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Do Ócio e Seu Contrário, por Diogo Santos - 14/11/2005

The Graduate (1967), de Charles Webb

 

 
 

The Graduate é o grande filme americano da década de 60. Nada do que até aí fora feito poderia assemelhar-se à obra-prima de Mike Nichols; tanto no que respeita ao trabalho de câmara e imagem, como no que se refere ao enredo e aos assuntos nele retratados. É suficiente uma exaustiva mirada na cena inicial do filme para perceber o que está em causa na película e o modo genial como isso é apresentado ao público. A cena em si é de uma simplicidade inaudita: o jovem Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) estanque, a ser conduzido por um tapete rolante até ao seu destino. O destino a que conduz o tapete rolante é simbolicamente uma referência ao futuro em aberto que aguarda por Benjamin. Ora, se assim é, o tapete rolante representa as circunstâncias que o conduzem até lá. Porém, o curioso de todo este aparato é a reacção - ou a ausência desta - do jovem perante a força herculiana das circunstâncias no que respeita às decisões que ele tem de tomar de forma a assegurar o seu futuro. Percebe-se de imediato o que o filme pretende: reflectir acerca do ócio. O papel de jovem recém-licenciado é ideal para essa reflexão. O importante no futuro de um jovem de classe média começa a desenhar-se a partir do fim dos seus estudos. É nessa altura que se começam a tentar concretizar projectos, ideias, sonhos. No entanto, nada disso ocupa a mente do protagonista. Com a primeira cena compreende-se a posição de Benjamin perante as adversidades - indiferença -, na cena seguinte compreende-se a pressão exercida pelo seu meio (pais e amigos destes maioritariamente) para que haja uma decisão concludente acerca do seu futuro. Todos projectam nele as mais diversas expectativas. É um ambiente claustrofóbico. A resposta do protagonista a esse ambiente é, como se pode imaginar, a inactividade. É por isso que a vida do jovem Braddock é governada pela quase completa indifierença para com os dilemas e valores ligados ao mundo que o rodeia. Daí, o envolvimento com a célebre Sra. Robinson (Anne Bancroft), uma mulher casada e carente de afectos, com quem passa as noites, ser da mesma natureza do que os seus dias na piscina, a torrar e bebericar o seu refresco. É tudo ócio, qualquer coisa para matar o tempo. Essa ligação é retratada com uma subtileza maravilhosa: uma transição rápida entre a imagem de Braddock saltando para a piscina e outra saltando para a Sra. Robinson, como se estivesse a levar a cabo a mesma acção em ambas as imagens. Progressivamente o nosso graduate perde qualquer réstia de projectos, objectivos e valores que poderiam ainda reger a sua vida. A monotonia e apatia reinantes apenas sofrem uma valente sacudidela com a entrada em cena de Elaine Robinson (Katharine Ross), a filha da atraente Sra. Robinson. Claro que Benjamin envolve-se amorosamente com a filha da sua amante. Quase toda a gente serve de força de bloqueio a esse envolvimento. Ninguém os quer ver juntos - a própria Elaine é uma dessas forças. É nessas circunstâncias adversas que o jovem herói toma a sua primeira e única decisão: casar com Elaine. Nada o demove desse propósito. Benjamin finalmente tem um objectivo.

Porque trago este filme para análise filosófica? Porque pretendo defender uma tese que está relacionada com o assunto do filme. A tese é a seguinte: em situação alguma o ócio ou a apatia (estou a usá-los como sinónimos) são eticamente preferíveis a uma acção de qualquer tipo, moralmente boa ou má. Uma pequena advertência. Não estou com a formulação da tese a insinuar que uma acção de qualquer tipo, mesmo moralmente boa, seja eticamente preferível, em qualquer situação ao ócio ou apatia; a afirmação não se segue da tese; aliás, pretendo também demonstrar que isso é falso.

Aquilo que caracteriza os comportamentos iniciais de Benjamin é uma total indiferença para com os valores (morais) e regras. Aliás, as suas acções são de uma total indiferença para tudo quanto seja ético. Ele abandona quaisquer ideais. Age de modo absolutamente desinteressado, no sentido em que nada de ético pauta as suas acções. Ora, é exactamente assim que classifico a apatia, como amoral. Amoral é diverso de imoral. Enquanto que o último é eticamente classificado como sendo uma inversão incorrecta de valores, o outro é a total ausência deles. Isto implica que as acções que têm como finalidade somente o ócio não podem ser classificadas em termos morais, i.e. como boas ou más. Se assim é, não é possível decidir eticamente entre apatia e uma acção de outro género, moralmente classificável; uma vez que a opção pela apatia não tem classificação moral e, como tal, não pode ser decidida segundo esses meios. Logo, é legítimo concluir que: em situação alguma o ócio ou a apatia são eticamente preferíveis a uma acção de qualquer tipo, moralmente boa ou má. Assim fica provada a tese a defender.

Todavia, queria ir mais longe. Queria também defender, pelas mesmas razões, que uma acção moralmente classificável (refiro-me, em especial às acções boas) não pode dizer-se eticamente preferível em relação a acções que não podem ser classificadas moralmente. O argumento é o mesmo: de uma acção amoral não se pode concluir que seja eticamente melhor ou pior do que uma outra acção, uma vez que a acção amoral não pode ser classificada eticamente de forma alguma. Daí, concluir que as acções amorais não podem ser eticamente comparadas com outras acções.

The Graduate oferece-nos meios para reflectir sobre a natureza do ócio, e descortinando essa natureza é possível chegar a este género de conclusões. Claro que tudo aquilo que foi aqui dito é bastante discutível, no que se refere ao argumento usado. Mas é mesmo isso que deixo aqui - alguns pontos para que a discussão sobre o assunto possa decorrer focada sobre um problema ético. Isto é importante, porque se o que foi dito nos parágrafos anteriores tiver algo de verdadeiro, há um grupo muito grande de acções que não podem ser classificadas moralmente nem comparadas com outras acções, o que as exclui totalmente da esfera ética.

Diogo Santos