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Da Adivinhação, por Diogo Santos - 8/2/2006 Donnie Darko (2001) |
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«Donnie Darko é um rapazola adolescente que vive numa pequena cidade dos EUA nos finais dos anos 80 do século passado (quando eu era jovem). Este rapaz sofre aparentemente de problemas psicológicos sérios, mas demonstra também possuir uma inteligência fora do comum. Além disso, esta estranha persona sofre terríveis crises de sonambulismo, durante as quais sonha acordado. Num desses sonhos-vigília aparece a Donnie um coelho gigante, o Frank, que fornece ao nosso herói a previsão exacta do tempo que falta para o mundo acabar: 28 dias, 6 horas, 42 minutos, 12 segundos. Estranho! Muito estranho» (Donnie Darko: determinismo, fatalismo e livre-arbítrio (1ª parte)). Estranho, de facto. Tem-se, então, que Frank, o coelho gigante, informa Darko que o mundo vai acabar no momento futuro m (não importa especificar quando). Pergunto: sabe Darko que 'o mundo vai acabar'? Deixo, por ora, a questão sem resposta, uma vez que falta esclarecer algo mais acerca das noções e dos princípios em que me irei sustentar para defender a minha tese. Importa que fique ciente que não pretendo usar nenhuma tese específica acerca das condições ou critérios para que haja conhecimento proposicional efectivo. Sabe-se que p, ou tem-se conhecimento, quando se crê justificadamente em p, e p é verdadeiro. Não estou interessado em abordar o problema da justificação, nem sequer as consequências dos contra-exemplos de Gettier (sobre isso ver aqui) , pois o que pretendo defender é indiferente em relação a qualquer que seja a abordagem do problema da justificação. Assim, irei supor que a definição tripartida (com origem em Platão) de conhecimento é correcta ou não apresenta problemas. Resumindo, tenho conhecimento quando: (i) há crença; (ii) a crença é justificada; (iii) aquilo em que se acredita é verdadeiro. Para haver conhecimento estas três condições têm de ser conjuntamente satisfeitas. O que leva à reformulação da questão inicial: será que o caso de Darko satisfaz as três condições? Partir-se-á do princípio que a condição (i) é satisfeita, i.e. que Darko acredita que 'o mundo vai acabar'. Resta averiguar as restantes condições. Será difícil justificar tal crença, até por que algo dito por um coelho gigante não inspira muita confiança. Mas suponha-se também que o jovem herói está justificado a acreditar que 'o mundo vai acabar'; imagine-se, por exemplo, que Frank é Deus, e Deus não mente e é ominisciente e, portanto, há justificação para acreditar em algo que ele diz - é somente um exemplo. Suponha-se também que, de facto, o mundo acaba num momento futuro, e aquilo em que Donnie acredita é verdadeiro. As três condições estão aparentemente satisfeitas. É possível saber que p, mesmo quando p dá conta de um acontecimento futuro. Por incrível que pareça, pretendo defender o contrário, que tal não é possível. Todavia, para fazê-lo tenho de esforçar-me por mostrar que pelo menos uma das três condições não é satisfeita. Naturalmente seria de loucos atacar a condição (i). Como não sou louco (ou não creio que o seja), não irei fazê-lo. Sobeja (ii) e (iii), e qualquer uma delas parece ser solidamente satisfeita: (ii) por que pode-se sempre imaginar alguma justificação para a crença em questão(1) e (iii) parece ser inquestionável, na medida em que aquilo previsto por Frank sucedeu mesmo. Irei atacar (iii). Não me parece que aquilo em que Donnie acredita - 'o mundo vai acabar' - é verdadeiro. A objecção imediata é: isso irá acontecer, tal atribui-lhe valor de verdade verdadeiro; o mundo irá mesmo acabar no momento futuro m. Não digo o contrário. Questiono-me, porém, se no momento t, em que Darko acredita em p, antes de o mundo acabar, p é verdadeiro. Qual a razão de duvidar de algo aparentemente trivial? Tentarei explicá-lo. As condições de verdade de qualquer proposição expressa são os factos que a ela correspondem, aquilo que ocorre. A proposição p será verdadeira, caso o facto de que ela dá conta suceda realmente e será falsa, caso o mesmo não suceda. Argumento que o facto que confirmaria ou faria a proposição expressa por 'o mundo vai acabar' verdadeira não ocorreu ainda, quando Frank transmite a tragédia a Donnie, i.e. quando nos questionamos se Donnie sabe que 'o mundo vai acabar'. Ora, se a condição de verdade da proposição expressa por 'o mundo vai acabar' ainda não sucedeu, então não posso dizer que o valor de verdade da mesma esteja devidamente determinado. Isto sugere que no momento em que Donnie acredita justificadamente que 'o mundo vai acabar' não está a acreditar em nada de verdadeiro. Logo, a condição (iii) não é satisfeita. A réplica natural seria que a condição para que a proposição em causa seja verdadeira é que o mundo venha a acabar, e se ele acabar de facto a proposição expressa por 'o mundo vai acabar' será efectivamente verdadeira. Responderia que a proposição expressa seria verdadeira no momento em que o mundo acabe e não antes, na medida em que a sua condição de verdade, o facto correspondente, ainda não ocorreu. Até lá, a proposição não tem valor de verdade determinado. A réplica prosseguiria, (legitimamente) insatisfeita com a resposta dada: no momento de elocução, em que Frank afirma tal coisa a Darko, a proposição é verdadeira, na medida em que a sua condição de verdade é que algo venha a suceder, e não que suceda agora e, portanto, a condição está ou poderá estar de antemão satisfeita. Não posso responder que não é possível saber se a ocorrência sucederá, na medida em que isso seria circular - pois é isso que pretendo concluir. Tenho de atacar directamente o argumento, o que não será fácil. A réplica é acolhedora, não o desminto. Não obstante, é possível contra-argumentar. O facto que torna verdadeiro algo dito acerca de um acontecimento futuro é a ocorrência desse mesmo acontecimento (no futuro), como tal, não posso dizer, no momento em que o acontecimento ainda não ocorreu, que se está a falar verdade quando se diz que o mesmo ocorrerá. Uma réplica bem mais fraca seria dizer que Donnie teria conhecimento, uma vez que quando o facto sucedesse a sua crença seria verdadeira. Assim seria. O problema - e é aí que reside o ponto - é que ele só teria conhecimento de tal coisa quando essa coisa sucedesse, e isso não corresponderia a ter conhecimento acerca de algo futuro, mas acerca de algo presente; o que não levantaria dificuldades de maior. Em jeito de conclusão, gostaria de mencionar que a tese aplica-se a todo o suposto conhecimento acerca do futuro. Como é óbvio, a razão do exemplo violar a condição (iii) da definição tripartida de conhecimento ocorre em qualquer caso de suposto conhecimento acerca do futuro. A ser verdade (o que não deve ser assumido acriticamente, até por que eu próprio não estou convicto da tese), a vida de adivinhos, de cartomantes, de leitores de sina, de astrólogos, de bruxos e demais profissionais competentes inseridos na área da adivinhação torna-se consideravelmente mais complicada e pouco rentável. Calha bem um pedido de desculpas a essa gente, por esse motivo - é o que faço.
----------------------------- Notas: 1) por essa razão não discuto dificuldades relacionadas com a questão da justificação de crenças, uma vez que o que está em causa no artigo é a possibilidade (ou impossibilidade) de haver conhecimento acerca do futuro.
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