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Blade Runner, Identidade e Sentimento de Si , por Luís Rodrigues - 18.12.2005 (2ª perspectiva) |
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«Eu não estou no negócio. Eu sou o negócio» (Rachel para Deckard, em Blade Runner) Blade Runner , de Ridley Scott, baseado numa novela de Phillip K. Dick , Do Androids Dream of Electric Sheep?, tem a peculiaridade de nos fazer pensar sobre alguns problemas filosóficos. Um dos mais recorrentes no filme é o problema da Identidade Pessoal. O problema é antigo e extremamente complexo, obrigando a uma incursão em várias disciplinas filosóficas, nomeadamente a Metafísica e a Filosofia da Mente. Mas cada coisa a seu tempo. Antes ainda de fazer uma breve explicitação do problema e apresentar uma conhecida solução, provinda do panorama filosófico, claro, importa ver como ele é estabelecido pelo argumento desta obra-prima do cinema – uma opinião minha, é certo, mas ainda assim partilhada por alguns filósofos e críticos. Quem se lembra do filme recorda-se por certo de Rachel (Sean Young), a belíssima replicant de última geração - que não fazia ideia de o ser - e que se enamorou perdidamente por Deckard (Harrison Ford), o implacável caçador-exterminador de replicants . Ela, Rachel, construída como protótipo replicant ( nexus7 ?) sem data prevista de expiração (de morte) pelo brilhante Tyrell, mentor e proprietário da Tyrell Corporation (além de inveterado jogador de xadrez; ver: Immortal Game, o jogo do filme) , empresa produtora dos avançados andróides geneticamente desenvolvidos e alcunhados replicants nexus 6 , foi, dizia eu a propósito de Rachel, implantada com as memórias da sobrinha de Tyrell, desconhecendo inicialmente e por completo a sua condição de andróide (?) super-sofisticado - tão sofisticado que distingui-la de um humano “natural” era coisa praticamente impossível de concretizar, excepto recorrendo, como fez Deckard, a testes psicofísicos complexos. Aquando da sua deslocação a casa de Deckard para saber a verdade sobre a sua natureza e condição, Rachel toma conhecimento que é uma replicant , que não é a mulher (o ser-humano) “natural” que pensava ser, e que as recordações que possuía de si e da sua infância, até à sua data de activação, pertenciam afinal a outra pessoa : a sobrinha de Tyrell. Rachel sente-se perdida perante tal revelação. Eis a cena:
Deckard: Quer uma bebida?... Não? Rachel: Pensa que sou uma replicant , não pensa? Veja (mostrando uma foto a Deckard), sou eu com a minha mãe. Deckard: ah, sim?... Lembra-se de quando tinha seis anos? Você e o seu irmão entraram através de uma janela para uma cave de um prédio vazio? Iam brincar aos médicos? Ele mostrou-lhe o dele e, quando chegou o momento de você mostrar-lhe a sua, você amedrontou-se e fugiu? Lembra-se disso? Contou isso a alguém? À sua mãe? Ao Tyrell? A Alguém?...Lembra-se da aranha que vivia no arbusto perto da sua janela? Corpo alaranjado, pernas verdes? Passou o verão a vê-la construir a teia? Até que um dia surge um ovo enorme. O ovo estalou… Rachel: O ovo estalou… Deckard: E então?… Rachel: …Então nasceram cem aranhiços…que a comeram. Deckard: Implantes! Essas memórias não são suas. São de outra pessoa. São da sobrinha do Tyrell. . Vendo Rachel terrivelmente abalada com a sua revelação, Deckard tenta retirar o que insinuou, mas o “mal” estava feito. Rachel, destroçada, sai da casa de Deckard escondendo as lágrimas. Até esse momento ela tinha por garantido ter um passado. Ela tinha por garantido ser uma entidade única e irrepetível, física e mentalmente, i.e., ela tinha por garantido ser uma pessoa : alguém com identidade, algo intransmissível. Rachel percebia agora que dificilmente poderia ser uma pessoa , pois faltavam-lhe algumas das propriedades necessárias para tal. Percebia também que dificilmente podia ter uma identidade, pois tudo, ou quase tudo, que tinha consciência de ser ou de ter sido, nem era nem tinha sido. A sua consciência de si com relação ao passado era em larga medida falsa (excepto relativamente ao período entre a sua “activação” e o presente). A sua vida passada, tal como se lembrava dela, tinha sido vivida por outra pessoa, alguém cujas memórias tinham sido usurpadas e implantadas nela; nela, Rachel. Ela possuía memória presencial, ou seja, a capacidade de se situar e de se reconhecer como a mesma entidade física e a mesma consciência em diferentes localizações e diferentes momentos do passado , mas ela não tinha estado nesses locais nem tinha vivido a grande maioria desses momentos. Ela lembrava-se, por exemplo, de em criança ver os aranhiços saírem do ovo e comerem a mãe aranha; mas, na verdade, quem tinha visto esse acontecimento tinha sido a sobrinha de Tyrell, e não ela, Rachel. Ela possuía apenas essas memórias implantadas em si, mas a vivência e a consciência que acompanhavam essas memórias não lhe pertenciam. Quem era ela sem a consciência de si com relação ao “seu” passado? Rachel tinha perdido a sua humanidade (propriedade de ser um Ser Humano), a sua identidade (propriedade de ser única e irrepetível) e a sua pessoalidade (propriedade de ser uma pessoa). Triste sorte, a da rapariga… Agora que vimos onde e como surge no filme o problema, urge formulá-lo um pouco melhor. Só depois estaremos em condições de pensá-lo e, por conseguinte, de oferecer soluções. Quando falamos em identidade pessoal usamos a palavra “identidade” e a palavra “pessoal”. Quando as juntamos numa única expressão, numa unidade coerente de sentido, queremos significar que alguém é simultaneamente uma pessoa e possui uma identidade; i.e., desejamos referir alguém que tem a propriedade de ser uma pessoa e, conjuntamente, ser um indivíduo com uma essência ou um conjunto de propriedades que fazem dele único, irrepetível, “induplicado”, etc. Vamos então por partes. O que é ser uma pessoa? Bom, há muitas respostas para esta questão. Saliento apenas as principais. Uma pessoa pode ser algo ou alguém com a propriedade de ser fisicamente irrepetível (por exemplo, genética ou morfologicamente), ou um indivíduo da espécie homo-sapiens-sapiens, ou um ser-humano, ou alguém responsável e imputável pelos seus actos, ou, ainda, algumas destas - ou todas juntas e mais alguma que nos falte. Como podemos facilmente constatar, não é nada fácil encontrar uma definição segura ou absoluta do que é ser uma pessoa. Mais difícil se torna encontrar esta definição quando verificamos que algumas das propriedades que fazem porventura alguém ser uma pessoa dependem em grande medida do que entendermos ser a identidade (de uma pessoa). A identidade pode “manifestar-se” de diversas formas, principalmente as seguintes: identidade lógica, física e metafísica. Aqui as coisas complicam-se ainda um pouco mais, pois estes três aspectos parecem ser interdependentes. Se dizemos que A = A, dizemos que, logicamente , a primeira ocorrência de A denota o que denota a segunda ocorrência de A: ou seja “A é igual a A”. Mas, fisicamente , a primeira e a segunda ocorrência ocupam dois lugares distintos do monitor do meu PC; logo, os dois A(s) são diferentes - na medida em que ocupam diferentes posições no espaço-tempo. Mas, se é assim, então os dois A(s) não podem ser a mesma entidade, constituindo-se desta forma como duas entidades metafisicamente distintas (1) (apesar de aparentemente, como vimos acima, referirem a mesma entidade). Munidos deste minúsculo e impreciso aparato conceptual, admitamos agora por uns instantes que Rachel é uma pessoa. Ela tem de facto algumas das propriedades que lhe permitem ganhar esse estatuto, em especial aquela que julgo ser fundamental, e que o filme sublinha, a saber, a de ser (conscientemente) responsável e imputável pelas suas acções. Esquecemos pois, durante estes instantes, que Rachel foi “fabricada” artificialmente (do ponto de vista genético), que não tem o historial biológico de um ser humano normal, que possuindo as ferramentas e materiais adequados é possível duplicá-la fisicamente (um clone indistinguível de Rachel), etc (2) . O que faz então Rachel ser Rachel? O que faz com que tenha uma identidade? Essa identidade? Na sua obra An Essay Concerning Human Understanding (II, XXVII), o filósofo John Locke estabelece as condições necessárias - e, talvez, suficientes - para uma pessoa ter uma identidade. Segundo Locke, o factor que contribui decisivamente para alguém se reconhecer como a mesma pessoa (3), diferente de todas as outras, é o seguinte: o reconhecimento de si mesmo como sendo a mesma consciência presente em diferentes locais e em diferentes momentos do passado. Este critério de identificação recorre a algo que os filósofos, e não só, chamam a Memória Presencial. Por exemplo, se me lembro de ter estado na minha festa do meu 15º aniversário, possuo uma recordação da minha presença nessa festa. A sucessão de memórias presenciais que posso reunir sobre mim, conjuntamente com a minha consciência dessas memórias, ajuda-me a formar, pelo que diz Locke, a minha Identidade Pessoal (4). António Damásio propôs recentemente no Sentimento de Si uma abordagem naturalista ao problema da consciência; essa consciência que nos faz ser para nós próprios aquilo que somos, e não uma outra coisa qualquer. Segundo Damásio, sendo a consciência um resultado do funcionamento do cérebro, ela é a base de qualquer “percepção” que temos sobre nós próprios. Esta consciência é, metaforicamente falando, como o filme de um filme: O cérebro “capta” os acontecimentos que presenciamos (internos ou externos), colocando-os numa sequência cronologicamente ordenada. Simultaneamente, o cérebro mapeia essa sequência, criando um novo “filme” sobre o conteúdo do primeiro filme. Esse novo filme é aquilo que Damásio chama a Consciência de Si ou Consciência Nuclear (imaginem a Consciência Nuclear como uma espécie de making of …)(5). Sobre a Consciência Nuclear, algo que subjaz a todos os nossos estados mentais (conscientes, claro), acumulam-se “camadas” ou “rolos” de “filme”; “filme” autobiográfico, construindo-se assim a Consciência como um todo: o Si Autobiográfico e a Consciência Alargada . Este Si Autobiográfico pode muito bem ser aquilo que define a nossa identidade pessoal. Cada indivíduo, ou entidade, ou pessoa, possui um conjunto de memórias a que acede a partir da sua própria perspectiva, uma perspectiva da 1ª pessoa. Quando essas memórias - principalmente as presenciais - são acompanhadas pelo Si , pelo Sentimento de Si (a segunda camada de “filme”), fazem com que mais ninguém possa ser esse Si ou essa Consciência, permitindo assim a essa Consciência identificar-se consigo própria, i.e., ver-se como uma unidade e separar-se das restantes consciências. Bom, se a identidade é construída apenas segundo as perspectivas lockianas e damasianas, dificilmente Rachel terá uma identidade. A julgar por estas perspectivas, diríamos que Rachel tem dupla identidade: 1) A sua, e só sua, referente ao período de tempo que começa com a sua “activação”; e 2) A da sobrinha de Tyrell, cujas memórias presenciais são dadas na sua consciência (de Rachel). Eis uma cena capital do filme que confirma o dilema de Rachel: (Em casa de Deckard, depois de Rachel abater Leon. Enquanto Deckard descansa, Rachel vê as fotos da família de Deckard. Ela solta e penteia os seus cabelos, tentando com esse gesto como que criar uma nova Rachel – deixando de ser Rachel, a replicant , para passar a ser outra Rachel: Rachel, a mulher. Toca umas notas de música no piano, Deckard acorda e inclina-se sobre ela…) Deckard: Sonhava com música… Rachel: Não sabia se era capaz de tocar. Lembro-me das lições. Não sei se sou eu ou a sobrinha de Tyrell. (nas lições, e capaz de tocar) (Depois de perseguida e beijada à força por Deckard…) Deckard: Agora, beija-me! Rachel: Não posso confiar na memória… Deckard: Diz “Beija-me”! Rachel: Beija-me. Deckard: (diz) Desejo-te! (Quero-te) Rachel: Desejo-te! (Quero-te) Deckard: (diz) Outra vez Rachel: Desejo-te (Quero-te). Abraça-me! Curiosamente, o filme parece apresentar nesta cena uma saída para o dilema colocado por (1) e (2). Rachel já sabe quem é apesar de não poder confiar na sua memória e no seu Sentimento de Si . Rachel percebe que não é mais apenas a sobrinha de Tyrell ou a Rachel replicant. A identidade de Rachel passa agora pelo outro, define-se no contacto com, e em oposição a, ele. Ela define-se a si mesma como alguém que é “limitado” e “movido” por outro: Deckard. Ela deseja Deckard, quer Deckard, ama Deckard. É essa nova dimensão que define de ora em diante quem é. Não se trata de viver apenas em função do outro, trata-se de encontrar os limites na aproximação e proximidade com o outro. Aquilo que Rachel não conseguiu fazer adoptando uma perspectiva da primeira pessoa, consegue-o agora adoptando uma perspectiva exterior, considerando o outro por breves momentos a partir da perspectiva da terceira pessoa, para rapidamente voltar segura de quem é, a partir da perspectiva da primeira: ela é quem deseja, quer, ama, etc., Deckard. Ela é agora quem decide ser, e a sua identidade constrói-se nesse acto de ser para o outro como mais ninguém pode ou consegue ser. Mais, ela é o que vai ser no futuro. A identidade constrói-se talvez tanto naquilo que fomos, como naquilo somos, como naquilo que queremos e vamos ser. Consciência e Memória contribuem porventura apenas e só com uma parte para a definição da nossa Identidade Pessoal. Esta constrói-se no pensamento e na acção. Locke sabia-o, Damásio sabe-o. Rachel aprendeu-o na sua história ficcional. E nós? Bem, nós vamos compreendendo aos poucos, principalmente graças às lutas que desenvolvemos na nossa realidade nada ficcional. Somos seres que erram, aprendem, pensam e sentem. Não podemos por certo dispensar o uso de cada uma destas raridades (no panorama universal) no caminho para a descoberta de nós próprios. Eu não dispenso. ------------------------------- Notas: 1) Atenção que o termo “metafísica” não denota apenas o trans-físico ou o que está para lá daquilo que é físico. Esta é uma noção errada que o leigo costuma ter do significado do termo - ou da disciplina. Metafísica é, fundamentalmente, o estudo ou teorização do Ser enquanto Ser , ou do ente enquanto ente – não confundir com “doente” (um gozo familiar com alguns filósofos menos esclarecidos e do-entios, i.e., obcecados com a questão ao ponto de perderem o contacto com a realidade que querem definir). Sobre Metafísica, Propriedades, Atributos, Predicados, Identidade, Indiscerníveis, Idênticos, etc., consultar: http://pwp.netcabo.pt/0154943702/ 2) Sobre isto, ver este texto de J. Pryor 3) O problema é muito mais complexo do que o pouco que estou aqui a enunciar. Paul Ricoeur alertou, por exemplo, para o facto de que ser a mesma essência num dado momento ( ipse ) e ser a mesma essência ao longo do tempo ( idem ) são coisas distintas e problemas distintos (Ver este bom texto sobre o assunto e sobre a perspectiva de Ricoeur). Sobre este assunto, ver também a seguinte discussão: «Discussão de dois pontos de vista sobre a natureza da persistência e da mudança: o duracionismo, a doutrina de que particulares concretos duram no tempo, existem inteira e completamente em ocasiões distintas; e o perduracionismo, a doutrina de que particulares concretos perduram no tempo, são compostos por diversas partes temporais distintas» João Branquinho ( ligação ). 4) Sobre o critério lockiano da identidade pessoal, ver este texto (em formato adobePDF e um pouco complexo, diga-se) do autor deste artigo. 5) Atenção que a consciência é uma única coisa, uma coisa una, por assim dizer. As divisões são meramente conceptuais, instrumentos que Damásio usa para explicar o que é o fenómeno e as suas várias fases de surgimento e/ou desenvolvimento. Sobre a perspectiva de Damásio, aconselho este texto .
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