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Este
filme saboreia-se como um gelado de chocolate num dia gelado (ou mesmo
de neve, pois agora parece que neva em Lisboa). Ou seja, nem toda a gente
gosta, mas quem aprecia o “inusual com conteúdo”, é
um filme com pontos de interesse. Gus van Sant gosta de massacrar o espectador.
Com Last Days, o realizador termina uma trilogia em muitos momentos
massacrante, começada com Gerry, e continuada com Elephant
(o único dos três que não vi).
Last Days carece de desenvolvimento de qualquer narrativa. Ali
não se conta uma história. O que se vê é a
personagem Blake, o sócia de Kurt Cobain, figura de inspiração
para este trabalho de van Sant, a deambular pela floresta, a preparar
as suas pouco elaboradas refeições, e a vaguear pela (sua?)
casa, enquanto murmura, insistentemente, monólogos imperceptíveis.
Blake entrevive naquele limbo desequilibrado entre o abismo e o meio passo
que falta para nele cair profundamente, em deriva para a morte. Um ponto
fulcral reside no facto da consumação da morte ser um acto
individual, um movimento do corpo num frémito de descarga, uma
implosão que oscila entre o inevitável e o escolhido
.
As cenas filmadas por van Sant conseguem, na minha opinião, transmitir
aquilo que se deve passar numa mente que configura o mundo como um espaço
em esvaziamento – e há ainda quem diga que o mundo é
o que é, não o que vemos e sentimos -. Os longos takes de
Natureza imóvel, planos longínquos de um corpo morrente
a vagabundear, os murmúrios constantes, enlouquecidos e sem lógica,
e as neutras personagens que circundam o mundo de Blake, tudo isso é,
mesmo (ou especialmente) em silêncio, um apelo ao sentimento de
distanciamento, um silenciamento progressivo, até à
vacuidade absoluta.
Aquilo que em Gerry é mostrado em Absoluto, a Natureza
e a sua grandeza indiferente, em Last Days encontra-se interiorizado.
Pressente-se uma indiferença talvez ainda mais insidiosa, mais
definitiva – a do mundo interior em derrocada – e aquilo que,
ainda que no centro dessa derrocada, consegue ser um acto Estético,
um acto sobrevivente, um momento de Catarse,
o momento aristotélico da redenção do espectador
perante o Trágico. Cobain incarnou distintamente o herói
trágico, na sua vida errante e na sua badalada morte, à
medida da construção do mito de inspiração
urbano-depressiva, áspera, grunge.
Last Days constrói em imagens (apetece dizer, de novo,
“imagens vazias”) o correlato de um aniquilamento gradual
não só de uma vida, mas também do Ser, a universalidade
contemporânea a tudo, à vida radiante ou à vida devastada,
ambas consagradas ao distanciamento gradual em direcção
à nulificação.
Pedro Sargento
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