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The Assassination of Richard Nixon é um filme razoável construído a partir de uma história verídica (há outras opiniões, ver por exemplo esta). Como em tantos outros, encontramos neste filme um claro apelo à piedade. Para quem não sabe, um apelo à piedade pode transformar-se numa falácia; principalmente quando se trata de demonstrar um ponto ou uma teoria.
O filme em questão apresenta-nos duas teorias capitais: 1) Qualquer pessoa pode converter-se num assassino desde que ocorra um conjunto de circunstâncias extremamente desfavoráveis para essa pessoa; 2) O que aconteceu a Sam Bicke (essa tal pessoa, magnificamente interpretada por Sean Penn, diga-se em abono da verdade) teve como causa o facto do sistema em que Bicke estava socialmente inserido ser inexorável e corrupto, um sistema chefiado e gerido por alguém que se tornou imagem-de-marca da corrupção: Richard Nixon.
É na conjunção das duas teorias que o argumento se desenvolve, e é por usar e abusar do apelo à piedade que falha. É verdade que Sam Bicke perde tudo antes de tentar o desajeitado homicídio de Nixon, alguém que via como cabeça-de-cartaz de um sistema podre. Sam perde família, emprego, amigos, bens materiais e, mais importante que tudo, a sua dignidade. Confrontado com as suas perdas, o protagonista decide marcar a sua presença no mundo estripando a fonte - ou a personificação - de todos os males, seus e do mundo: Nixon. Bicke deseja com o seu acto, por um lado, alertar os outros para o que está mal, e, por outro, vingar-se daqueles que criando e mantendo um sistema podre impedem que pessoas simples e honestas como ele tenham sucesso (leia-se “dinheiro”) e sejam felizes.
Contudo, em minha opinião, saliente-se, o facto é que mesmo não havendo intenção clara do filme em mostrá-lo, o argumento só consegue revelar a mediocridade de Bicke e como ela é a causa primeira do seu acto final tresloucado: o assalto ao avião (que desejava lançar contra a Casa-Branca). Todo o filme se desenvolve na assumpção que Bicke é um coitadinho, alguém impotente perante um sistema que espezinha os bons e os honestos, transformando-os em loucos e maus. Mas o argumento declara de forma muito velada que Bicke não foi realmente um coitadinho digno de pena que deveria ser perdoado ou internado porque não sabia o que fazia; como, aliás, bem mostra o “frio” planeamento do assalto ao avião. O espectador atento percebe que Bicke é simplesmente medíocre e fraco na maior parte do tempo. Percebe também que Bicke é alguém que não conseguiu manter a calma e o bom-senso face à adversidade. Sam Bicke tinha certamente um Q.I. baixo, mas isso não o impossibilitava de escolher melhor do que escolheu, como fazem aliás tantos portadores de Q.I. (s) fracos (como eu, por exemplo)).
Se por culpa nossa ou de outros (do sistema), tanto faz, tudo nos corre menos bem ou mesmo muito mal, encontraremos nisso uma justificação – racional(?) - para matar alguém? Onde se funda o Rationale de um acto de tal calibre? E como podemos anuir passivamente a um pedido de clemência nestas circunstâncias? Parece-me extremamente difícil. Não estamos todos sem excepção sujeitos a adversidades e “agressões” exteriores? Não estamos nós todos sem excepção sujeitos ao mesmo sistema? Não suportamos todos uma boa-dose de problemas que nos conduzem, diária e sistematicamente, ao desespero e à revolta interior? Não resistimos nós às tentações de culpar terceiros pelas nossas próprias falhas ou adversidades? Por que deveríamos então ceder a apelos de clemência para os que mediocremente, não resistindo à tentação de vingança, escolhem agir mal? i.e., escolhem actuar de forma moralmente condenável. Estarão os actos de vingança justificados tout court pelo sofrimento suportado por quem os pratica?
Apelos à Piedade (argumentum ad misercordiam) não ganham causas nem demonstram teses. Olhem lá o perigo que era se demonstrassem! Iríamos comover-nos, por exemplo, com os ridículos apelos à piedade e à misericórdia do Bush e do Bin-Laden, rendendo-nos assim acriticamente à “validade” dos seus pontos: o segundo queixando de opressão tirânica do primeiro, e este queixando-se dos ataques cobardes do outro. Era bonito, não era?
Luís Rodrigues |
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