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  Um ensaio Sobre Van Helsing, por Coelho de Moraes (3/4/2006)  
 

 


Entretenimento, entretenimento, entretenimento... a indústria do cinema se posiciona, de forma clara. Não ambiciona outra coisa. Quando ambiciona une a renda milionária da bilheteira com uma e outra novidade como foi a PAIXÃO do Mel, aliás, um filme de meia hora, em câmera lenta o tempo todo, que vira quase duas.


O tema VAN HELSING era para um filme que estava demorando a aparecer por causa do carisma que a personagem tem. Pena que quem tomou a frente de definir a saga de VAN HELSING o cinema cheio de truques e plástico em demasia. Além de uma história para boi dormir.


Os produtores do VAN HELSING, filme, resolveram que em vez do místico-espiritualista VAN HELSING, houvesse alí mistura de tudo o que é herói, usando de liberdades poéticas fúteis. Exemplo: A CRIATURA do Dr. Victor Frankeinstein morre, com ele, caindo de um Moinho. O que não é verdade, de acordo com a autora original, pois a criatura desaba com blocos de gelo no pólo . Quero dizer: - Já que morreram mesmo, por que os autores do filme não fizeram de acordo com a ideia original, já que seus perseguidores eram vampiros que podiam tanto estar num aldeola qualquer, como nas geleiras do Árctico. Tanto faz. Ou seja, usaram de licença poética sem valor algum. Trocaram seis por meia dúzia.


Já BATMAN aparece nas primeiras sequências, enquanto luta com um galhofeiro e simiesco MR. HIDE, que de tão virtual e artificialmente construído me pareceu o antigo KING KONG feito de massinha de modelagem da década de 30. Levar a cena para Paris ocorre em perda de senso, a não ser que quisessem remeter ao Corcunda de Notre-Dame, ou, quem sabe, ao Fantasma do Ópera House, ou ainda usar parte do cenário do Moulin Rouge, já pronto, zipado em algum disquete nos estúdios de filmagem – Opa! – de edição. Depois, o Vaticano também virtual. Lá – pasmem todos! – VAN HELSING vai se confessar com um padre conivente com a mortandade. VAN HELSING é um Templário? Fica aí claro que o protagonista tem que colocar o mundo em ordem e destruir tudo o que é anormal ou desordenado, ou seja tudo aquilo que é diferente do usual. A Igreja Católica, por baixo do pano, parte para a solução final frente aos diferentes, usando para isso o Indiana Jones VAN HELSING. A desculpa: Os seres diferentes – os anões, coitados - eram todos criados por obras demoníacas.


James VAN Bond nos subsolos do Vaticanos. Lá, gente de tudo quanto é religião – ecumenismo da mais importante cepa - trabalha para estruturar armas e meios de destruir os desiguais – os monstros – os diferentes. Monges do Tibet e Judeus Ortodoxos se mesclam, com suas roupas características em um laboratório de pesquisa. O certo seria usar jaleco. De qualquer maneira os diferentes são os outros, os filhos do Capeta, os anormais e precisam ser destruídos por VELVERINE HELSING. Para ajudar JAMES HELSING temos um armeiro, um monge que ainda é frei – ou seja, licença para cometer besteiras – que faz o papel de Mr. Q, o armador de Bond. Ainda por cima o sujeito dá a dica de que construiu um reles artefato atômico, com as areias do deserto de Gobi, que todos nós leitores sabemos serem radiativas. No entanto, tanto quanto Caxambu ou Poços de Caldas. Quem sabe o sub-solo? No futuro esse artefato será útil para acabar com os vampiros, centenas deles que dançavam uma simples valsa em tom menor, alegremente, em uma festa, tanto pelo poder de fogo como pelo clarão deslumbrante.


O gótico permanece em tudo. Detalhes de cenários convivem com o digital da moderna técnica e as antigas pinturas de paredes. Mas vemos painéis de fotos em arquivos j-peg projetados sobre as conhecidíssimas telas azuis do chorma-key na cena em que VAN HELSING chega na aldeia e há um cenário muito chapado no fundo, desmentindo o apuro do grupo de técnicos responsáveis. Ali usaram de solução simples. Uma foto contra o fundo, unidimensional. Basta! A ilusão se faz, mesmo por que as vampiras eram bonitonas.
Ainda não entendi o motivo pelo qual os romenos aqueles falavam inglês com sotaque. Como seria dublado, então?


A múmia não apareceu mas o LOBISOMEM sim, aliás, de importância cabal na obra. É através do LOBISOMEM que o outro lado de VAN HELSING HIDE vai brotar e expor a sua HARMATIA – a falha trágica da personagem – pois, o herói, tendo sido mordido por um Lobisomem, se tornará ele mesmo um similar. Vejo aí o lobo saindo de dentro do lobo-homem. Outra citação anacrônica são os casulos de ALIENS que não vingam. Sorte nossa, pois o bonecos eram muito mal feitos.
Curioso, e isso me vem agora, vejo que do herói não brota muita coisa ao lado da mocinha arranjadinha ali do lado, mas, depois da mordida do outro Lobisomem coisa acontecem, coisas mudam... Trágicas e mais estranhas.


Por fim: DRÁCULA. Deve-se aplaudir a construção das vampiras digitais que voam. Muito bem elaboradas e fluidas na sua espectralidade volátil e perolada. Gostei delas. Muito terríveis e más. Um pouco lerdas nas decisões. E, mesmo o Drácula, eu o vi bem diferente dos demais. O ator criou um Drácula no estilo expressionismo alemão e mesmo com trejeitos e modos de agir das Operetas de final do século 19, que é mais ou menos a época em que rola a história. Aquele leve sorriso de deboche teria algum significado dramático? Quanto tempo se levou para construir a Torre Eiffel?


A CRIATURA retorna. Sábia e cool. Um cara muito gozado, falastrão, cheio de frases feitas, fortíssimo que não consegue escapar de corrente alguma e desmaia ao primeiro dardo que o VAN TUPINAMBÁ HELSING lhe sopra.
Algo me diz que esses produtores são uns iconoclastas e se divertiam a valer.


Como se pode imaginar e prever e saber de antemão, VAN HELSING, inimigo do Conde Vlad, mordido de raiva pelo Lobisomen, no aparecer de uma LUA CHEIA que ali estava de plantão, se transforma em terrível carnívoro lépido e raivoso - antagônico às mulheres Liliths que só aprecem na LUA NOVA. E, de acordo com a duvidosa teoria do monge que seguiu HELSING, como Adso segue Guilherme n’O NOME DA ROSA, lobisomens são os únicos que matam Dráculas. Não se sabe de onde ele tirou isso. Provavelmente da cabeça de uns dos produtores do filme. Ora, partindo desse princípio estarrecedor, confirmado pela participação da mocinha em outro filme de igual teor, podemos concluir que onde há Lobisomem há Drácula e Vampiros. E baseado nisso eu me pergunto: O que será de Arceburgo? - Mas isso é outro assunto. Lenda Rural do sul das Minas Gerais.


No entanto o filme, que começa galhofeiro, termina com a tragédia. A catástrofe se abala sobre as consciências – a presunção e soberba e orgulho do protagonista EX VAN HELSING MAN – causa a morte da mocinha. Eis aí o momento trágico do filme. Inesperado, eu poderia dizer, principalmente para quem assistiu o filme antes de ler esse ensaio.


Mas o que importa é como o filme foi feito e não a história que, enfim, todas são banais e simplórias nesse tipo de obra. Afinal, isso é entretenimento, entretenimento... entretenimento...


Coelho de Moraes
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