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Do Poder (da Sugestão),

por Diogo Santos - 21/12/2005

Throne of Blood [Kumonosu jô] (1957), de Akira Kurosawa

 

 
 

Por norma, em cinema, quando se quer relatar um acontecimento descreve-se presencialmente esse evento, recorrendo à imagem. Por exemplo, num filme épico normalmente são relatadas presencialmente cenas de batalha: vêem-se dois lados em choque um com o outro, cabeças decepadas, braços e pernas pelo ar e, por vezes, violência gratuita. É raro assistir a um filme no qual um evento de importância para o enredo não seja descrito sob a forma presencial. Throne of Blood revela-nos essa técnica rara em cinema: um importante acontecimento para o desenvolvimento do enredo não é descrito, no sentido em que não se mostram imagens acerca da sua ocorrência; é apenas relatado na terceira pessoa o seu resultado e o seu progresso. A técnica usada tem especialmente duas virtudes: (a) é económica, não mostra (sob a forma de imagem) nada, para além do estritamente necessário, i.e. não recorre ao acessório e, mais interessante, (b) há um poder sugestivo que envolve o uso da técnica, deixa as imagens ou a imaginação do acontecimento para a audiência, supostamente envolvendo-a, dessa forma, mais directamente no filme.

Do que trata Throne of Blood ? Trata da ascensão profetizada de um samurai ao estatuto de senhor e da sua meteórica queda – culminando na sua morte. A versão japonesa de Macbeth . Aquilo que despoleta a trama é um espírito sobrenatural que profetiza a ascensão de posto dos samurais Miki (Minoru Chiaki) e Washizu (Toshirô Mifune). Washizu é o nosso herói. O fantasma revela a Washizu que será o novo senhor , dentro de algum tempo, mas adverte-o que a sua sorte durará pouco. A Sra. Azaji (Izuzu Yamada), esposa de Washizu , é quem lhe incute a ambição necessária, de forma subversiva, para cometer actos dos quais está reticente ou não tem coragem de levar a cabo. Compreende-se que Washizu , por si só, nunca levaria a cabo as acções que resultariam na sua ascensão a senhor e na sua queda posterior. Portanto, a figura da Sra. Azaji , que é o arquétipo de mulher na visão de Kurosawa, maquiavélica, persuasiva, sempre com segundas intenções e sub-reptícia [o realizador não devia gostar muito da mãe], é indispensável na trama do filme.

O filme usa a técnica repetidamente: no assassinato de Miki , a mando da Sra. Azaji , aquando o acto efectivo da traição, durante a insurreição de Fujimaki (a cena inicial do filme), contra o seu senhor – aquele que Washizu trairá, assassinando-o – e demais exemplos. Ora, nesta insurreição decorrem duas batalhas essenciais para o destino de Washizu e, por conseguinte, para o destino do filme. Todavia o público não assiste a essas batalhas, não são descritas presencialmente. Mas temos de saber o que nelas se passou. Como é resolvido esse dilema? O público é presenteado com sucessivos mensageiros que relatam aos generais e senhor – confortavelmente afastados da zona onde decorre a guerra – (bem como ao público) o que sucede na batalha. O artifício é genial, não se vê o que está a suceder, mas sabe-se por meio da informação dos mensageiros. Convém notar dois resultados do uso desta técnica, um deles específico ao caso da insurreição de Fujimaki . A posição da audiência perante a película. O que causa não estarmos a ver a batalha de facto na nossa apreensão do acontecimento? Causa distanciamento. A posição é exactamente aquela da dos generais e senhor , a posição de ausência do acontecimento em si. O público não mergulha profundamente no filme, nem corre o risco de nele se afogar ; pelo contrário, analisa-o com a distância necessária para aparentemente reflectir acerca dele de modo criativo. A criatividade é o outro resultado que queria referir. Já o mencionei no primeiro parágrafo, mas queria explicitar melhor a ideia. De que modo surge um suposto processo criativo? Surge, na medida em que não havendo imagem acerca do acontecimento específico, mas apenas uma descrição não presencial, sobeja à audiência elaborar, por meio da imaginação, as imagens que compõem o acontecimento específico. Aparenta, portanto, tratar-se de um trabalho criativo, quase artístico, por parte daqueles que vêm o filme, assumindo, de certa forma, o trabalho de realização e montagem.

Qual o motivo para falar de aparente criatividade em vez de simplesmente falar de criatividade? A resposta é simples, porque o processo não é verdadeiramente criativo. Com alguma atenção, percebe-se que a técnica usada neste filme não é muito diversa da técnica que se utiliza em publicidade. Nesses casos, podemos definir a estratégia publicitária, na generalidade, como sendo de carácter sugestivo. O que quer isso dizer? Quer dizer que somos subtilmente condicionados a reagir à publicidade de uma certa forma, nomeadamente adquirindo aquilo que se está a publicitar. A técnica publicitária consegue isto, normalmente de forma semelhante à do filme de Kurosawa ; a saber, deixando algo para a imaginação dos espectadores. Na maior parte dos casos publicitários a sugestão sucede tendo como motor o sexo , no caso de Throne of Blood o mesmo sucede com a violência. A razão por que em ambos os casos o espectador não está a executar um processo criativo genuíno deve-se ao processo estar privado de qualquer autonomia e autenticidade. Não é um processo autónomo ou autêntico quando é conduzido pela técnica com que é despoletado, por conseguinte, o espectador tem muito pouco a dizer acerca dele. Um exemplo talvez torne o ponto mais compreensível: a interpretação de uma obra de arte não ocorre segundo parâmetros que o sujeito intérprete determina, dando assim azo à sua vertente autónoma e criativa; pelo contrário, a interpretação é, em grande parte, determinada por propriedades da obra de arte (desde o nome da obra ao seu autor e à corrente artística a que este pertence). No caso da técnica usada no filme são-nos sugeridas orientações a seguir durante o suposto processo criativo, por meio da descrição indirecta dos acontecimentos. O processo imaginativo que o espectador julga estar a criar por sua iniciativa e a conduzir com autonomia é orientado pela forma como os acontecimentos estão a ser relatados, portanto, ele sobrestima o seu papel no desenvolvimento do processo em que está envolvido; mas esse erro não é da sua responsabilidade, na medida em que esse engano decorre da própria técnica em uso. Muitas cenas em Throne of Blood , em particular as cenas iniciais, respectivas à insurreição de Fujimaki, são descritas de tal forma pelos mensageiros que o público é impelido a construir na sua imaginação as imagens relativas à insurreição. Os mensageiros relatam o evento de modo a iludir o público, levando-o a crer que está a fazer um exercício livre e genuinamente criativo. No entanto, as mensagens sucessivas que vão sendo apresentadas contêm já orientações específicas para a construção das imagens. O público julga ter poder quando, na verdade, está submetido a ele. A última afirmação não é apenas figurativa: a técnica publicitária, como a técnica em uso no filme, que pode ser mais ou menos definida como sugestão, é uma imposição, uma manifestação de poder mascarada de criatividade ou liberdade. O aspecto mais curioso dessa manifestação de poder é gerar algo, a saber um processo imaginativo. Não quer isto dizer que as imagens que constituirão o imaginário do público acerca do evento não estejam, de certa forma, já contidas nos relatos indirectos apresentados pela película. Quero apenas dizer é que o processo, em termos de forma, é novo e é uma criação da sugestão. Estamos, portanto, perante um mecanismo de poder que não só proíbe, mas que também cria. Por outro lado, o mesmo mecanismo tem a tal faceta, que se atribui naturalmente às manifestações de poder, a faceta da limitação – que pode ser descrita segundo a figura da proibição. O que limita esta segunda faceta? Limita as possibilidades criativas do espectador. Como confere regras orientadoras ao processo imaginativo, não permite que o resultado desse processo seja substancialmente diverso do relato indirecto (dos mensageiros) acerca do evento (da insurreição). Trata-se de um poder de duas faces. A primeira oculta a outra. Ilude o público submetido ao feitiço da sugestão com um processo que é aparentemente livre, inteiramente criativo, espontâneo e, logo, um processo de libertação. Todavia, a realidade é bem diversa: o processo é um conjunto de ditâmes, de regras impostas que esmagam a criatividade do espectador.

Qual o motivo de todo este esforço do poder manifestado no filme em ocultar-se? Para conseguir levar a cabo o seu propósito de modo mais eficaz. Que propósito é esse? O propósito óbvio do poder: sujeitar, dominar. Sobre isto convém reter as palavras de Foucault : «só se mascarar uma grande parte de si próprio é que o poder é tolerável» (História da Sexualidade I ).

Isto é de suma importância no que respeita à relação filme-público. Desde o primeiro momento o público é submetido às leis do filme, e tal consegue-se com uma subtil manifestação de poder, a sugestão. Um filme que submete, até certo ponto, os espectadores às suas regras tem, como é óbvio, uma força enorme a jogar a seu favor. Throne of Blood tem essa força.

 

Diogo Santos