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Blade Runner, (ex)tensões do Negro, por Pedro Sargento - 10.12.2005 (1ª perspectiva) |
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O efeito que as matizes escuras que circundam todo o filme produzem, traduzem-se num efeito de abrandamento que parece sugar-nos para dentro do ecrã. Existe um sentimento de distância que contribui para nos manter alerta, interessados pelos intervenientes, embora tenhamos os sentidos absortos pela atmosfera dançante e hipnótica daquela cidade e daquela negrura. Somos instalados, portanto, como se não mais tivéssemos controlo sobre nós, como se fôssemos criações de uma vontade superior, que no dar a imagem mostrasse um poder sem forma, sem face, mas implacavelmente soberano, místico e visível, forte e sedutor. Esse inominável poder, agachado por trás daquilo que dá a ver, e que lhe é uma face tão aparente como verdadeira, pré-existe-nos, enquanto espectadores, enquanto seres-humanos, porque dele não faz parte qualquer definição, qualquer imposição da palavra. O que de mais anterior se esconde por trás da imagem, por trás da cor, por trás da consequência no sujeito daquilo que é imagem, só se esconde porque a sua oferta o torna invisível. Tentando não desenhar elipses com palavras – mas o disegno, a figura, estão no âmago, eterno, das questões - , re-tornemos a uma certa mostração da cor. A-mostragem filosófica que em Blade Runner exponencia a dor do não-ser-humano, que na ausência de um “nítido nulo” de identidade humana em melancolia inumana, não animal mas petrificada, se inunda. A cidade também se afunda, numa antipatia (que é ainda uma relação) pós-humana com os seus habitantes. Por um ideal ultra-tecnológico e capitalista fomos levados, pelo que a visão de Ridley Scott nos faz ver, a um mundo em falência. Por ele deambulam despojos de um sonho falhado. Andrajos, podridão, acidez, e ausência. E quando a trama nos leva aos interiores das casas? abandono, vazio, humidade. As tonalidades de chiaroscuro , ou o clarObscuro que a imagem dá fundamenta também ela todos os aspectos dialógicos, narrativos e tradicionalmente “filosóficos” que o filme carrega. A evidência só pode aparecer com a Luz. Assim como a cor, mesmo este negro envolvente que numa metamorfose ininterrupta se dissemina por todo o filme, mesmo este negro é um negro de Luz. Um clarão inflectido que se mostra, por exemplo, com os olhos azuis de Roy, o mais poderoso dos cyborgs. Um negro respirante que coloca sob o seu jugo as coordenadas do tempo e do espaço. Ele é, pois, mais do que uma opção estética, mais ainda do que uma personagem por si só, (como, por exemplo, New York é uma personagem nos filmes de Woody Allen ou Martin Scorcese), é ainda uma presença fundamental, e fundacional, dir-se-ia ontológica, que assegura, sem apelo, o aprisionamento do receptor/participante dentro deste halo disforme, hipnoticamente confinado a um espaço sem paredes, da mesma forma que no mundo obedecemos aos limites/barreiras físicas, e também aos limites metafísicos que, mais uma vez operando por prisões, impõem factos como a identidade, o corpo, ou a dor. Mas onde se revela este aprisionamento que o espectador sofre ao re/Velar-se a Luz negra de Blade Runner? Certamente não da mesma forma que as possibilidades metafísicas do mundo real (mas porque é o extra-fílmico o Real?) definem as suas próprias impossibilidades. Não é pelos mesmos métodos que estou confinado a não violar o princípio da Identidade (A é sempre igual a A), da não-contradição, ou do terceiro excluído no mundo extra-fílmico e, ainda por aprisionamento, estou, ao deparar-me com o vácuo produzido pelo negro de Blade Runner, a ser sugado por outras condições essenciais e necessárias. Os modos próprios da cor operar a fundação profunda de um mundo-outro, paralelo a esta mesmidade à qual quase sempre chamamos de “realidade verdadeira”, estão relacionados com uma laboração primordial do Poder que se esconde por trás da doação dessa mesma cor, da imagem e, em geral, do visual. Aqui, obviamente, sente-se a presença de uma alêtheia (uma Verdade) que é encontrada num domínio mais específico do pensamento humano, que não se exclui, claro,a essa Verdade. Esse domínio é aquele que se deveria chamar Estética. Ou seja, mais do que procurar compreender a Obra de Arte, ou mesmo a Criação humana em geral, dever-se-ia tomar como hipótese a verdade da Verdade que, em imagem, som ou cor, se desdobra e nesse desdobramento permanece oculta, como Poder que doa estímulos à percepção e ao pensar humanos. Receio bem que alguma parte daquilo que motiva o Homem à Criação, à Arte em particular, é a tentativa de, por algum meio, dar forma de Imagem a esse Poder, sendo ele próprio (esse Poder) aquilo que dá a Imagem à humanidade. Responda-se: este encarceramento dentro da imagem, dentro do éter da Imago, tem um sentido íntimo de co-essencialidade, trata-se de um encontro olhos nos olhos entre uma força criadora e doadora e uma possibilidade de busca dessa força, que através da cor encontra as ressonâncias da fonte desse dar-a-Imagem. O que de descoberta tem esta experiência reside no que de entes criados nós somos, no que de ofertas ao Ser somos. Do lado da Criação artística, dir-se-ia que quanto mais pujante é a mostração do Poder que tudo à existência dá, e quanto mais aprimorada for a execução, maior é o sentimento de descoberta, de encontro, de ultra-identificação, porque creio que esta identificação se estende para além da identidade pessoal, pois esta basta-se no desafio da procura daquilo que me leva a mim a identificar-me comigo próprio. Só considerando a cor como entidade definida, com corpo e identidade próprias é possível pensar que ela chega como expressão de uma outra coisa, talvez mais essencial, e certamente mais indefinida. O “posto” que a cor pode ocupar, primeiro dentro do espectro do visual e depois num pensamento sobre as origens, ou seja, num partir em busca da sua verdade, só é possível se com ela nos impressionarmos, perscrutando-a enquanto símbolo. A cor apresenta-se frontalmente, de forma implacável em obras como Blade Runner. A sua impactualidade não nos deixa indiferentes e por isso, a partir desse impacto, é-nos garantida a sua presença como sinal, como algo que com alguma parte de nós se identifica, tal como quando vemos uma cara conhecida na multidão, mas não sabemos exactamente identificar de onde. Por isso, aquela consideração da cor como entidade identitária e corporal não é um acto, na sua origem, consciente nem reflexivo. Essa suposição só assenta em nós quando a força do impacto do visual sobre nós se abate, despertando na mente consciente uma Vontade de Saber. Mesmo o negro, que é para qualquer cientista a
ausência da cor, não pode senão ilimitar
a obra, porque a expande para além dos seus limites físico
e sensitivos. O negro é vácuo, imensidão e silêncio.
Também por isso a música de Vangelis, em Blade Runner,
é uma música adequada – pois cala mais do que musicaliza
o ambiente –. Quando a cor nos puxa para dentro do filme, determinando-nos
sob condições-outras, de que já falei, opera precisamente
uma expansão. E mesmo o aprisionamento dentro de um espaço
fílmico, paralelo ao Real, não é para nós
um momento de encarceramento senão como um encarceramento em diferença
ontológica, onde uma possibilidade se torna efectiva. E isto
significa um adiantamento e não um verdadeiro cárcere. Significa
um acrescento de liberdade, porque uma novidade, uma diferença
é descoberta. Aquilo que acrescenta, em qualidade, modos de experiência
do Mundo, confere à humanidade um impulso, um novo tópico,
um novo vector.
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