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  Lembrança Céptica, por Diogo Santos - 4/10/2005  
 

 

Memento é um filme excepcional, mas violento. Não porque haja nele cenas de violência gratuita - não as há -, mas porque abala convicções profundas, comuns a todos, essenciais à sobrevivência até. Fascina pela sua radicalidade, agride pela inconveniência das aporias suscitadas, entristece por nada solucionar. O filme não oferece respostas, apenas acumula problemas, quebra-cabeças, puzzles. O próprio facto da narrativa ser anacrónica intensifica a sensação de que o espectador, como que acompanhando o percurso do personagem principal, perdeu-se nos meandros das questões. Apenas para acordar, no fim, do sono labiríntico e compreender que o percurso do personagem não é diverso do seu. As dúvidas são as mesmas e, apesar de não haver mais imagem ou som no ecrã, elas permanecem pertinentes.


Para além de outras questões retratadas, muitas de interesse filosófico, as questões ligadas ao campo da epistemologia são, discutivelmente, as mais interessantes do filme. O artigo irá exactamente por aí.


Leonard Shelby (Guy Pearce) é vítima de uma tentativa de homicídio. Sobrevive, mas a sua capacidade de reter memórias imediatas ou de curto-prazo desaparece durante esse evento. Derivado da sua condição, acaba por matar acidentalmente a mulher, também envolvida na tentativa de homicídio - e igualmente sobrevivente. A última recordação que Leo tem é a da sua mulher, aparentemente morta, deitada a seu lado, logo após a tentativa de homicídio. Guia-se por essa recordação, supostamente inequívoca, para obter vingança pelo que lhe fizeram - Leo julga que a assassinaram. O filme é, em suma, o seu (interminável) percurso de vingança, em busca de um tal John G., o suposto assassino.


O que tem Memento de tão especial, em termos filosóficos e epistémicos? Dada a condição do herói - não mais do que um indivíduo cujo único anseio é fazer justiça pelas suas mãos -, tudo aquilo que tenha adquirido posteriormente ao evento que causa a sua condição (discutirei se aquilo adquirido previamente ao mesmo evento não padecerá de vício semelhante) não é conhecimento. Para algo ser conhecimento necessitamos de pelo menos três ingredientes. Sabe-se algo, quando se crê em algo verdadeiro justificadamente (e.g. 'o meu irmão está na sala de estar', creio nisso e estou justificado a fazê-lo, porque o vi na sala e, como tal é verdadeiro, posso licitamente dizer que 'sei que 'o meu irmão está na sala de estar''). Inegavelmente a memória é um instrumento fulcral na aquisição de conhecimento. Até o exemplo dado, aparentemente simples, exige algo da memória, no que respeita a justificação: tenho de lembrar-me que vi o meu irmão na sala de estar. Ora, Leo não dispõe de memória imediata! Como pode, então, justificar as suas crenças mais recentes? Utiliza um sistema; tatua as informações mais importantes no seu corpo, e mantém um registo impecável dos acontecimentos que se vão seguindo. Porém, é um indivíduo privado de certezas. Os registos que mantém estão longe de ser infalíveis; podem facilmente ser adulterados (o que sucede), de modo a desinformarem, em vez de informarem. Percebe-se o dilema. Não está a justificação em causa (pelo menos, ainda), o que está em causa é que nada pode ser tomado por verdadeiro e, como tal, por conhecimento efectivo. O mais perturbante é que isso não se reduz às crenças de Leo após o acontecimento que o conduziu à situação presente, também é verdadeiro para as suas crenças anteriores. Porque o seu corpo tatuado é a sua memória, operam ambos do mesmo modo, têm praticamente a mesma fiabilidade. Quem garante que as suas memórias não são adulteradas, sua fabricação, interpretadas da forma errada? Se isso vale para Leo, vale também para as restantes pessoas. Leo é o exemplo extremo da frágil situação epistémica em que todos se encontram. Daí que, quando se fala de justificação, não se está a fazer referência a verdade, mas simplesmente a crença. A justificação não determina se a crença é verdadeira. Para tal não há bases para o asseverar indubitavelmente. Tudo pode não passar de um sonho. O argumento cartesiano do génio maligno é irrefutável. Diria Teddy (Joe Pantoliano): "you're living in a dream, kid". É exactamente por ser parte de um sonho que Leo pode facilmente ser manipulado, tanto por Teddy, um polícia corrupto, como por Natalie (Carrie-Anne Moss), a namorada de um traficante de droga. Não obstante, o que o impele e qual a base para aceitar as suas crenças mais fundamentais como verdadeiras? Resposta de Leo: "I have to believe in a world outside my mind. I have to believe my actions still have meaning, even if I can't remember them. I have to believe that when my eyes are closed the world is still there". É mais prático assim. Existir duvidando de tudo é insustentável, mais ainda do que existir privado de sustentação.


Está-se a dizer que não há conhecimento porque não podemos asseverar com certeza que qualquer crença que seja é verdadeira (ou falsa). Isso é a posição insustentável, que não se pode adoptar. É preciso fazer concessões. Uma delas é que o grau de certeza exigido não pode ser demasiado elevado. Não é aconselhável exigir argumentos irrefutáveis referentes ao valor de verdade de dada crença. Não é aconselhável porque, como mencionado, não os há. Segundo, tem de se operar com aquilo de que se dispõe. Não há certezas, mas até indício em contrário, é conveniente interpretar (pelo menos) algumas crenças (as mais fundamentais; e.g. 'existe um mundo fora da minha mente') como verdadeiras. O ponto de partida é lamacento, mas não deixa de ser um ponto de partida. É exactamente daí que parte Leo. Mas, no seu caso, a partida e a chegada identificam-se. As peças do puzzle mantêm-se soltas, por ligar. A única conclusão válida: "I dont know anything". É por nada saber, e simultaneamente estar certo de que sabe, que comete erros. Não há concessões em Memento. O que não obriga os restantes a cometer erros semelhantes.


A justificação não se refere à verdade. No entanto, não são dois ingredientes tão díspares assim. Uma crença é justificada recorrendo a outra crença (e.g. 'creio que'o meu irmão está na sala de estar'', porque 'creio que 'o vi na sala de estar''). Claro que há mais crenças envolvidas no processo de justificação, mas assim evita-se complicações desnecessárias. Porém, imagine-se que não era o meu irmão quem tinha visto na sala de estar, mas outra pessoa; no entanto, incrivelmente ele lá estava, na sala de estar, tornando a crença verdadeira, todavia, justificada pelas razões erradas. Sei que 'o meu irmão está na sala de estar' por palpite. Então, não posso estar perante um exemplo de conhecimento efectivo, apesar de ser uma crença verdadeira e justificada (o problema de Gettier). Tudo isto parece suceder porque a crença usada para justificar a crença que 'o meu irmão está na sala de estar' não é ela mesma verdadeira, uma vez que, na realidade, eu não vi o meu irmão na sala de estar. Será que se fosse verdadeira resolveria o problema? Tome-se outro exemplo, desta feita retirado do filme: Leo acredita que a sua mulher está morta. O que é verdade. Acredita porque a sua última memória foi vê-la estendida, ao seu lado, inanimada. No entanto, a sua mulher morreu depois, acidentalmente, e não nessa altura. A crença na qual se baseia a justificação é verdadeira, bem como a crença que se quer justificar. Todavia, novamente, não é mais do que um palpite certeiro. A dificuldade ainda se prende com a justificação neste caso, não do mesmo modo do que no exemplo anterior, mas porque da justificação não se segue necessária e imediatamente que Leo acredite que 'a sua mulher está morta'. A crença parece não estar devidamente justificada, mas que outra justificação seria suficiente e tão forte ou mais quanto esta? Há algo mais forte do que ver a pessoa inanimada e de não ter qualquer recordação da sua existência posterior a esse evento? Não. Esta dificuldade pode reaparecer noutras situações, onde aparente haver conhecimento efectivo e não o há. Parece que não é só o valor de verdade da crença que não pode ser confirmado irrefutavelmente, mas também a justificação da crença. Não se sabe de critérios definidos que possam determinar quando há e quando não há conhecimento. Afinal, tal como Leo, a partida e a chegada identificam-se neste lugar - "I dont know anything".

Diogo Santos