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Batman, Zorro, Uma Ideia de Justiça por Frederico Sólon, 9/11/2005 |
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Este ideal é antigo, remontando possivelmente a Platão. A Justiça não era para este filósofo algo que pudesse ocorrer no mundo físico e sensível, pois tudo neste é ilusório e passageiro. A verdadeira Justiça era para ele uma Forma, uma Ideia, um Arquétipo, algo imutável, inalterável, insensível à mudança e ao tempo. Na medida em que os homens estão confinados ao mundo sensível de sombras, enganos e ilusões, que derivam da mutação perpétua e intrínseca a esse tipo de mundo, não podem alcançar a justiça. Na melhor das hipóteses, se forem suficientemente sabedores, se voltarem a sua atenção para o imutável, para o constante, para a Ideia, e se participarem da Virtude, que em certo sentido se identifica com o Saber, poderão participar também da Justiça. Batman e Zorro são dois heróis que tentam fazer esse exercício. Nem sempre bem ou com resultados, tentam passar por cima das instituições dos homens, tantas vezes insuficientes para cumprir um ideal de Justiça; ideal esse que podemos quase intuitivamente abraçar, mas que importa sempre questionar racionalmente. É precisamente por se situarem “fora” do mundo normal que os nossos heróis têm de estar protegidos pelas suas personas extravagantes. Enquanto homens “normais”, inseridos em sociedade, têm famílias e entes queridos, responsabilidades e obrigações. Não podem iludir essa vida, nem podem abandoná-la. As suas verdadeiras máscaras são essas vidas, e não as negras com que cobrem a face. Refugiam-se nestas últimas de um mundo feito de conflitos, de jogos de força e poder, de justiça construída sobre os pressupostos ocos de uma retórica de interesses. Para lá dessas máscaras de homens comuns, quando se investem de cavaleiros do apocalipse, frios e irredutíveis, imbatíveis e mortíferos, lutam contra a injustiça, defendendo e violando simultaneamente aquilo que mais prezam: a justiça. Mas essa é a apenas a justiça dos homens (em letra minúscula), não a do mundo das Formas, dos Ideais, dos universais. Eles sobrepõem-se, transcendem, participam na Verdadeira Justiça: tiram-lhe a venda dos olhos e ajudam-na a empunhar a sua grande espada, com que abatem todos aqueles que por ignorância, loucura ou ambição, estão tão longe da Forma da Justiça que não conseguem ser co-movidos por ela. Batman e Zorro são diferentes manifestações do mesmo fenómeno: o homem que sobressaí na sociedade graças à sua argumentação (física e intelectual) e ao seu fino sentido de Justiça. São homens que subvertem o sistema usando as armas do sistema. São Sócrates do mundo que, disfarçados de sofistas, preferem perder a vida a ceder a sua dignidade e o seu sentido do bem e do mal. Não se põem para lá deles, mas são super-homens - o que refuta a velha tese Nietzsche. São apenas homens, munidos de Coragem, Saber e Virtude, altruísmo e capacidade de sofrimento. Eles são, em si próprios, Ideais, Formas, Essências, Arquétipos de homens. São entes que não existem no mundo sensível (o que vem reavivar a tese de Nietzsche), mas dos quais todos nós participamos um pouco, e nos quais nos revemos, pelo menos uma vez na vida, quando presenciamos ou sentimos a injustiça (judicial, social, equitativa etc). |