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| Galáxia Anti-maniqueísta -- Para além de Bem e Mal , por Diogo Santos - 21/10/2005 Starwars , Revenge of The Sith (2003), de George Lucas
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Pode-se dizer que o maniqueísmo é a teoria que tem a seguinte tese central: "todas as acções só podem ser classificadas como boas ou más, não existem termos intermédios". Trata-se de uma definição somente moral, e não abrange todo o âmbito da teoria dos Maniqueus, âmbito esse que se refere igualmente à cosmologia e mesmo à religião. O presente artigo defende que as acções de Anakin Skywalker, mais tarde Darth Vader, não podem ser classificadas apenas segundo dois termos, o Bem e o Mal. A avaliação moral dessas acções transcende a classificação redutora de Bem e Mal. Anakin é, de certa maneira, a zona cinzenta em toda a saga. Há nele uma constante transição entre Bem e Mal, entre boas e más acções. Ora é Darth Vader, o anti-herói, ora é Anakin Skywalker, o herói rebelde. Seria engano redondo admitir que, pela simples existência dessas transições constantes, o personagem em causa seria já um exemplo de anti-maniqueísmo. É incorrecto pensar assim, uma vez que estas transições ocorrem no escopo dos termos Bem e Mal e, como tal, a classificação das suas acções seria ainda maniqueísta. Para que possamos falar de anti-maniqueísmo efectivo é necessário o uso de uma classificação que esteja para lá dos limites impostos pelo maniqueísmo. Portanto, dizer que tal indivíduo não é boa nem é má pessoa, porque tanto age bem, por vezes, como, em outras ocasiões, age mal, é ainda estar sujeito aos princípios do maniqueísmo. Classificam-se as acções em virtude de quê? Antes de mais, pode-se dizer que são classificadas de acordo com a intenção do agente. Dir-se-á que a classificação da intenção do agente determina a classificação da respectiva acção propriamente dita. A dificuldade imediata é prática. Caso se ignore a intenção do agente não pode haver classificação da acção, uma vez que esta seria apenas dada de acordo com a mesma intenção. Experimente-se outra abordagem. As acções podem ser também avaliadas de acordo com os seus resultados ou consequências. Porém, avaliá-las dessa forma não torna a avaliação imune à mesmíssima dificuldade prática acima mencionada. Saber da acção não implica propriamente o conhecimento dos seus resultados. Mais, o assunto ainda assume aparência mais complexa quando a questão é decidir quais os tipos de consequência admitidos na avaliação moral: somente consequências imediatas ou também consequências derivadas e só consequências efectivas ou também consequências potenciais. É bem diferente levar em conta apenas consequências que resultem imediatamente da acção tomada ou levar também em conta para a avaliação da mesma acção consequências que, apesar de retiradas dessa acção, ocorrem por determinação indirecta dela. Tal como é obviamente diverso levar apenas em conta consequências que ocorreram de facto ou levar em conta consequências que poderiam ter ocorrido, ou mesmo que era suposto ocorrerem, mas que, por qualquer motivo, não ocorreram. Para além destas dificuldades, as duas propostas estão sujeitas a um problema teórico grave. De acordo com os critérios estabelecidos, a avaliação de duas acções diversas corresponderia ao mesmo, em termos de classificação moral, caso os seus resultados e/ou intenções dos agentes que as levaram a cabo fossem idênticas. Ora, tal não parece ser correcto; a acção, por si, tem de contar para alguma coisa no que respeita à sua avaliação. Todavia, isso implicaria admitir que cada acção tem intrinsecamente algum valor moral; ou seja, haveria muito pouca variação de valor, em termos morais, no mesmo tipo de acções. No entanto, há uma variação imensa do valor moral de acções idênticas, mas ocorridas em tempos e/ou espaços diferentes, com, por sua vez, consequências possivelmente diversas. Conclui-se que ao critério valor moral intrínseco de uma acção não é conferida força suficiente para dominar os critérios anteriormente apresentados e, com isso, solucionar os seus problemas. Tudo isto para demonstrar que a resposta à questão 'classificam-se as acções em virtude de quê?' não é tarefa simples ou linear. Voltando à questão, após digressão. Para mostrar que Anakin Skywalker é uma figura anti-maniqueísta é suficiente argumentar que certa acção sua não pode ser classificada ou avaliada segundo os termos do maniqueísmo; i.e. que está para além de Bem e Mal. Analise-se a seguinte acção - por curiosidade, a acção que transforma efectivamente Anakin em Darth Vader, uma figura do Mal. Estou a referir-me ao assassínio do Mestre Jedi Mace Windu (Samuel L. Jackson) no Episódio III, Revenge of The Sith. Anakin está na complicada situação de decidir-se por impedir que Mace Windu mate o Chanceler Palpatine (Ian Mcdiarmid), possivelmente salvando, assim, a preciosa vida de Padmé (Natalie Portman) ou se, pelo contrário, deixa o destino de Palpatine nas mãos de Mace Windu, condenando à morte a única salvação de Padmé (atenção se Padmé morre ou não, qualquer que seja a decisão do seu amante, é irrelevante, o importante é que isso despoleta a acção). Anakin decide-se pela primeira alternativa, a saber, impedir a morte de Palpatine. Pergunto: é possível avaliar segundo parâmetros maniqueístas a acção? Não. Sob que critérios se classificaria a acção como boa ou como má? Anakin salva uma vida, para todos os efeitos. Mas pode-se dizer que a acção é boa? Longe disso. Palpatine está livre para fazer aquilo que bem entender. Onde está o Bem o Mal no dilema que Skywalker enfrenta? Em lado algum. Não há decisão boa nem má na circunstância da cena. Como tal, não se pode dizer sequer que a acção praticada se classificaria como intermédia, entre o Bem e Mal; pelo contrário, ela está para lá disso.
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