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Relatos e Conhecimento, por Diogo Santos Rashomon (1950), de Akira Kurosawa |
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Prometo que é o último filme que analiso do meu realizador predilecto, Akira Kurosawa, para não tornar os meus artigos sempre sobre objectos semelhantes, o que poderá aborrecer o leitor. Mas não consegui evitar escrever este artigo, especialmente depois do artigo intitulado Do Desconsolo dos Filósofos (1) do meu caro amigo e colega Luís Rodrigues. O presente artigo não é uma réplica ao dele, mas funciona para mostrar uma perspectiva diversa acerca de uma das teorias mais malditas no seio da filosofia, o cepticismo. O cepticismo de que irei falar no artigo é localizado; por esse motivo, espero estar imune às objecções feitas ao cepticismo radical generalizado que o colega lançou nesse artigo.
Rashomon consiste na apresentação de quatro perspectivas (ou relatos) acerca do mesmo acontecimento: a perspectiva do bandido [Tajomaru (Toshiro Mifune)], a perspectiva do marido (ou morto) [Takehiro (Masayuki Mori)], a perspectiva da mulher do morto (viúva, portanto) [Masako (a belíssima Machiko Kyô)] e a perspectiva da testemunha, um lenhador (Takashi Shimura). O acontecimento é a violação da mulher perpetrada pelo bandido Tajomaru e o consequente assassínio do seu marido. Cada relato terá o mesmo valor, em termos de fidedignidade em relação àquilo que se passou. O filme é pouco mais do que as descrições dos envolvidos de um mesmo evento. Que saiba, é o primeiro filme a fazer algo do género, e a abordar o problema do conhecimento desta forma. Outros temas são abordados, nomeadamente assuntos relacionados com a temática antropológica, mas aqui interessará sobretudo os problemas epistémicos levantados. Não esquecer que a película data dos anos 50. O tema é tão revolucionário quanto o método com que é abordado; a partir de técnicas inovadoras no captamento da imagem: por exemplo, no que se refere ao ambiente labiríntico da floresta - onde ocorre o crime - em que o espectador se vê é envolvido. Já para não falar das extraordinárias prestações dos protagonistas, especialmente a prestação de Toshiro Mifune. Enfim, uma obra-prima. Na modesta opinião do autor, um dos melhores filmes de todos os tempos. Imperdível! Analisando o assunto em si. Quando colocados perante quatro abordagens diferentes e incompatíveis entre si da mesma ocorrência, há uma obrigação de reconduzir o problema para saber qual dessas abordagens ou perspectivas é um relato verdadeiro em relação àquilo que sucedeu. Naturalmente, é preciso explicar que género de justificação permite assumir relato (i), relato (ii), relato (iii) ou relato (iv) como verdadeiro. Como se pode justificar tal coisa, isto é a crença em um desses relatos e não em qualquer um dos outros? Estou em crer que não se pode e, aliás, é essa a conclusão imediata ou intuitiva que vem à ideia. Primeiro, nada nos garante que não haja um relato (v), diferente dos quatro relatos conhecidos que seja efectivamente o relato verdadeiro, ou seja, nada nos garante que todos os quatro relatos não sejam falsos (não é directamente um problema de justificação); segundo, não há forma de garantir, por meio justificado e racional, um relato como verdadeiro em detrimento de qualquer um dos outros, uma vez que são os quatro de igual valor, no que diz respeito ao critério epistémico usado na tentativa de decidir qual o melhor relato ou qual o mais verosímil deles; por último, e como consequência, não é possível saber exactamente o que se passou (como morreu o marido, qual o papel da mulher em tudo isso e o que terá feito realmente o bandido Tajomaru). Acreditar em algo relatado é um simples exercício de confiança (ou fé) no locutor. Claro, podemos estar mais inclinados a acreditar no relato do morto do que no relato do bandido, se tomarmos, por princípio, que os bandidos mentem, mas isso de nada nos assegura, quando, em termos de conteúdo, os quatro relatos são igualmente verosímeis. Aliás, usar isso como justificação seria arbitrário. A única abordagem que resta é uma abordagem céptica(1) (localizada, mas radical!): ‘(não é possível) não há conhecimento (somente) por meio de relato'. Falar de relato engloba o meio principal de informação usado em qualquer sociedade humana. Relato quer apenas dar conta daquilo que alguém ou algo nos informa. A simples afirmação quando dirigida a outro ‘está a nevar' também se assume, nessas circunstâncias, como um relato de um evento ou estado de coisas. Há uma distinção óbvia entre esse tipo de relato e aqueles em que consiste Rashomon . No caso de ‘está a nevar' estamos na presença daquilo que está a ser relatado. No entanto, gostaria de argumentar que o conhecimento que aí está em causa não se dá por meio do relato, mas por meio presencial. Quero dizer que quando nos informam que ‘está a nevar' não sabemos tal coisa, por nos terem relatado isso, mas antes por estarmos a ver e a sentir neve no mesmo local(2). Portanto, o conhecimento não ocorre, nesse caso, por meio de relato, uma vez que ele não se justifica de tal forma. Se tomarmos um exemplo ligeiramente diverso como alguém que nos transmite por telefone ‘está a nevar em Aveiras', quando estamos em Espinho, não há forma de sabermos tal coisa (por meio do relato). É sempre possível ver o noticiário e esperar que haja alguma informação que nos leve a crer que esteja a nevar de facto em Aveiras, mas isso está longe de ser justificação para saber que ‘está a nevar em Aveiras', até porque tal não seria mais do que uma forma refinada de relato. O exemplo de Rashomon é mais complexo, mas serve muito bem o intuito. Percebe-se que um relato ou uma perspectiva acerca de um evento deixa espaço a outras perspectivas e que não é passível de decisão (devidamente justificada) qual a perspectiva conforme os factos. Um mesmo evento dá vaga a muitas perspectivas coerentes acerca dele. É por haver essa multiplicidade de perspectivas que não pode haver uma justificação determinante daquilo que realmente sucede ou sucedeu. Se partirmos do princípio que aquele que conta algo pode estar a mentir (muito semelhante ao argumento do génio maligno cartesiano), então o relato nunca pode servir de meio de justificação nem como fonte de conhecimento. Concluir tal coisa não é trivial e não é sem consequências, algumas delas graves. Convém definir apropriadamente o escopo da conclusão, para que se perceba exactamente que consequências são essas. Falar de relato é bastante lato e refere-se a uma imensidade de situações. Todavia, naturalmente o problema ocorre com maior clareza nos casos em que o relato é a única fonte de conhecimento acerca de algo. Por exemplo, em muitos casos que chegam a tribunal são as testemunhas e o que elas têm para partilhar com o juiz que maior importância tem no esclarecimento da verdade ou daquilo que realmente ocorreu nesses casos. No caso da disciplina de História e de disciplinas dela derivadas grande parte dos seus conhecimentos é da forma do relato. Em muitas situações do quotidiano, quando alguém nos conta uma estória, por exemplo, também se insere no campo do relato. Por aí fora. Resumindo, o relato e os problemas que advêm de o ter como fonte de suposto conhecimento são relevantes para todas estas áreas. Rashomon, apesar do que aqui se está a defender, acaba numa nota optimista. O problema epistémico na área aqui referida acaba por ser reconduzido a uma questão de ter fé ou não nos homens e naquilo que eles contam - uma vez que, como mencionei, o princípio do problema tem a ver com o falibilismo: os homens mentem. Claro que é mais económico acreditar simplesmente no relato de um acontecimento ou estado de coisas; não se pretende advogar que se duvide de todas as coisas por princípio, um pouco à lá Descartes, a postura reconduziria a um beco sem saída. Todavia, o que se deve reter é que não se pode considerar como conhecimento efectivo (pelo menos, em sentido forte) estes casos, para os quais aparentemente não há justificação e, muito menos, certezas, aparentes ou inaparentes. Haverá palpites que, como diria conhecido meu, às vezes (ou sistematicamente) acertam. ----------------------------- Notas: 1) A abordagem deriva de um princípio falibilista; resumidamente: o homem mente e, como tal, o que ele diz (ou relata) pode não ser verdadeiro. A perspectiva passa a ser céptica, creio, quando não é também passível de justificação a crença nesse relato. 2) se é que o sabemos de facto. Não é pacífico que os dados experienciados funcionem como formas legítimas de justificação.
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