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  Last Days, por Pedro Sargento  
 

Este filme saboreia-se como um gelado de chocolate num dia gelado (ou mesmo de neve, pois agora parece que neva em Lisboa). Ou seja, nem toda a gente gosta, mas quem aprecia o “inusual com conteúdo”, é um filme com pontos de interesse. Gus van Sant gosta de massacrar o espectador. Com Last Days, o realizador termina uma trilogia em muitos momentos massacrante, começada com Gerry, e continuada com Elephant (o único dos três que não vi).


Last Days carece de desenvolvimento de qualquer narrativa. Ali não se conta uma história. O que se vê é a personagem Blake, o sócia de Kurt Cobain, figura de inspiração para este trabalho de van Sant, a deambular pela floresta, a preparar as suas pouco elaboradas refeições, e a vaguear pela (sua?) casa, enquanto murmura, insistentemente, monólogos imperceptíveis. Blake entrevive naquele limbo desequilibrado entre o abismo e o meio passo que falta para nele cair profundamente, em deriva para a morte. Um ponto fulcral reside no facto da consumação da morte ser um acto individual, um movimento do corpo num frémito de descarga, uma implosão que oscila entre o inevitável e o escolhido

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As cenas filmadas por van Sant conseguem, na minha opinião, transmitir aquilo que se deve passar numa mente que configura o mundo como um espaço em esvaziamento – e há ainda quem diga que o mundo é o que é, não o que vemos e sentimos -. Os longos takes de Natureza imóvel, planos longínquos de um corpo morrente a vagabundear, os murmúrios constantes, enlouquecidos e sem lógica, e as neutras personagens que circundam o mundo de Blake, tudo isso é, mesmo (ou especialmente) em silêncio, um apelo ao sentimento de distanciamento, um silenciamento progressivo, até à vacuidade absoluta.


Aquilo que em Gerry é mostrado em Absoluto, a Natureza e a sua grandeza indiferente, em Last Days encontra-se interiorizado. Pressente-se uma indiferença talvez ainda mais insidiosa, mais definitiva – a do mundo interior em derrocada – e aquilo que, ainda que no centro dessa derrocada, consegue ser um acto Estético, um acto sobrevivente, um momento de Catarse, o momento aristotélico da redenção do espectador perante o Trágico. Cobain incarnou distintamente o herói trágico, na sua vida errante e na sua badalada morte, à medida da construção do mito de inspiração urbano-depressiva, áspera, grunge.


Last Days constrói em imagens (apetece dizer, de novo, “imagens vazias”) o correlato de um aniquilamento gradual não só de uma vida, mas também do Ser, a universalidade contemporânea a tudo, à vida radiante ou à vida devastada, ambas consagradas ao distanciamento gradual em direcção à nulificação.

 

Pedro Sargento