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O Bom, o Mau e o Sonolento, por Diogo Santos - 30/11/2005

The Bad Sleep Well (1960), de Akira Kurosawa

 

 
 

Aquilo que quero analisar no presente artigo não é exactamente um filme, por inteiro, mas antes uma tese retirada do e pelo próprio filme. O filme é The Bad Sleep Well (warui yatsu hodo yoku nemuru), de Akira Kurosawa.

Aviso já que sou suspeito no comentário que inadvertidamente possa lançar acerca da qualidade do filme. Na modestíssima opinião do autor, Akira Kurosawa é o melhor realizador de sempre; logo, qualquer coisa que diga acerca da qualidade dos seus filmes tem como fundamento essa convicção. Ainda que The Bad Sleep Well não atravesse a época predilecta de Kurosawa, o Japão medieval e anterior à época Meiji, como por exemplo sucede com Rashomon, Ran, Hidden Fortress ou Throne of Blood, não deixa de ser também verdade que, em termos temáticos e metodológicos, The Bad Sleep Well é tipicamente uma película de Kurosawa. Desde o prólogo inicial, que serve de base e de explicitação para o assunto da película, para além de apresentar a tensão típica de drama grego, até ao grande tema trágico: a escolha entre pai e marido; e a conclusão shakespeariana ou também trágica que resulta dessa escolha – a morte dos amantes.

Como certamente a maioria das pessoas não conhece a obra do realizador japonês, faço uma breve explicação do filme. The Bad Sleep Well situa-se cronologicamente no pós-IIª Guerra Mundial. O espectador é enviado para um Japão em reconstrução, soerguendo-se da ruína. É nesse contexto de revitalidade económica e financeira, onde o dinheiro corre rapidamente de um canto para o outro, que se desvela um escândalo de fraude e desfalque envolvendo uma empresa pública e uma empresa de construção japonesas. O vice-presidente da empresa pública, o respeitável Sr. Iwabuchi (Masayuki Mori), tudo faz, juntamente com os seus colaboradores, para que os crimes dos quais participou não sejam provados. Isso implica que muitas dos empregados da empresa que estiveram envolvidos nessas práticas criminosas, ou que saibam delas, se auto-silenciem. A forma tipicamente japonesa de se conseguir isso é o hara-kiri. O que o Sr. Iwabuchi e companhia não sabem é que há alguém que, desde o início do escândalo, sem se dar a conhecer, desenvolve e leva à prática um plano de vingança contra os cabecilhas da empresa. O plano começa a ser posto em prática no casamento entre o jovem Koichi Nichi (Toshirô Mifune) e a filha do Sr. Iwabuchi, Keiko Nishi (Kyôko Kagawa). O enigmático bolo de casamento, assinalando com uma bandeira a janela da qual um antigo empregado da empresa pública se havia suicidado, marca o início dessa vingança. Não é por acaso que ela ocorre numa altura de festa, como é o casamento, reforçando, dessa forma ainda mais a tensão que irá crescendo até ao momento em que tudo se revela, motivos e intenções. Para não tornar o resumo demasiado longo, convém apenas informar que o filme consiste na vingança do filho do Sr. Koo (nunca aparece, pois já está morto – mas funciona um pouco como o fantasma em Hamlet), que é o tal antigo empregado que foi levado ao suicídio pelos seus chefes da empresa pública, de entre os quais o Sr. Iwabuchi. Ora, o filho de Koo não é mais nem menos do que o genro do Sr. Iwabuchi . O importante a reter para o nosso exercício é que o Sr. Iwabuchi não olha a meios para impedir a vingança do seu genro, Keiko Nishi (também conhecido por Sai). É tão maquiavélico ao ponto de causar a morte do genro, impedindo assim que o programa de vingança deste último se concretizasse, mas utilizando a filha para tal fim – não interessa propriamente de que modo. As suas acções resultam directamente na morte do genro, indirectamente na morte simbólica da sua filha (fica em estado catatónico ao descobrir que causou, de certo modo, a morte do seu amante) e perde também de modo simbólico e indirecto o seu filho, Tatsuo Iwabuchi (Tatsuya Mihashi) , que o renega, enquanto pai, como consequência dos dois acontecimentos anteriores. Sai, o herói vingador, comete apenas o erro de se enamorar pela filha do seu inimigo – não era esse o plano; naturalmente, o casamento era também uma forma de vingança – e morre devido a esse erro. Um pouco como no xadrez, na vingança vence aquele que não comete o erro derradeiro. E tal não sucede de forma absolutamente surpreendente, a não ser para o espectador. O filme teria de terminar dessa forma, os avisos e sinais do seu trágico final eram inúmeros. Não obstante, o essencial é perceber qual a reacção do Sr. Iwabuchi a tudo isto. Um qualquer pai minimamente extremoso mostraria, quando muito, remorsos relativos àquilo que acabou de fazer. O vice-presidente não demonstra qualquer remorso ou culpa acerca do que se sucedeu; pior, vangloria-se ao telefone, com o seu superior, pela forma ardil como salvou a empresa. Daí o título inglês (como infelizmente não sei japonês não posso confirmar que o título original seja exactamente esse) ser The Bad Sleep Well (os maus dormem bem). Pelo mesmo motivo, a última mensagem e aquilo que creio ser o lema do filme resume-se na frase ‘Quanto pior o homem, melhor o seu sono’ (worser the man, better the sleep). É o mesmíssimo lema que eu pretendo discutir. Pergunto: será que é verdade que a malvadez de um indivíduo resulta na ausência de quaisquer remorsos?, i.e., um indivíduo absolutamente malvado não tem remorsos?

Pequena nota. Estaria a radicalizar a posição do filme se dissesse que os maus têm sono mais pacífico e que são definidos por isso. A posição do filme e a tese permite apenas concluir que ser malvado é condição para que se tenha um sono pacífico, e não o inverso, isto é, que ter um sono pacífico é também condição para que se seja malvado.

Afirma-se que aquilo que distingue (na maior parte dos casos) um tipo malvado de outros tipos de qualidade moral preferível é a ausência de qualquer remorso no que se refere às suas más acções. Isto quer dizer que um sujeito malvado não é somente aquele que pratica o mal, mas sobretudo aquele que, após praticá-lo, não se arrepende de o ter feito. É, portanto, necessário distinguir entre carácter e acção. Distinguir no sentido de interpretar as duas coisas como independentes. Isto é, pensar, pelo menos, que as acções não são determinadas pelo carácter da pessoa que as pratica. O que não é idêntico a asseverar que o carácter não é determinado pelas acções praticadas. Porque se um tipo ruim não se arrepende do mal que comete, um tipo não ruim (não digo bom, porque não é necessário que o seja), pelo contrário, arrepende-se sempre que comete algo que seja desadequado aos seus valores. Logo, tanto um indivíduo catita como o indivíduo pelintra são capazes, independentemente do carácter de ambos, de levar a cabo acções reprováveis. A diferença é que o primeiro tem remorsos e o segundo é incapaz de o ter.. Como se vê, o Sr. Iwabuchi é o arquétipo do mal. Convém prosseguir e levar as coisas às suas derradeiras consequências. Nada impede que um malfeitor aja de modo correcto, em certas ocasiões, da mesma forma, que, como se viu, um benfeitor pode agir de modo incorrecto. Simplesmente porque um e outro não são definidos como maus ou bons de acordo com as suas acções, mas antes de acordo com os seus caracteres respectivos, que são independentes da forma como agem. Isto tudo resulta da asserção ‘quanto pior o homem, melhor o seu sono’. Resulta também que, se não é possível avaliar moralmente alguém de acordo com as acções que pratica, não é possível também a terceiros avaliarem a mesma pessoa, como boa ou de carácter, mas apenas as suas acções. O que não me parece problemático, bem pelo contrário. A avaliação acerca do carácter de alguém é intrínseca e privada. Apenas as acções são públicas, uma vez que são a única forma de um terceiro conhecer alguém em termos morais. Não se consegue perceber, sem sombra de dúvida, se de facto um sujeito sente remorsos pelo que fez de errado ou não. O mesmo é dizer que não se consegue perceber se um sujeito é bom ou mau, ou melhor ou pior. Isto não causa dificuldades em termos de ética, porque nesses casos estamos a fazer análise de acções e não de análise de agentes, julgo. O que não impede que a tese apresente dificuldades maiores derivadas dos seus resultados.

A grande dificuldade é explicar a construção do carácter de uma pessoa, bem como explicar o que ele é. Um indivíduo sentirá remorsos sempre que os seus valores tenham sido violados, ou seja, sempre que a sua acção seja contrária aos valores que advoga. Pelo contrário, um indivíduo não sentirá remorsos sempre que aja de acordo com os seus valores. Logo, parece que os remorsos são determinados de acordo com os valores advogados. Um sujeito do piorio não sentirá quaisquer remorsos, porque lhe é permitido tudo pelos seus valores, enquanto que um sujeito recto tem maiores dificuldades em não violar os seus valores. Segue-se que realmente é mais simples, para quem quiser viver de consciência tranquila, adoptar um rol de valores que permita agir da forma que assim entenderem. Mas isso indica apenas que, na maior parte dos casos, é verdade que quanto pior o homem, melhor o seu sono. Todavia, um tipo com uma conduta irrepreensível tem direito a sono tão tranquilo quanto o mais malévolo dos homens. Uma vez, que da mesma forma que o seu contrário, está a respeitar os valores segundo os quais se rege. Um porque não tem valores, praticamente (o caso do vilão), o outro porque, mesmo os tendo, respeita-os. Conclui-se finalmente que, apesar de ser (ou poder ser) verdadeiro nalguns casos, não é necessariamente verdadeiro que quanto pior o homem, melhor o seu sono.

Evitei complicações sobre o que são bons e maus caracteres, boas e más acções, e acerca do que são valores correctos e incorrectos. Isso daria pano para mangas e o artigo teria um fim bem mais demorado. Aquilo que se pretendeu foi um simples exercício argumentativo, certamente com consideráveis falhas e lapsos.

Queria apenas acrescentar ainda acerca da boa e da má pessoa que da tese – quanto pior o homem, melhor o sono – parece estar implícito que o homem mau ou o pior dos homens seria aquele sem quaisquer valores, uma vez que isso permitiria a tal pessoa agir de qualquer modo e, simultaneamente, evitar remorsos por essas acções. Aliás, é essa a ideia com que se fica do Sr. Iwabuchi.

Diogo Santos