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V de Vingança 28/3/2006, por Frederico Sólon
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“Remember, remember the fifth of November,
O que me ocupa neste texto não é tanto se os irmãos Wachowsky conseguiram um bom filme ou se estamos perante um flop cinematográfico. E também não é se Hugo Weaving é bom actor mesmo estando por detrás de uma máscara ou se a Natalie Portman figura nos sonhos eróticos de todos os adolescentes dos nossos dias. O que me ocupa realmente é o sentido profundo do filme, para onde ele arrasta o nosso pensamento e, claro está, que questões filosóficas são colocadas à discussão. O que se segue é um pequeno exercício reflexivo com o qual se pretende configurar algumas respostas a estas últimas questões. Podemos com alguma segurança dizer sobre a trama que, na sua generalidade, trata de recuperar um tema clássico da análise sociológica e política, um tema abordado pela filosofia social e política clássica, moderna e contemporânea. Esse tema é, julgo, o da eterna oposição entre a liberdade e o binómio autoritarismo/totalitarismo; por conseguinte, oposição que ocorre também entre a capacidade e desejo de autodeterminação de indivíduos e as formas repressivas de implementação dos “ismos” acima mencionados. O argumento do filme foca sobretudo o exercício ilegítimo do poder político. Foca os expedientes altamente imorais usados por alguns para chegar a deter o poder. Foca, em paralelo, a passividade dos muitos (o povo, a massa humana, o rebanho) face ao oportunismo dos poucos (os falsários, os abusadores, os espertos, os imorais). Foca, enfim, a possibilidade de um falso equilíbrio social assente, por um lado, na mentira dos que têm o poder e o exercem e, por outro, na inacção, no consentimento acrítico e passivo dos que não o detêm – mas deveriam deter, ou fazer algo para o deter. Assim, (re)formula-se a velha máxima de que o poder politico deve pertencer ao povo. Talvez não num exercício directo, como poderia sugerir um Rousseau. Talvez não na forma da ditadura da democracia, visível na imposição da vontade de todos sobre a de um. O que o filme parece sugerir, e por isso tem alguns méritos, é que não é razoável cada membro de uma sociedade declinar a sua própria responsabilidade na feitura política e social dessa sua sociedade. Old news. O curioso é o filme descrever um cenário ditatorial no seio daquele que é, sem dúvida, o mais antigo país liberal do velho continente – aliás, no qual nasceu o próprio liberalismo. Daí que só se possa entender a mensagem quando a incluímos no coro de fobias que trespassaram recentemente a comunidade anglo-saxónica. Mas conseguimos entender perfeitamente a mensagem profiláctica que se quer passar. Entendemo-la enquanto mensagem subliminar que entra pelo nosso cérebro dizendo: “Não vos deixar levar por regimes totalitários! Cuidai da vossa autodeterminação! Fazei algo para impedir o abuso perpetrado por gananciosos e extremistas, oportunistas e déspotas!” Para bem entendedor, meia palavra basta. Procura-se também mostrar que por vezes é necessário partir um sistema corrupto e caduco para erigir um novo, bem melhor e mais justo. Não deixa todavia de ser caricato que se assiste a uma quase tentativa de legitimação do terrorismo enquanto meio de alcançar objectivos, e esse em particular. Pode “ler-se” no filme que, desde que a causa (o fim) justifique os meios (as acções terroristas), estes últimos não podem - ou devem - ser condenados, ou encarados como condenáveis. Insinua-se que devem ser vistos como um mal necessário. No meio de tudo isto sublinha-se o triste fado daqueles que são usados, atropelados e destruídos pelos regimes autoritários e totalitários. Experiências laboratoriais macabras, zonas cinzentas de conspiração, assassinatos selectivos, e outros tópicos que costumamos associar a esses regimes fazem parte da história de sangue e luta que se quer contar. No centro dessa história de dor e morte encontramos um personagem que, passo o pleonasmo, personifica a insatisfação de todos. Ele é a própria mortificação da liberdade, por não a ter, e, paradoxalmente, uma Fénix que nasce das suas próprias cinzas para permitir a liberdade de todos. Esta persona esconde com a sua máscara de comédia grega (a bem dizer, máscara de Guy Fawkes) a tragédia sentida e vivida por todos aqueles que no âmago da sua passividade não conseguem mover-se em direcção àquilo que, intuitivamente, sabem ser o certo, o correcto, o bom e o bem. Este de que falamos é o herói. Mas também é o destruidor, aquele que quebra a regras para impor novos e melhores modos de vida. É alguém que a própria vida feriu, moldou e cicatrizou de tal maneira que nem sequer é possível um vislumbre da sua face. É uma face terrorífica, uma medusa sem tentáculos. Mas a alma… ah! A alma. A alma é boa e graciosa, inteligente e com sentido de justiça: um modelo de Virtude e virtudes, a Excelência platónica feita gente! Esse alguém é alguém que não pode eximir-se das suas responsabilidades, porque sabe que o preço a pagar por isso é demasiado elevado. Ele é uma mulher violentada ou alguém a quem mataram os pais, uma criança abusada ou um jornalista morto por dizer a verdade. Ele é a face de uma máscara sem expressão, epifania das massas sem rosto definido, alguém sem identidade. Ele(a) é Vingança, mas também Vontade, Valor, Valentia, Virtude, Verdade e Valéria! Uma esperança - um herói que nos move e nos salva da indiferença.
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