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  A ilha, por Luís Rodrigues - 24/8/2005  
 

A ilha é, antes de mais, um filme de acção à boa maneira de Hollywood. Quem espera (como eu esperava) ir ver um filme no qual os problemas éticos levantados pela clonagem de seres humanos sejam tratados com rigor, que se desengane. Quanto muito são abordadas - mas não respondidas - algumas questões sobre a (i)legitimidade da clonagem.

Primeiro, o pior. O cenário que nos apresentam é exagerado e no mínimo inverosímil (embora não impossível). Nota-se a tentativa de retratar uma situação limite para defender tendenciosamente a proibição da clonagem – sejam quais forem os objectivos dessa prática, inclusive os terapêuticos.

Agora o melhor. Há que reconhecer ao filme a capacidade de fornecer algumas ideias para se começar a pensar seriamente o problema da clonagem. E Isto é bom na medida em que ajuda as pessoas a sair da letargia em que se encontram ao considerarem o problema como um problema respeitante ao futuro e, logo, a resolver no futuro, i.e., quando os recursos científicos e técnicos permitirem a clonagem de pessoas humanas (pois já foram clonadas algumas inumanas).

Mas isso não parece suficiente para fazer do filme um bom filme, pois do princípio ao fim da película apela-se para uma resposta emotiva ao problema, quando, julgo eu, a haver uma resposta ela terá que ser formulada não apenas com base nos nossos sentimentos para com o problema mas também através de uma reflexão séria sobre o mesmo.

Além do problema filosófico central que se propõe tratar, como já disse, a legitimidade da clonagem de seres humanos, o filme levanta outros problemas filosóficos periféricos. Estes são levemente abordados, mas são igualmente mal formulados e mal respondidos. Eis alguns exemplos:

A questão da (ausência de...) identidade pessoal dos clones humanos, na qual se inclui o complicado problema da falta de memória presencial: as memórias da vida passada dos clones são-lhes electronicamente implantadas antes do seu "nascimento". Todavia, no instante do seu "nascimento" já possuem a constituição biológica de adultos, o que origina um desfasamento pouco saudável entre corpo e mente.

A questão do estatuto social dos clones; por exemplo, a forma como poderiam ser inseridos em sociedades maioritariamente constituídas por humanos “naturais” (seja lá o que for que isto quer dizer).

O problema da estabilidade psicológica dos clones; por exemplo, a questão de se saber como seria o comportamento - psicológico e social - de pessoas que, entre outras coisas, teriam uma mente de três anos de idade agregada a um corpo de trinta.

A questão da escravatura - do uso instrumental - de pessoas clonadas (questão fulcral do enredo do filme).

Não se aconselha A ilha a quem quer ver um filme em que estes tópicos são tratados com rigor e clareza. A abordagem aos mesmos é bastante superficial e não muito inteligente. Aconselha-se A ilha para quem deseja ver um filme light, com muitos corantes, visualmente conseguido, e que revela alguma imaginação. Além disso, a Ilha usa como principal forma de cativar o espectador muita acção e pancadaria até vir a mulher da fava rica, como é costume dizer-se. Se o interesse passa por aí, então vale a pena ir ver.

Resta dizer que a banda sonora podia ser bem melhor, o que de certeza ajudaria muito a realçar o apelo à resposta sentimental ao problema. Mas nem isso parece ter sido conseguido. Eis uma das razões por que, muito provavelmente, não saí do cinema comovido – ao contrário de outras pessoas. De certeza que essas pessoas são agora frontalmente contra a clonagem. Bom, talvez não sejam para sempre.. devem ser pelo menos até ao momento de precisarem de “trocar” o fígado ou o coração, e de, claro está, não haver nesse momento dadores.

Filosoficamente, de 1 a 5, o filme merece quanto muito 2,0; enquanto filme propriamente dito merece 3,0. Seremos benevolentes e daremos desta vez uma classificação final de 3.

Luís Rodrigues