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Acerca de Donnie Darko (que não vi) e de Freedom Evolves (que não li), por Pedro Sargento - 30/9/2005
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Um grande texto merece sempre uma réplica. As questões enunciadas no texto do Luís provocam o leitor, desafiando quem nelas se aplicar com um mínimo de atenção às mais profundas interrogações, e sujeitando o leitor ao vislumbre da insolubilidade do problema. De facto, considerando as condições actuais que formam o nosso conhecimento e principalmente a nossa maneira especificamente humana (ou seja, exposta ao erro e à dúvida) de conhecer, saber se vivemos num Universo absoluta e fatalmente determinista, indiferentemente casual ou numa realidade tal que seja possível a coexistência de determinismo puro e algum tipo de liberdade não está, e julgo que nunca estará, no alcance do nosso conhecimento. É isto que torna estas questões, profundamente tocantes e aparentemente insolúveis, em questões filosóficas. Estar no campo da filosofia pura e dura é também estar neste espaço de irredutível indecidibilidade sobre questões de natureza “transcendente”. Não existe para já nenhum instrumento ao nosso alcance que coloque a questão do determinismo ou indeterminismo da Realidade no lugar de uma verdade verificável ou mesmo provisória. Desta forma teríamos uma resposta à questão, tornando-a uma verdade da ciência. O ponto mais problemático do texto apresentado pelo Luís é o anúncio da existência da tese que defende a coexistência de Determinismo e Libertismo , a tese “compatibilista” que é defendida por Daniel Dennett. (Devo dizer que não li o Freedom Evolves , de Dennett, e que portanto estou aqui em dissertação livre e não em regime de comentário ao autor). Para que o Compatibilismo funcione seria necessário, na minha opinião, introduzir no eixo do problema a subjectividade humana, que normalmente é desconsiderada por quem insiste em fazer da filosofia uma ciência. Para que se possa conceber a possibilidade de vivermos numa Realidade regida pela determinação absoluta, em que cada instante está prenhe de um e um só futuro possível, fruto da imutabilidade e necessidade das leis que movimentam a acção causal de forma constante, e, ao mesmo tempo e na mesma Realidade, haja um lugar onde um ser disponha, a cada momento de várias opções de futuro, decidindo a todo o instante, por integral iniciativa do seu “poder de liberdade”, que futuro acontece, deve introduzir-se uma bi-dimensionalidade correspondentes a dois “pontos de vista” sobre a Realidade. À primeira dimensão corresponde o ponto de vista da própria realidade, presumivelmente dotada de uma qualquer forma de consciência que “soubesse” (isto é, que disponha de instrumentos de conhecimento que verificassem a verdade da existência ou de uma qualidade de um objecto). Neste “ponto de vista” podemos conceber uma consciência (Deus ou sei lá o quê) que dispusesse todos os eventos do mundo segundo uma ordem causal inalterável, sabendo que todo e qualquer acontecimento é assim porque só poderia ter sido assim, tornando este o único mundo possível. Se só considerarmos para o nosso problema este “ponto de vista”, o da própria Natureza, então escusamos de ter ilusões sobre a possibilidade de sermos livres. Basta adicionar a premissa de que somos seres imersos na Natureza, e portanto estamos sujeitos às suas condições, entre as quais a de habitarmos uma Natureza em que todos os eventos nela ocorrentes são determinados. Mas o que é certo é que nos falta o famigerado ónus probandi que simultaneamente nos sujeitaria, sem apelo possível, à absoluta determinação de tudo o que acontece e à impossibilidade de falarmos desta questão sem estarmos a enunciar um facto (meramente?) científico. O facto de não podermos aceder a uma hipotética consciência universal, à dimensão das coisas em que a única consciência fosse a da própria Realidade deixa-nos uma hipótese para nos concebermos livres. É aqui que a subjectividade humana, a nossa imperfeição (considerando que o desconhecimento da Totalidade constitui uma imperfeição), entra com fulgor suficiente para ser tida como uma outra dimensão que aborda o mundo e os seus fenómenos e factos como factos e fenómenos vistos, pensados e sentidos a partir de formas especificamente humanas de ver, pensar e sentir, e a partir destas formas formar conhecimento. O que retira ao Compatibilismo qualquer hipótese de ser verdadeiro é a rejeição da importância da subjectividade humana (na verdade, não sei se Dennett a considera). Porque ao adoptarmos na abordagem a este problema uma única “dimensão” dentro da qual procurássemos “compatibilidade” entre determinismo puro e liberdade, estaríamos “barrados” pela impossibilidade da coexistência de um Universo em que cada evento tem apenas um futuro possível, enquanto existe um ser que dispõe de múltiplos futuros possíveis antes de executar uma acção, executando assim também um de entre muitos “presentes” possíveis, no caso de adoptarmos exclusivamente o ponto de vista de uma consciência Universal, menosprezando o facto que nos falta a prova da verdade desta hipótese. Por outro lado, adoptando exclusivamente o “ponto de vista” da dimensão subjectivamente humana, barramos no puro desconhecimento sobre se este é um Universo regulado exclusivamente por leis naturais que o determinam ou se, por outro lado, tudo não será antes puro acaso, pura indeterminação . Neste caso, determinismo e indeterminismo são igualmente possíveis, deixando-nos no campo aberto do agnosticismo. Mas considerando simultaneamente as duas dimensões (isto não significa: “tendo simultaneamente os dois pontos de vista”), podemos conceber-nos livres num Universo plenamente determinado, precisamente através de uma das qualidades do modo humano de existir: a contingência . É porque não possuímos acesso ao ponto de vista da Realidade em si mesma que estamos sujeitos ao desconhecimento sobre o que essa Realidade é e ao modo como ela procede. Assim, enquanto nos faltar a prova de que estamos num Universo “fechado”, resultante da eterna sujeição às suas leis, temos disponível a possibilidade de, de facto, agirmos com alguma liberdade , e de habitarmos uma espécie de hiato onde a determinação geral do “resto da realidade” não entrou. Não é que isto signifique que há coexistência entre determinismo e liberdade. O que é tornado possível se adoptarmos a bi-dimensionalidade que podemos, pelo menos, conceber, é a compatibilidade entre a possibilidade de o Universo estar no seu único fluxo possível, e a possibilidade de não sermos afectados por essa univocidade de todos os eventos, pois para por ela sermos afectados teríamos de conhecer, com prova de verdade, o determinismo do Universo, o que por um lado tornaria científico qualquer discurso acerca do “movimento” do Universo e por outro impossibilitaria a aproximação filosófica à questão, tornando, por arrasto, este texto também impossível (haverá um outro mundo possível em que o que acabei de enunciar não seja uma impossibilidade?) Creio que o que de mais relevante se pode aqui entrever é a questão ética de todo este problema. Estou a falar do modo como o ser humano se situa dentro da questão e do seu confronto com o imenso objecto desta discussão. Seja o Destino ou o Acaso . Mas é interessante reparar que é a debilidade da espécie humana, o seu conhecimento insuficiente, a sua contingência perante a totalidade do que há, que lhe permite ainda vislumbrar a possibilidade de ser livre. Um perfeito exemplo de como as fraquezas podem tornar-se forças. |
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