Cinefilosofia ® 2005 - 2006, todos os direitos reservados. |
The Life of David Gale (O que eu não quero ser quando sou filósofo), por Luís Rodrigues 1/12/2005
|
||
O abraçar desta causa por parte do nosso filósofo aparece-nos desde logo com um cunho altruísta, i.e., como uma atitude altamente louvável. Não digo nem que sim nem que não, apenas acho que é por aqui que as coisas se complicam e que o argumentista (que se apoiou numa histórica verídica, mas não verdadeira, há diferença) mete, como costuma dizer-se, os “pés pelas mãos”. Algures a meio do filme, numa cena (de bebedeira na rua) que retrata um aparente e gradual declínio da saúde mental do nosso filósofo, este faz uma referência à história do julgamento e condenação de Sócrates na Grécia antiga. (Para quem não sabe ou não se lembra, Sócrates foi condenado à morte por se recusar publicamente em aceitar acusações forjadas e usadas contra ele por aqueles que tinham medo da sua postura inquisitiva e denunciadora, entre outras coisas). Esta referência à injustiça latente no julgamento do Sócrates histórico, que chegou até nós na Apologia de Sócrates, escrita pelo seu discípulo Platão, é decisiva para compreendermos o final da história de David Gale. Tal como Sócrates, que preferiu morrer (bebendo a famosa Cicuta que é frequentemente confundida com a Scooter) a abdicar das suas convicções, coisa que percebemos lendo o que está escrito no Fédon de Platão, também David Gale, filósofo contemporâneo, prefere morrer a abdicar das suas. A história de Sócrates e Gale equivalem-se neste sentido: ambos usam a sua inteligência para preferir a morte. Ao morrerem conseguem levar por diante os seus objectivos, fazendo com que, mais cedo ou mais tarde, as suas mortes contribuam para vindicar as suas ideias e derrotar os seus opositores. Assim aconteceu ao que parece com Sócrates que, sem defender qualquer doutrina específica (excepto a de que nada sabia), fundou uma linha filosófica e moral ainda hoje considerada, levando assim de vencida os seus “opositores”. E assim acontece também com Gale no filme, que ao forjar a encenação de um homicídio a partir de um suicídio de uma sua amiga (que sofria de uma doença terminal), consegue provar à sociedade que foi injustamente condenado à morte e, consequentemente, que a sua execução foi uma injustiça. Mas, afinal, o que é que isto tem a ver com aquilo que eu quero ser quando sou filósofo? Bem, a relação é a seguinte: quando eu sou filósofo não quero agarrar-me às minhas convicções a ponto de estar disposto a dar a minha vida em troca delas. A filosofia evoluiu muito desde o tempo de Sócrates, e Gale devia ter percebido isso. Hoje-em-dia não faz qualquer sentido alguém provocar deliberadamente a sua própria morte para provar o seu ideal (exceptuam-se talvez a situações terminais do tipo retratado na história verídica do filme Mar Adentro ?). Aliás, já Sócrates tinha percebido isso no seu tempo: mas Sócrates era velho e não tinha mais nada a perder, excepto a sua dignidade. Quando eu sou filósofo quero ser apenas investigador. Há pouco tempo alguém me dizia o seguinte depois de eu lhe ter dito que era filósofo aprendiz: «ah… pois, e tal… mas vocês são muito abstractos e teóricos e não servem para nada,… e coiso… Afinal, o que é que fazes?» Quando lhe respondi que a minha área e função era a de investigar a natureza e a possibilidade do Conhecimento, respondeu-me de imediato que isso não curava ninguém e que não tinha um objectivo prático construtivo, não dava chips para computadores, nem uma cura para a gripe das aves e blá, blá, blá, mais todas aquelas trivialidades e bacoradas que dizem dos filósofos e do seu trabalho – do género de que só servimos para ensinar o que inventamos, só construímos castelos no ar, embustes ficcionais e retóricos, etc. Mas isto é obviamente falso! E é uma ideia falsa que se foi cimentando, principalmente em Portugal e na Europa continental (fora talvez a Alemanha pós-guerra), graças as personagens excêntricas, boémias e estereotipadas que contribuíram para gerar essa imagem de Professor Pardal sem qualquer utilidade social. Mas um filósofo moderno é apenas mais um investigador, sendo o seu objecto de estudo tão digno como o de qualquer outra área com carácter marcadamente científico. (O Sócrates Primeiro Ministro também não consegue ver isto, tal é a cabala que montou contra as ciências sociais favorecendo a tecnologia e os seus compadres engenheiros, muitos dos quais uns perfeitos incompetentes, sendo a causa directa de inúmeras derrapagens orçamentais em obras públicas. Por que razão não cria ele mil empregos para jovens licenciados na área da investigação cultural e social? Por que raio temos que seguir uma política economicista cega? Diz ele que lê filosofia. Deve ler, deve…) Há filósofos para todas as áreas do saber; e os sérios, porque os outros não são filósofos mas apenas ou seres dogmáticos ou criaturas desorientadas, preocupam-se em usar métodos de investigação sérios, submetendo-se à crítica dos seus pares e das outras áreas do conhecimento teórico e empírico (e.g. ciência), contribuindo assim para descobertas ou decisões importantes. Claro que a investigação de um filósofo não tem o carácter marcadamente pragmático que têm as investigações conduzidas por investigadores doutras áreas, mas isso só acontece porque ainda hoje a filosofia tem a tarefa de “pensar”, directa ou indirectamente, todas as outras áreas, não sendo a sua “vocação” centrar-se em apenas uma. Resumindo: o que eu não quero ser quando sou filósofo é ser Sócrates ou David Gale. Principalmente, não quero ser dogmático ao ponto de me matar para provar o meu ponto. O mundo em que vivemos, mundo esse que desejamos transformar segundo uma certa ideia de Bem, já não se compadece com mártires; pelo contrário, repudia-os - como é o caso evidente dos terroristas suicidas. O mundo em que vivemos, mundo "inventado" pelos Copérnicos, pelos Galileus, pelos Descartes, pelos Kants, pelos Newtons, pelos Darwins, e pelos Einsteins da modernidade, exige uma outra atitude. É essa que quero seguir quando eu sou eu… um filósofo (aprendiz), um investigador com objectivo, mas sem doutrina pré-concebida ou aceite, nem sequer esta.
|