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Este
artigo surge na sequência de uma série de artigos (este,
este,
este e este) que o meu
colega Luís redigiu, motivado, pelo menos em parte, por este
meu texto, aqui há uns tempos…Por essa razão,
é necessária a leitura deste artigo acompanhada dos artigos
do Luís, pois este segue a linha argumentativa daqueles.
Os pontos principais sobre os quais todos os textos assentam são
o cepticismo filosófico e a utilidade, ou falta dela, da
Filosofia.
Vou então tentar explicitar as minhas posições acerca
destes dois temas.
O cepticismo radical, por exemplo, que o Luís desmonta, fazendo
dele um acto auto-contraditório, tem a pertinência toda que
é devida a uma argumentação lógica sem falhas.
O que me faz confusão, não só neste tipo de argumentação,
mas no uso que o Luís faz dela ao longo dos seus três artigos,
é que nada continua a ser confirmado, mesmo depois das consequências
explosivas que o discurso do meu colega produz, a saber, o corte pela
raiz da possibilidade de se ser céptico. Segundo percebi, o que
os três artigos mostram, estritamente, é apenas a suposta
impossibilidade de sermos adeptos de certos tipos de cepticismo. Enumerando:
Cepticismo radical – Como já
disse, é de conceder à Lógica o sucesso em desmontar
esta forma de cepticismo. De facto, é necessário que a afirmação
“nada se conhece” se postule como verdadeira, antes de ser
anunciada pelo céptico.
Em relação a isto, quero apenas lembrar que a famosíssima
sentença socrática, “Só sei que nada sei”,
se enleia no mesmo tipo de auto-contradição. Obviamente,
Sócrates deveria ter acrescentado: “…e nem sequer isso
sei!”
Mas atenção, que aqui estamos a analisar apenas teses e
atitudes que reportam directamente à Epistemologia, e a teorias
do Conhecimento. Do ponto de vista da Moral e da Ética, a frase
de Sócrates é muito importante.
Cepticismo light, mais metódico e cartesiano
– A contra-argumentação do Luís é, na
minha opinião, também ela céptica. O que o meu colega
reafirma é que, no final, mesmo podendo confrontar este céptico
com a impossibilidade de se provar a tese do génio maligno, ficaremos
eternamente na dúvida se de facto, ele existe. Ou não. O
céptico partidário do deus enganador não prova estar
certo, mas escapa sempre à demonstração da falsidade
da sua posição. Ergo, é possível
estarmos enganados mesmo quando nos convencemos que 2+2=4. O que conta
aqui é que o céptico light pode estar certo. Ora,
se nos lembrarmos que o intuito do Luís é o de demonstrar
a efectiva utilidade da Filosofia com base na rejeição
das teses que afirmam a impossibilidade de se atingir o conhecimento (veja-se
o final da sua introdução),
verificamos que neste caso podemos perfeita e consistentemente continuar
a não acreditar na possibilidade do conhecimento. A tese não
é rejeitada, pelo menos com base na análise lógica
das crenças que a sustentam.
Afirmei que a refutação é também ela céptica,
porque conduz a uma terra de ninguém. Não há forma
de provar de que lado está “a razão”. Descartes
encontrou a chave (o cogito) que lhe entreabriu a porta para
escaparmos ao génio maligno, mas precisou de uma crença
forte num deus benévolo para justificar a verdade de tudo aquilo
que não é o “eu”.
O céptico desinteressado e indiferente a
tudo e todos – Aqui trata-se sobretudo de uma atitude.
Questiono, no entanto, a pertinência de colocar a análise
de uma atitude “filosoficamente” blasè num
texto que quer refutar, com rigor analítico, argumentos a favor
do cepticismo. Concordo, no entanto, que esta atitude de indiferença
a argumentos não pode ser considerada filosófica, excepto,
talvez, quando decidimos guardar silêncio, à Wittgenstein,
sobre tudo aquilo do qual não se pode falar.
O céptico arbitrário-palavroso –
O Luís caracteriza este “tipo” de céptico como
aquele que afirma que “ninguém está na posição
privilegiada do olho de Deus”, e, portanto, não se pode
esperar que um ser humano consiga alcançar a Verdade, devido ao
facto de estarmos todos confinados à perspectiva humana sobre o
mundo, perspectiva essa que está condicionada pelo “modo
humano” de ser e percepcionar.
Se este tipo de céptico estiver certo, segue-se que não
há possibilidade para o Homem de alcançar o conhecimento.
Creio que é isto que o Luís quer dizer com o “tudo
vale”. Isto é, toda a pretensão de Verdade vale o
mesmo porque vem da boca de um ser humano.
Devo dizer que não simpatizo com um tipo de Filosofia
do género “tudo vale”. Isto porque me parece que tal
atitude anula qualquer motivação para buscar aquilo que,
pessoalmente, mais me interessa no domínio da Filosofia: a
criação, a invenção
e a novidade, com rigor e génio.
Mas a suposta “rejeição” que o Luís faz
a este tipo de cepticismo resume-se ao anúncio de não aceitar
quem a tem, seja porque é palavroso e inconsequente (mas quem é
assim, exactamente? Há exemplos concretos? Filósofos ou
estudiosos que singram mesmo que só desenvolvam chorrilhos de conclusões
que não se seguem?), seja porque o entrar em improvisação,
jogando com a polissemia das palavras, os seus ecos e musicalidades, é
imediatamente rejeitado, pelo meu colega, como algo que não tem
lugar no espaço da Filosofia. Eu penso que as palavras têm
importância crucial na transmissão de ideias. Eu admito que
me esforço, quando escrevo, por combinar palavras em relações
inverosímeis, e até em inventar palavras. Isto porque o
que resulta de uma combinação inesperada de palavras são,
muitas vezes, imagens que colocam a nossa consciência numa outra
posição em relação ao objecto de que as palavras
falam. Acredito nas palavras, pela forma como elas podem espelhar o mundo
sob outros ângulos. Se usarmos assim a linguagem, e ao mesmo tempo,
quisermos com ela mostrar um pensamento, uma
imagem, uma reflexão, não vejo porque não podemos
ser “palavrosos”. E não vejo porque é que o
mero facto de se ser “palavroso” é para o Luís
critério de rejeição de uma posição
filosófica. Mais uma vez, creio que a posição não
foi de todo rejeitada, pois não foi provada a falsidade da posição
do “céptico palavroso”.
Ainda mais espantado fico quando vejo que a atitude que o Luís
recomenda contra este tipo de Filosofia é a seguinte:
“A primeira é adquirir, pragmaticamente,
mais habilitações e reconhecimento por parte da sociedade
do que eles próprios têm (e que não se percebe muito
bem como conseguiram adquirir) e, a bel-prazer, ser legitimamente para
com eles tão ou mais arbitrários do que eles são
para connosco, enviando-os assim para o limbo que merecem. Segundo, ir
jogar ao berlinde e deixá-los a pregar as suas arbitrariedades
às larvas – teria que ser às larvas, pois os peixes
são criaturas inteligentes e não estariam certamente dispostos
a ouvir tais parvoíces, muito menos em academias que sustentem
projectos de educação sérios, porque coerentes, bem
estruturados e com finalidades bem definidas.”
Portanto, a forma como o Luís está disposto
a encarar pessoas que acreditam na multi-utilidade da linguagem e que
acreditam poder usá-la de forma excessiva, de modo a com ela criarem
novas possibilidades de imagens, ou pensamentos, ou raciocínios,
é desprezá-las, e compará-las a seres menos inteligentes
que peixes (!). Para além disso, parece ser perfeitamente legítimo
usar do reconhecimento social e das habilitações para se
ser tido como um verdadeiro representante da Filosofia e do seu correcto
uso, pois é assim que o Luís “rejeita” o “cepticismo
palavroso”. Com respeito a isto, tenho de chamar a atenção
para o facto de eu ter sido criticado, pelo próprio Luís
no seu último artigo,
por sugerir que os filósofos vestem uma autoridade que lhes é
reconhecida para justificarem a utilidade do seu trabalho. Aqui, o Luís
quer aplicar o tal reconhecimento social e académico como argumento
para abandonar qualquer discussão que não atenda à
sua ideia de linguagem, que julgo ser do tipo “o mínimo possível
e, quando possível, substituindo-a por símbolos”.
Não há aqui qualquer tipo de sarcasmo. Esse é um
tipo de utilização possível e legítimo da
linguagem, mas que julgo reduzir o leque de possibilidades úteis
da linguagem para a Filosofia.
Resta dizer, como conclusão, que também aqui não
me parece que o argumento “céptico-palavroso”, referente
à impossibilidade de nos colocarmos na posição do
“olho de Deus”, tenha sido rejeitado. Aliás, rejeitado
sim, da forma ilegítima que descrevi, mas certamente não
refutado. Logo, o “céptico-palavroso” continua a poder
usar o argumento, porque ele pode estar certo.

No terceiro artigo do Luís, analisam-se várias
formas de relativismo. É fácil perceber a diferença
entre cepticismo e relativismo: o céptico afirma a impossibilidade
do conhecimento, enquanto que o relativista afirma que ele é possível,
mas não objectivo, ou seja, não é intemporal, a-histórico,
ou a-cultural.
As análises e argumentações do Luís neste
seu artigo são, na minha opinião, lúcidas e bem expostas.
Mas gostaria de questionar alguns aspectos do que lá está
escrito:
Vejamos as três primeiras formas de relativismo:
o relativismo temporal – Existem
dois pontos que gostaria de discutir acerca do relativista temporal: em
primeiro lugar, concordo, como diz o Luís, que “é
verdadeiro tudo o que é o caso, é falso o que não
é.”. Atenção, porque isto não é
o mesmo que dizer que “A Verdade é só e somente aquilo
que é o caso”! A isto voltarei mais tarde… Mas sendo
de facto o caso que é a Terra que gira em torno do Sol, foi apenas
pela “fatalidade” da passagem do tempo (evolução
dos instrumentos de medição, dos cálculos, etc…)
que descobrimos a falsidade da conclusão “científica”
de Ptolomeu. Assim, dir-se-ia que o tempo e o período histórico
não são, per se, aquilo que constrói a Verdade
(pois esta é também, embora não exclusivamente, tudo
aquilo que é o caso, supõe-se, independentemente do período
temporal em que se está), mas são condição
necessária à descoberta da falsidade na qual, anteriormente,
se sustentavam algumas conclusões. O relativista temporal, ao afirmar
que a Verdade é relativa ao tempo em que x ou
y proposição é enunciada, tem,
parece-me, razões para obrigar a Verdade a submeter-se, em medida
considerável, ao tempo. Embora o seu ponto principal seja incompatível
com uma teoria objectiva da verdade, não é incompatível
com uma visão mais “oscilante” da Verdade, nomeadamente,
uma que continua a postulá-la como objectiva, mas que a submete
à verificação que só o tempo permite que se
faça.
Obviamente, o exemplo de Hitler adequa-se a estes argumentos, mas percebe-se
menos porque um relativista temporal poderia alguma vez argumentar que
o facto de Hitler ter mandado matar milhões de pessoas é
uma verdade sujeita ao tempo em que é enunciada. O Presidente do
Irão, que nega o Holocausto, não está certo, pois
o Holocausto é um facto. Mas também não consta que
ele se assuma como relativista temporal, o que consta é que ele
é um extremista cego às evidências dos factos. Aliás,
e espero voltar a este assunto mais tarde, parece-me que há muita
dificuldade por parte dos filósofos analíticos em combater
argumentos cépticos e principalmente relativistas sem recorrerem
a factos científicos aceites como provados. Ciência não
é Filosofia, e a Filosofia não se basta na Filosofia da
Ciência!
O segundo ponto que gostaria de discutir tem a ver com
a tentativa de redução que o Luís faz, da posição
relativista (seja temporal ou cultural, ou ainda contextualista), a uma
forma extrema de cepticismo. Parece-me muito plausível o ataque
que o Luís enceta. Parece-me também plausível que
um relativista, ao afirmar: “Toda a verdade é relativa (por
exemplo), ao tempo histórico”, o faça aceitando que
esta sua proposição cai dentro daquilo que enuncia. O relativista
que afirma “Toda a verdade é histórica, incluindo
a verdade desta minha proposição” tem ainda o problema
que surge da crença que ele tem na verdade desta sua proposição.
Se até a sua proposição é relativa ao tempo
em que é enunciada, então a tese não faz mais do
que vincar-se a ela própria. Ela aceita-se como verdadeira, é
certo, mas aceitando também, para si própria, a condição
temporal da verdade. Se a proposição aceita, deste modo,
a temporalidade da sua própria verdade, segue-se que ela não
pode colocar-se na perspectiva trans-temporal e trans-histórica
que necessita para se poder ter como verdadeira.
Em relação ao relativismo cultural,
nada há a acrescentar, pois a sua tese apenas difere do relativismo
temporal na forma como impõe à Verdade a condição
cultural. No entanto, note-se que os exemplos para afirmar os maiores
méritos e a melhor “condução da racionalidade”
que as sociedades ocidentais operaram são ainda exemplos científicos:
“Na sua perspectiva, vale tanto a “sabedoria
astrológica” do aborígene australiano, assente na
tradição e na crendice (indemonstrada racionalmente), quanto
o conhecimento científico do astrofísico ocidental, assente
na teorização e demonstração científica
(outra comparação impossível é a da pseudo
medicina tradicional do Prof. Karamba vs a de um médico da tradição
ocidental de Hipócrates).”
Ora, isto é, na minha opinião, tomar a Filosofia
por Ciência. Não será também objecto da Filosofia
perceber a forma como a Grécia Antiga produziu a Tragédia,
mostrando nesta forma artística uma concepção do
Homem que o Ocidente perdeu e, seguindo a tese de Nietzsche, aburguesou
com a criação da ópera? É destituído
de qualquer teor filosófico, ou seja, de interesse em relação
à Verdade, a forma como as sociedades arcaicas celebram os seus
ritos religiosos, mostrando uma forma pré-civilizacional de ligação
com o Sagrado? Porque é que são os factos científicos,
que concedo serem um sucesso da civilização científica
de índole maioritariamente ocidental, os únicos que servem
como critério para mostrar a “verdadeira e legítima”
busca pela Verdade? Não será esta atitude a atitude de uma
cultura auto-centrada, demasiado confiante em si própria para destituir
de valor aquilo que ao longo do tempo dela se desligou?
Quanto ao contextualismo, devo dizer que não é
um tema que domine particularmente. Ao que consta, é uma tese muito
discutida na Filosofia da Linguagem e na Epistemologia contemporâneas.
Segundo me parece, a maior parte das formas de contextualismo alargam
o conceito de “contexto” a conteúdos mentais, como
as intenções. Parece-me que fazer depender o valor de verdade
de uma proposição da talvez incomensurável quantidade
de elementos que formam o contexto na qual ela é asserida tem interesse
e pertinência para aclarar a forma como a linguagem, ou o conhecimento
se relacionam com o mundo. Mas não vou falar do que não
conheço (enfim, também não conhecemos a Verdade e
estamos para aqui a alongarmo-nos sobre ela…).
O relativista da Ciência – é de facto
difícil para um relativista da Ciência atacar a possibilidade
da racionalidade atingir a Verdade, usando para isso uma crença
na racionalidade da sua tese, como bem está explicado no
artigo do Luís.
Mas vejamos o parágrafo:
“Há outras formas bem conhecidas de atacar a
verdade e a possibilidade de conhecimento, nomeadamente o conhecimento
científico. Os relativistas com respeito à racionalidade
e à ciência tentam minar a confiança no seu valor
intrínseco e instrumental. Uma dessas formas é atacar as
capacidades da racionalidade humana, ou negar que o conhecimento pode
assentar sobre bases seguras, i.e., negar que o conhecimento tem fundações
seguras. Mas estes ataques parecem estar condenados ao fracasso enquanto
dependerem, e vão depender sempre, de um núcleo forte de
racionalidade e de conhecimentos. Quer dizer, não se pode usar
a racionalidade para atacar a racionalidade sem admitir de antemão
que a racionalidade “funciona” e que, assim, é possível
um ataque racional à racionalidade.
Outra maneira de minar a confiança na verdade e no conhecimento
é afirmar a imensurabilidade dos resultados científicos
ou filosóficos devido ao facto de qualquer resultado ser alcançado
a partir de, e no, “interior” de, um determinado paradigma
científico ou filosófico. Não vou responder aqui
a esta questão; mas, como é óbvio, os condicionalismos
do funcionamento da ciência não são suficientes para
deitar por terra tudo o que ela alcançou, teórica e pragmaticamente.
Quase de certeza que o relativista da ciência que escreve agora
uma crítica a este texto e que se coloca nessa crítica contra
o valor per se da ciência já deixou de usar máquina
de escrever e “bate” agora (freneticamente) as suas críticas
num moderno computador portátil de última geração,
resultado de um processo cientifico no qual dizem - muitos deles, hipocritamente
- não acreditar.”
A minha opinião é que se pode atacar a racionalidade
usando a racionalidade. Isto pode ser feito se não confundirmos
racionalidade com Ciência. Existem muitas outras formas de o ser
humano expressar-se usando a racionalidade: A Arte (pelo menos, a sua
produção por parte do artista), a Filosofia da Religião,
a Filosofia da História, a Literatura. É justo acreditarmos
que estamos a procurar a Verdade quando criamos Arte, ou quando interpretamos
os acontecimentos da História. O relativista da Ciência é
normalmente alguém que acredita que a Verdade não se esgota
na descrição e explicação de fenómenos,
ou na criação de instrumentos que, em geral, ajudam a humanidade.
Para um escritor, por exemplo, é plausível afirmar que ele
acredita que da Verdade faz também parte a ficção
do que escreve, seja só porque é algo que ele verte para
a Realidade, para a existência, ou, mais pragmaticamente, porque
acredita que o que escreve está de acordo com o mundo. Há
nestas dimensões do labor humano uma grande e necessária
dose de racionalidade, mas não de Ciência, entendida como
descrição objectiva de fenómenos. Se aceitarmos que
a criação artística ou filosófica marcadamente
subjectiva – porque reporta sempre a um sujeito defronte ao objecto
– tem algo de verdadeiro, então estamos ainda em condições
de questionar a objectividade da Ciência com respeito à
Verdade. (e não com respeito às suas criações,
como computadores portáteis, por exemplo, que são factos
verdadeiros). Isto porque a Verdade se expande para lá das verdades
objectivas dos factos que a Ciência procura. Só para dar
um exemplo, um pouco, extremo, convido o leitor a considerar que a Verdade
é também aquilo que envolve toda a busca do Homem pelo conhecimento,
que a Verdade engloba em si o próprio movimento científico
de procurar a "Verdade". Talvez já tudo
seja Verdade. E, por isso, mais não fazemos do que a cumprir, quando
acreditamos estar a procurá-la.
Mais à frente o Luís dirá: “A Verdade
procura-se objectivamente!”. Mas não será
possível que esta busca simplesmente faça já parte
da Verdade? Por outras palavras, que argumento tem a Ciência para
provar que as suas descobertas são descobertas acerca da única
Verdade, cuja univocidade tanto parece agradar aos filósofos analíticos?
Uma última nota em relação à acusação
de hipocrisia que o Luís faz a quem utiliza um portátil
e defende um cepticismo contra a Ciência. Como agora mesmo defendi,
um céptico da Ciência pode muito bem achar que a Ciência
é útil, e até que descobre, de facto, verdades. Então
o que tem de mal usar um computador em vez de uma máquina de escrever?
Para ser coerente comigo mesmo, no momento em que afirmo que a Ciência
não pode esgotar a Verdade, tenho de ir a correr comprar uma prensa
guttenbergiana? Os instrumentos são invenções científicas,
resultado de descobertas objectivas. Que têm eles a ver com a Verdade,
se a Verdade for aquilo que já disse poder ser, a não
ser que já a são?
O pragmático holista – Creio que este tipo
de relativismo se aproxima bastante da “teoria da Verdade”
que sugeri nos parágrafos anteriores. A Verdade é algo mais
do que aquilo que é descoberto na relação sujeito-objecto.
Acredito na plausibilidade desta ideia de Verdade, e não me parece,
mais uma vez, que o Luís possa dizer que ela foi rejeitada, o que
significa que a sua ideia de Verdade não pode ser ainda aceite
sem restrições.
O Luís caracteriza este tipo de relativismo “pragmático-holista”
juntando dois tipos de relativismo que penso não estarem intimamente
relacionados.
O Holismo é a teoria segundo a qual o todo é maior do que
a soma das partes. Aplicando ao nosso problema, significa que a Verdade
(o todo) é maior do que a soma de todas as relações
epistémicas entre sujeitos e objectos (as partes).
O Pragmatismo é a teoria segundo a qual, como diz o meu colega,
a Verdade é uma construção que visa satisfazer as
necessidades de um certo tempo, ou de uma certa cultura, em suma, de um
certo entendimento, datado, de Verdade.
Não vejo intimidade entre o Holismo e o Pragmatismo. O Holismo
postula que há uma Verdade absoluta que nos escapa, porque não
está completamente contida na relação sujeito-objecto,
e o Pragmatismo afirma que a Verdade não é mais do que a
verdade que melhor se adequa ao contexto actual. As representações
de Verdade são bastante diferentes nestas duas escolas, numa ela
é Una e existe per se, noutra ela é fragmentada
e existe em nós.
Não estou inclinado, tal como o Luís, a aceitar a posição
pragmatista acerca da Verdade pelas razões que fui apresentando
ao longo deste artigo, mas também não estou à vontade
para concordar com os seus exemplos e argumentações, a saber:
“Para alguns destes espécimes
mais obscuros, a verdade até é algo que - miraculosamente!
- se “desvela e aparece”, algo que brota das fontes e dos
campanários, nos quais foi gentilmente depositada por poetas e
trovadores que, sabiamente, aprenderam a “beber” o sentido
da vida por inacção. Tolice! A verdade procura-se objectivamente:
a Terra não gira em volta do Sol porque isso é um consenso
útil para a maior das pessoas, ou permite uma qualquer vantagem
de espécie num determinado contexto. A Terra, o planeta, gira de
facto à volta do Sol, e vai continuar a girar mesmo que deixem
de existir seres humanos para constatar esse facto. A teoria da verdade
como correspondência, apesar de possuir bastantes problemas, ainda
é a que nos parece melhor quando se trata de explicar o que é
a Verdade.”
Para além de comparar o Pragmatismo à visão
poética, ontológico-heideggeriana, de Verdade, o que me
parece bastante descabido, repare-se que o exemplo é ainda o mesmo,
o da Terra girar à volta do Sol, ou seja, reincide na intenção
de usar um facto científico para provar toda uma suposta refutação
filosófica, confundindo, na minha opinião, Filosofia com
Ciência ou, pelo menos, querendo que uma e outra sejam a mesma coisa.
Elas não são a mesma coisa, entre outras razões,
porque a Filosofia não é apenas uma forma de descrever e
compreender fenómenos a partir de um método fixo. A Filosofia
pretende, ou devia pretender, ser diferente da Ciência, porque só
assim se constitui como uma disciplina autónoma com um carácter
mais ou menos definido. Mais ou menos, porque se a Filosofia se definisse
de uma vez por todas deixaria de ser Filosofia. Ela vive da sua auto-indefinição.
Chegamos então à última secção
deste meu artigo, que incidirá sobre as críticas que me
são dirigidas no último
artigo do Luís.
Recordo que essas críticas se reportam a este
meu primeiro texto, que abriu toda esta polémica.
A última escola de pensamento analisada é o perspectivismo.
O perspectivismo, como está bem explicado no texto do Luís,
é a teoria segundo a qual qualquer “anúncio”
de verdade está condicionado pelo facto de provir de uma perspectiva.
Assim, qualquer perspectiva reflecte os condicionalismos do sujeito. É
por isso que o perspectivismo se aproxima bastante do contextualismo –
é um contextualismo referente ao próprio sujeito –
e também do relativismo, pois é um relativismo subjectivista.
O texto que o Luís transcreve é de facto revelador de como
o perspectivismo pode implodir, se cair no erro de não se aplicar
a si próprio. Mas parece-me que a tese perspectivista não
deve cair nesse erro, se meramente se analisar o conteúdo implícito
da sua formulação. Ou seja, se o perspectivista afirma:
“Tudo, mesmo a Verdade, depende da perspectiva do sujeito (sobre
ela)”, então daí resulta que até esta afirmação
é uma perspectiva. Uma perspectiva que abre a porta à possibilidade
de não dela se partilhar. É por isso que o perspectivismo
é uma teoria do conhecimento muito próxima a Nietzsche e
ao nihilismo. Se o perspectivismo, assim formulado, se aceita como apenas
mais uma perspectiva, então nada há a fazer, por exemplo,
em relação a uma tentativa de procurar-se a Verdade. Todos
os valores reduzem-se a um nada, do qual resulta a inacção
e, consequentemente, a descrença nihilista. Se, por outro
lado, o perspectivismo julgar que escapa à sua própria formulação,
então sem dúvida que se contradiz. Ele não pode querer
que tudo seja apenas perspectiva, assumindo que ele próprio não
o é. Esse é que é, na minha opinião, o risco
que algumas teses relativistas correm.
Devo dizer que não nutro grande apreço pelo perspectivismo
e pela sua consequência extrema, o nihilismo. Considero que a acção
humana deve irromper através do vislumbre da total falta de sentido
do mundo e da vida, e deve procurar-se sempre a criação,
a novidade, o rasgo.
Avancemos então para o bicudo problema acerca da
utilidade, ou inutilidade, da Filosofia, depois de tudo isto.
Adiantei, na minha Interrogação,
que a suposta utilidade da Filosofia é muitas vezes defendida para
justificar o trabalho dos filósofos. Para a comunidade filosófica,
especialmente a académica, poder justificar o seu trabalho, tem
de acreditar que está a caminhar para a Verdade. Isto porque queremos
mostrar que o nosso trabalho precisa de apoio por parte das estruturas
que a suportam.
A lógica das instituições sociais é a lógica
da utilidade. Sim, elas são utilitaristas – procuram
o maior bem para o maior número possível de seres humanos
– O que aconteceria se as instituições filosóficas
admitissem que a Filosofia é, de facto, inútil tendo em
vista um certo entendimento de Verdade? Elas desapareceriam, pois já
não seriam consideradas úteis pela “aparelhagem”
institucional que as mantém (na maior parte dos casos precariamente)
vivas.
Por isso, o que fazem os filósofos que se encontram para debater
e confrontar as suas reflexões? Acreditam piamente que a Verdade
é alcançável e que a Filosofia tem, por isso, utilidade.
Agora, o que eu entendo aqui por utilidade tem de ser colocado
em íntimo contacto com um certo entendimento do que é, afinal,
o objecto da Filosofia. Philos-Sophia, o amor pela sabedoria,
pela Verdade, pelo conhecimento. Observemos à luz da philia,
à luz do amor: pode o amor deixar de procurar o objecto
amado? Pode, afinal, o amor atingir e reunir-se completamente no objecto
amado, deixando de existir a busca? Se isto acontecesse, poderíamos
continuar a falar de amor, como ente separado do seu objecto?
Não é a relação dos amantes uma que procura
incessantemente o outro, querendo, de alguma forma, perpetuar
essa procura, para não deixar de ser amor?
Uma vez encontrada a Verdade, deixaria de existir a sua procura, e então
deixaria de haver Filosofia.
Mas os filósofos que acreditam que a Verdade é e deve ser
alcançável, especialmente segundo os métodos da mais
fria objectividade, parecem não ligar muito a isto. Para eles conta
principalmente a Filosofia como correspondência a factos, e não
a Filosofia como correspondência a, afinal, ela própria.
É assim que eu afirmo que, se de facto a Filosofia procura uma
Verdade Una, alcançável e verificável ela está
a caminho da sua própria destruição. “Filosofia
como autofagia.”
Mas acredito sobretudo que a própria essência da Filosofia
(não falo em essências metafísicas, apenas me refiro
ao que está implícito no seu próprio conceito) não
deixa que ela alcance a Verdade. Lembro-me agora de um tema interessante
que estudei na faculdade, numa disciplina da Prof. Maria Luísa
Ribeiro Ferreira, e que expunha a Filosofia como controvérsia.
Só a controvérsia faz a Filosofia, e já agora, todas
as ciências, existirem e subsistirem. Não é fatalidade
da Filosofia esgotar a Verdade, acredito mesmo que a própria Filosofia,
enquanto Filosofia, não o permitirá, pois mesmo as disciplinas
possuem o seu instinto de sobrevivência.
Quer isto dizer que a Filosofia é inútil? Não, e
não foi isso que afirmei, como diz o Luís. Eu sugeri (não
é um jogo de palavras, é mesmo diferente de “afirmar”)
que a utilidade que muitas vezes é conferida à Filosofia
não é a sua verdadeira utilidade. A utilidade que o Luís
vê na Filosofia é uma utilidade prática, com cariz
de finitude da própria Filosofia. Creio que não
me engano: o meu colega acredita (e fá-lo de forma coerente) que
a Filosofia tem utilidade para acabarmos por resolver os dilemas que existem
na mente dos homens e das mulheres desde que adquirimos a racionalidade
e a capacidade de abstracção. É com isto que eu não
consigo concordar, mas não é por isso que afirmo que a Filosofia
não tem utilidade. Não concordo porque não vejo a
Filosofia como um real avanço na busca pela Verdade. É certo
que ao longo da História da Filosofia muitas teorias foram perdendo
pertinência e outras foram-na ganhando. Mas ainda hoje nos debatemos
com os mesmos temas (que é o que despoleta a tese, ou a teoria)
com que os pré-socráticos, Platão, S. Tomás
ou Hobbes se debateram.
Daí que veja a utilidade da Filosofia principalmente na sua pertinência,
no seu carácter duradouro e intrinsecamente humano. Vejo-a entranhada
na pele do interrogar. E isso fá-la útil, não na
crença que se quer apresentar às estruturas que a apoiam
socialmente, mas naquilo que a sustenta internamente. Ela é útil
à humanidade, também, porque a define. Porque nos ajuda,
individualmente, a compreender, ou talvez somente a constatar a complexidade
do Homem e a simplicidade do mundo, ou a complexidade do mundo e a simplicidade
do Homem, ou finalmente, a simplicidade ou complexidade de ambos.
Pedro
Sargento
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