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Do Orgulho e Ciúme,

por Diogo Santos - 8/3/2006

Othello (1995), de Oliver Park

 
 

 

Iago é discutivelmente o mais infame vilão da história da literatura. Egoísta, mordaz, inteligente e, como convém a todo o vilão, malévolo. O vilão de Othello é a personagem central da tragédia. É ele o motor da narrativa e é em torno dele que a narrativa rodopia. Convirá questionarmo-nos acerca da razão para esta tragédia de Shakespare se intitular 'Othello', em vez de 'Iago', uma vez que, como acabado de sugerir, a presença de Iago na peça é mais relevante do que a presença do mouro Othello. A razão pode ser que a tragédia não é sobre Iago nem Othello, nem sobre qualquer outra personagem menor. A tragédia é acerca do ciúme e é o mouro que experimenta esse sentimento (e outros dele derivados); daí esta obra de Shakespeare possuir como título o nome do mouro, 'Othello'. É exactamente sobre isso que quero escrever, sobre o ciúme.

Advirto que me irei servir da adaptação da tragédia para cinema de Oliver Park para basear este artigo. O que significa que o artigo mantém uma relação directa com o mundo do cinema e não com o universo teatral. A relação terá pouca relevância para a defesa da tese do artigo; mesmo assim, manterei o assunto com base cinematográfica.

Iago (Kenneth Branagh) entende profundamente a natureza humana e muitos dos seus meandros, mesmo os mais obscuros. Não é qualquer um que desenvolve um plano tão elaborado e relativamente bem sucedido para destruir dois homens: Othello (Lawrence Fishburne) e, principalmente, Cássio (Nathaniel Parker). Para tal, é necessário um conhecimento consideravelmente extenso das paixões humanas. Portanto, para além de vilão, Iago é um antropólogo filósofo, um estudioso do homem - e é assim que pretendo vê-lo. Qual é a essência do plano do mau da fita? Enlouquecer o mouro de ciúmes do rival Cássio, de modo a prejudicar estes dois homens; o vilão fabrica provas de uma ligação amorosa entre Desdémona (Irene Jacob) - mulher de Othello - e Cássio, que apresenta ao heróico e manipulável mouro.

Vou executar um salto até ao final, indo directamente ao ponto do artigo. Por que mata Othello a sua muito amada esposa? A resposta directa é: por causa do ciúme. Mas a resposta reconduz a outra questão. O que tem o ciúme que possa causar efeito deveras trágico? O sentimento em questão alimenta-se da incerteza. Enquanto aquele que o sente se mantiver incerto acerca dos factos. No caso de Othello, enquanto ele não souber (saber em sentido forte!) que há ou não há realmente uma ligação amorosa entre a sua mulher e o nobre Cássio, o vil sentimento que sente vai progressivamente alimentando-se dessa incerteza. Outra pergunta se desvela como relevante: qual o motivo para tanta dúvida da parte do mouro? Porque não acreditar na bela e adorada Desdémona ou porque não, acreditando nos argumentos e supostas provas que Iago apresenta, conviver com o facto de que a sua mulher é infiel, divorciando-se ou aceitando-a nesses contornos? Othello ama a sua esposa; como explicar que o amor seja derrotado pelo ciúme? A explicação só pode ser oferecida analisando o carácter do infeliz Othello, e perceber o que aí habita que possa contribuir para o triunfo (apenas sobre Othello) das manhas e estratagemas do vilão Iago. O que está em causa é que a suposta infidelidade de Desdémona não pode ser tolerada por Othello, o seu orgulho não lho permite. A mentalidade machista do mouro tem como princípio essencial o orgulho, enquanto marido e amante da sua esposa. O bravo sarraceno não é capaz de crer na sua amada, enquanto pairar a dúvida acerca de uma possível ligação amorosa dela com Cássio. Pior do que um erro na avaliação da conduta sentimental de Desdémona é ser ridicularizado por um acto de traição, mesmo que não haja certezas de que ele sucedeu. Não creio que Othello mate a esposa por convencer-se de que ela o trai. Creio que a mata por não ser mais capaz de conviver com a dúvida, o ciúme. Tudo isso tem de finar. O modo de apagar a dúvida é matar Desdémona. Se fosse uma simples questão de acabar com a traição, matar o (suposto) amante, Cássio, seria suficiente. Mas aqui é um problema de obliterar a dúvida, o motor interno do ciúme, e a morte do putativo adúltero não serviria esse propósito, uma vez que a dúvida acompanharia sempre Othello, enquanto ele ou Desdémona, vivessem. Claro, também haverá um grande desejo de vingança envolvido, este derivado substancialmente da personalidade orgulhosa do herói, mas isso parece-me secundário.

Percebe-se do parágrafo anterior que o ciúme, para subsistir, precisa da companhia do orgulho (aquilo que impede Othello de dar o braço a torcer a favor da mulher, ignorando, assim, as manhas de Iago). É na dúvida que o ciúme reside e é também dela que se vai progressivamente alimentando. Iago entende isso na perfeição. Por essa razão não revela a Othello de imediato as provas que poderiam dar como certo o envolvimento entre a amada do mouro e Cássio; isso seria acabar com o sentimento de ciúme! Não são esses os intentos do vilão. Esses intentos são bem mais maquiavélicos: o ciúme é para ser levado ao extremo, para conduzir o infeliz herói às margens da loucura. Até que o fim seja garantidamente trágico. Para tal, as provas e as sugestões de que há de facto infidelidade são apresentadas morosa e metodicamente. O ciúme vai operando lentamente, corroendo aos poucos a sanidade do mouro.

Termino argumentando contra uma ideia comum. Normalmente o ciúme é associado a um certo tipo de insegurança, apenas estando inseguro em relação aos sentimentos da outra pessoa (e em relação a si próprio) pode-se sentir tal coisa em relação ao outro. Mas que motivo tem Othello para ser inseguro? Mais, será que Iago se apercebe dessa insegurança e procura explorá-la? Não creio que haja um motivo forte para que o mouro possa dizer-se inseguro. Acredito mesmo que Shakespeare quer mostrar que todos os homens são propícios a ciumar. Se a insegurança for uma classificação relativa, então não se pode dizer de Othello que seja inseguro (ou mais inseguro do que a norma). A insegurança não tem lugar na tragédia, uma vez que são apresentadas fortes provas (claro, que nenhuma conclusiva) de traição. Por muito seguro que se seja, o orgulho (esse sim um elemento fundamental) não permite que essas provas sejam simplesmente ignoradas e o ciúme alimenta-se da incerteza, aí gerada.

Diogo Santos