso, não posso saber nada que se siga logicamente disso (acho que é assim). Portanto, a única solução parece ser… tcham, tcham, repudiar o princípio da oclusão ou subvertê-lo, o que não é nada fácil.

A terceira e última maneira é simplesmente diferenciar Conhecimento de Compreensão. Eu posso não saber se sou ou não um cérebro numa cuba mas ainda assim compreender que posso ou não ser um cérebro numa cuba. O apelativo nesta proposta é que, admitindo isto, reduzimos a importância do conhecimento relativamente ao escopo da compreensão; esperando com isso ter a possibilidade de vir a compreender, apesar de provavelmente nunca podermos ter a certeza de saber, por que não somos cérebros encafuados em cubas.

Seja como for, quero deixar claro que temos bons indícios de que não somos cérebros em cubas, pelo menos no sentido tão desagradável que temos vindo a falar. Talvez sejamos cérebros “incubados” em caixas cranianas construídas por milénios de evolução que, em última instância, foi “programada” por Deus. Vá-se lá saber! Se fosse esse o caso, mudava talvez apenas o compartimento onde guardamos o cérebro, a mente e todas aquelas coisas que nos gabamos de ter até ao ponto de ficarmos nauseados com tanta vaidade infantil.

Dito isto, impõe-se, como sempre nestas coisas, e para dar um aspecto respeitável ao artigo, acrescentar uma conclusão moral; é a seguinte: mais vale ser um cérebro numa cuba ao lado da Gretchen Mol do que ser um cérebro numa caixa craniana agarrada a um corpo que passeia o cão no jardim. Ou será o contrário? Nunca sei…

Luís Rodrigues

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Notas

(1) Há quem defenda que mesmo nesta situação podemos ter crenças verdadeiras e justificadas. Sobre esta perspectiva, ver este excepcional artigo de David Chalmers na Crítica sobre a Hipótese Matrix e respectivas consequências.

(2) Meditação segunda.

(3) Por acaso, ou talvez não, tenho um ensaio em powerpoint que combate a ideia que não há uma unidade da consciência independentemente do receptáculo usado. É baseada nos trabalhos de Dennett e Chalmers e está aqui

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Referências:

Chalmers, D, “The Matrix as Metaphysics”, 2002 - disponivel aqui

Dançy, J, Espistemologia Contemporânea, ed. 70, 1985, pp 22 - 37

Dennett, D, "Where am I" - disponivel aqui

Heil, J, Philosophy of Mind , Routledge , New York , 2004

Williamson, T, “Knowledge and skepticism” - disponivel aqui