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Contacto, por Luís Rodrigues 27/2/2005 |
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Cepticismo vs Dogmatismo/incerteza vs certeza/falsidade vs verdade/filosofia vs autofagia
Aproveito uma breve análise a este conhecido filme, o qual é baseado num romance homónimo de Carl Sagan que muito aprecio, para retorquir ao artigo do meu colega e amigo Pedro Sargento. Nesse artigo ele tem a amabilidade de, por sua vez, responder ao conteúdo de uns artigos ( 1,2,3,4 ) que eu apresentei contra uma perspectiva pessimista e desconsolada (digo eu) do papel e utilidade da filosofia que ele, Pedro, tinha inicialmente colocado na forma de uma interrogação muito pertinente. “Peguei” neste filme porque julgo que é um dos que melhor aborda o problema do Cepticismo e do Dogmatismo . Estamos a falar de um problema que se estende ao problema da verdade, ao problema da certeza, ao problema da crença racional, da crença irracional e, mais importante, ao problema da possibilidade ou impossibilidade do conhecimento. Todos estes problemas estão perfeitamente identificados na tradição filosófica ocidental (e não só), havendo sobre eles uma imensa bibliografia. O problema é em si mesmo extremamente difícil de situar em poucas linhas. Espero conseguir uma tipologia correcta do que está em jogo e, simultaneamente, responder - não de forma directa, aviso já - às belíssimas objecções que o Pedro colocou às minhas ideias. (Tentarei usar uma linguagem que todos possam compreender, mas a experiência que possuo destas coisas ensinou-me já que da tentativa ao resultado da tentativa vai quase sempre uma grande distância). Sobre Contacto (1997) O filme não consegue acompanhar a profundidade de pensamento, genialidade, perspicácia e inovação que Sagan revela na sua obra, principalmente no que concerne ao assunto Seti e ao tipo de emoções e relações humanas que este cientista analisa como poucos (infelizmente agora já não, pois, como se sabe, faleceu há alguns anos). Mas, enfim, isso é algo que acontece com inúmeras adaptações cinematográficas, sendo rara, julgo, a que consegue acompanhar fielmente a ideia da obra que lhe esteve na origem (estou para ver, por exemplo, o que é que vai sair do filme Código da Vinci ). O filme preserva, contudo, uma ideia central de Sagan: a dificuldade que cada um de nós tem de justificar certas crenças - por exemplo, se existem extraterrestres - e, por arrasto, de entender se aquilo em que se acredita é verdadeiro ou falso. Havendo esta dificuldade em perceber se podemos legitimamente aderir a certas crenças, gera-se a dificuldade em perceber a utilidade de certas áreas da actividade teórica humana que geram essas mesmas crenças.
Vamos lá ver se consigo explicar isto um pouco melhor. É trivial que todos nós aceitamos acreditar em certas coisas e rejeitamos acreditar noutras. Por exemplo, a heroína de Contacto , Eleanor Arroway (Jodie Foster), uma cientista radioastrónoma, acreditava veementemente, por um lado, no poder da ciência, enquanto que, por outro, recusava-se a acreditar na existência de Deus. Julgava ela dispor de boas razões para acreditar no poder da ciência (as provas cientificas e o próprio método) e poucas ou nenhumas para acreditar na existência de Deus. Os motivos da sua descrença em Deus são sumariamente apresentados no filme: a morte da mãe à sua nascença, do pai quando era ela muito jovem, entre outras “maldades” que a levavam a crer que não existia um ser sumamente bom, Deus, que tivesse permitido que lhe tivessem acontecido todas essas infelicidades; a ela e ao mundo, claro está. Mas como poderia ela saber com toda a certeza que Deus não existe? Seriam as razões de que dispunha suficientes para tal atitude de não-adesão? Não querendo, por respeito pela liberdade religiosa de cada um, questionar aqui a postura ética de Eleanor ao aderir à crença de que Deus não existe (ou a não aderir à de que existe), essa postura parece-nos talvez errada do ponto de vista epistémico. É errada porque se afigura, em simultâneo, extremamente céptica e extremamente dogmática: extremamente céptica, porque dá como i mpossível conseguir-se saber se Deus existe (ou demonstrar que Ele existe); extremamente dogmática, porque afirma a certeza dessa impossibilidade. Isto conduz-nos para o problema central do corrente artigo: a diferença entre cepticismo e dogmatismo, assim como as suas possíveis relações. O cepticismo revisitado Em filosofia e teoria do conhecimento existe uma distinção clássica, quase canónica, entre cepticismo global e cepticismo local. O primeiro tipo de cepticismo é exaustivo de todas as nossas crenças, supondo que nenhuma, seja de que tipo ou área for, pode aspirar a ser verdadeira; logo, nenhuma pode aspirar a ser conhecimento. O segundo tipo de cepticismo, o localizado, tende a aplicar-se a determinados tipos de crença próprios de certos domínios da actividade teórica humana. Com respeito a este último caso, o céptico visa negar a possibilidade de conhecimento em determinadas áreas específicas. Nega, por exemplo, a verdade das crenças carácter científico, ou das de teor filosófico, ou, ainda, das de carácter ético ou moral. Eleonor Arroway, por exemplo, é céptica localizadamente com relação às proposições (frases) religiosas - é principalmente céptica relativamente à seguinte proposição de carácter religioso: “Deus Existe”. Vamos então ao que nos ocupa neste artigo: desmontar gradualmente os argumentos do céptico. Se o céptico tem a ousadia de sugerir a impossibilidade do conhecimento, o seu cepticismo passa automaticamente de um cepticismo localizado (aplicado a uma área, a Teoria do Conhecimento) para um cepticismo global – pois a própria impossibilidade de havermos crenças verdadeiras justificadas implica a impossibilidade de sabermos o que quer que seja em todas as áreas particulares. Bom, mas então não deveria este céptico manter-se silencioso e não afirmar o que quer que seja sob pena de se contradizer? É!? Não é? Mas então, se assim é, podemos questionar o que leva certas pessoas a afirmar a impossibilidade do conhecimento. Será que não compreendem a contradição em que caem ao fazerem essa afirmação? Não é evidente para elas que cometem um erro grosseiro? Será que são tolas ou lerdas? Não pode ser, pois não? Então o que leva pessoas inteligentes e aplicadas a aderir a um cepticismo localizado que os faz derivar rapidamente para um cepticismo globalizado? E, já agora, onde andam estes cépticos? E quais são os seus argumentos? Será que são válidos? Será que são sólidos? Bem vistas as coisas, talvez os cépticos tenham afinal bons argumentos a favor do que defendem. Vejamos. Peter Unger apresentou aquilo que eu julgo ser um excelente argumento céptico (1) . As suas premissas pareceram-me inicialmente bastante sólidas. Ei-las: Premissa 1: «Se alguém sabe que algo é o caso, então essa pessoa tem de estar absolutamente certa do que é o caso». Premissa 2: «Ninguém pode alguma vez estar absolutamente certo daquilo que é o caso». Conclusão: «Nunca ninguém sabe o que é o caso» (2) (Os mais leigos ou desinteressados nestas matérias podem talvez dispensar os seis parágrafos subsequentes e passar directamente para a próxima secção sobre o Dogmatismo). Como se pode constatar, enquanto P1 define uma condição necessária para alguém saber algo – que se esteja absolutamente certo –, P2 nega peremptoriamente que essa condição possa alguma vez ser satisfeita. Conclui-se daí que nunca ninguém sabe, ou poderá vir a saber, o que quer que seja. Bem vistas as coisas, a conclusão até seria redundante (circular) com a P2 se “certeza” e “saber” fossem intercambiáveis no seio do argumento, tal como a argumentação posterior de Unger parece sugerir. Isto indiciaria uma petição de princípio grave, pois poderia estar a admitir-se nas premissas aquilo que se quer demonstrar na conclusão: que certeza e saber equivalem-se (e que não ocorrendo a primeira não o segundo). Não se pode afirmar, porém, que as expressões referem exactamente a mesma coisa, nem semântica nem epistemicamente, pelo que não conseguimos atacar o argumento desta forma. Se queremos recusar este argumento – o que me parece quase um imperativo – devemos por certo questionar a solidez das suas premissas. A melhor forma de o fazer é bastante óbvia: Só temos talvez de sugerir que se P2 fosse verdadeira também o céptico não poderia alguma vez ter a certeza de que as suas premissas e conclusão são verdadeiras; e, logo, que esta última se pode constituir como conhecimento. Mas o céptico “desvia-se” deste ataque sugerindo que está apenas a aventar uma hipótese, e não que está a afirmar o que quer que seja, muito menos uma verdade ou a Verdade. Contudo, como veremos adiante, esta esquiva do céptico não resulta em grande proveito para o próprio céptico, pois ele acaba por cair - novamente - na sua própria armadilha só pelo simples facto de a montar. Já vimos por alto que a P2 faz ricochete contra quem a declara (3). Mas podemos além disso contestar a elevada exigência presente na P1: será que para alguém saber algo tem de estar absolutamente certo?(4) Esta injunção é defendida seriamente por Unger, diria mesmo, com “unhas e dentes”. Mas essa defesa incorre, julgo, em graves problemas quando se submete ao seu próprio crivo. Já veremos melhor como. Por ora devemos visitar o dogmatismo e ver como está relacionado com o cepticismo. Dogmatismo e certeza (absoluta) Unger sugere que a aceitação tácita de que estamos absolutamente certos a respeito do que é o caso e de que nada na nossa experiência passada, actual ou futura (inclui-se nesta experiência, sensações, percepções, inferências, memórias, etc) será contrário a esta nossa certeza é o dogmatismo. É, pois, dogmático, visto desta perspectiva, todo aquele que tem a referida certeza de que aquilo em que acredita é verdadeiro e que nada virá que abale essa verdade. Pelo contrário, afirma Unger, aquele que nunca aceita nada como absolutamente certo (leia-se, garantido) nem relativamente ao passado, nem ao presente, nem ao futuro, é céptico (e, subtende-se, deve ser louvado). Conhecimento, a quanto obrigas! É muito provável que Unger esteja a misturar indevidamente no mesmo saco coisas bastante distintas (ou independentes), tais como a verdade, a certeza e o conhecimento, por um lado, e a dúvida razoável com a dúvida pirrónica, por outro. Vejamos. Primeiro, a verdade. A verdade é o que é o caso; isto independentemente de o que é o caso ser ou não acreditado por alguém. Ainda que não houvesse ninguém para acreditar – neste caso, justificadamente – que a terra orbita à volta do sol, isso seria o caso. Quer isto dizer que a verdade não está dependente de alimentarmos ou não certezas sobre o que é o caso, ou de acreditarmos justificada ou injustificadamente que algo é o caso . Claro que há significados (julgo que mais fracos) do conceito de verdade em que a verdade está na dependência de várias outras coisas: ou é uma criação arbitrária, ou uma redundância, ou uma propriedade criada por sujeitos inteligentes, ou um reflexo da linguagem articulada desses sujeitos, ou, ainda, um produto da racionalidade, da validade lógica que a racionalidade permite intuir e simbolizar, etc. Mas nada disto é suficientemente explicativo, nem se consegue apresentar uma perspectiva satisfatória recorrendo a qualquer um destes conceitos mais fracos. Diga-se o que se disser, os únicos critérios de verdade que ainda conseguem satisfazer-nos são possivelmente o da correspondência e o da consistência. Tudo o mais são sub-espécies, teorias (mesmo as da coerência, do holismo e do pragmatismo) com inúmeros e massivos problemas, portanto, nada plausíveis. Segundo, a certeza. Os filósofos (epistemólogos) contemporâneos são bastante cautelosos a propósito da requisição de certeza absoluta para as nossas crenças. São cautelosos (mas não pirrónicos (5) ) quanto se trata de admitir uma versão forte do conhecimento assente na certeza absoluta e na completa ausência de dúvida naquilo em que acreditamos. Isto é assim porque os filósofos sabem perfeitamente que se admitirmos uma versão forte do conhecimento teremos de nos contentar com um leque muito reduzido de crenças que podem contar, precisamente, como conhecimento (6). A versão forte do conhecimento foi proposta por Descartes quando estipulou essas exigências para algo contar como conhecimento. Mas nós podemos perfeitamente seguir o caminho oposto, i.e., aceitar, por exemplo, que a certeza é dispensável, e que desde que possamos justificar correctamente aquilo em que acreditamos (7), podemos saber isso em que acreditamos. Terceiro, a dúvida razoável versus a dúvida pirrónica. É hábito confundir-se dúvida razoável (DR) com dúvida pirrónica (DP). Todavia estamos perante tipos de dúvida radicalmente diferentes, quer no que respeita ao método que se deseja implementar na sua utilização quer no que respeita aos objectivos que se pretendem alcançar com essa utilização. A DR é a dúvida socrática por excelência, aquela que tem comandado o rumo da filosofia desde sempre: duvidamos com o intuito claro de discutir (no bom sentido), de esclarecer, de melhorar, de perceber, de saber! A DP, apesar de ter tido as suas origens históricas e filosóficas na DR, é o seu oposto. Quando usamos a DP duvidamos com o intuito claro de destruir, em que a destruição é o objectivo final e não um meio para construir algo. Portanto a DP bloqueia, inibe, impossibilita, impede, restringe, anula, etc. Não importa sequer se há ou não intenção de o fazer por parte de quem a usa: o que importa é que isso acontece de facto quando é usada, excepto se conseguirmos nós próprios usá-la para bloquear ou anular os argumentos de quem a usa, gerando assim uma implosão.. Parece, portanto, que a única forma de não extremar posições é usar uma espécie de dúvida metódica cartesiana despida do seu carácter pirrónico inicial. Quer dizer, usamos uma prudência epistemológica – absolutamente necessária – em todas as situações que mereçam o nosso escrutínio. Essa prudência poderá impedir-nos, por um lado, de aceitar acriticamente tudo o que se nos depara à primeira (ou segunda ou terceira) vista como absolutamente garantido e, por outro, prevenir a infelicidade de cairmos na própria DP, isto na medida em que julgamos possuir na dúvida razoável e, agora, também prudente, um bom instrumento para, metodicamente, conseguirmos justificar cada vez mais e melhor aquilo em que acreditamos; conseguindo, assim, avançar para a aceitação gradual de que isso em que acreditamos se constitui de facto como conhecimento. Q.E.D, ou talvez não… Por tudo isto que dissemos ainda agora podemos talvez alimentar a ideia de que a P1 é pouco sólida ou plausível (8) . Parece bastante óbvio que a exigência presente nessa premissa põe em causa a solidez da mesma. Mas mesmo que isto esteja correcto, o céptico ainda dispõe de uma munição importante. E ele poderá usá-la para destruir as nossas propostas se não mantivermos cuidados redobrados. Essa munição é a acusação de dogmatismo que o céptico nos lança do alto da sua indiferença, o que não deixa de ser uma situação caricata por se revelar extremamente contraditória: O caricato está em que alguém que não se incomoda em provar nada, pois na sua perspectiva nada pode ser demonstrado, lança um ataque para provar que estamos errados porque somos dogmáticos. Os leitores que já jogaram ténis ou ping-pong, ou que já praticaram uma qualquer arte marcial defensiva (Judo, por exemplo), sabem que uma das técnicas usadas contra oponentes muito ofensivos, difíceis e renitentes é usar a própria força que usam para nos atingir. Se percebem o conceito, vão entender o que se segue. Se o Céptico tem um argumento a favor do cepticismo, e se o defende com outros argumentos, é porque pretende afirmar a verdade ou, no mínimo a plausibilidade, do seu argumento. Mas, como vimos lá atrás, se o céptico reclama isso terá de aceitar que para saber que o seu argumento é verdadeiro ou plausível terá de estar certo (por exemplo, graças a consistência da sua argumentação) de que isso é o caso. Mas se, por um lado, ele está absolutamente certo de que isso é o caso, então a P2 é falsa, pois alguém poderá (uma vez que seja) estar absolutamente certo de que algo é o caso – o que gera uma contradição no interior da premissa. E se, por outro lado, ele não pode saber que isso é o caso por nunca ninguém poder vir a saber que isso é o caso (visto P2 ser verdadeira), então o rapaz ainda se encontra em piores lençóis, pois a sua sugestão de nada vale, e o seu argumento pode ser justamente ignorado mesmo que nos pareça plausível. Resumindo, se se dá a primeira situação, o céptico incorre numa inconsistência; se se dá a segunda, o céptico é inconsequente. Contacto! Percorri este penoso caminho só para não haver dúvidas de que podemos ir alcançando verdades, i.e., segundo entendo, crenças verdadeiras devidamente justificadas que se constituem como conhecimento. Quando exigimos a Verdade ou que a própria natureza da filosofia não nos permite alcançar qualquer verdade, estamos a ser dogmaticamente cépticos. Como é óbvio, é preferível ser cepticamente dogmático do que dogmaticamente céptico. Se sugerimos que a filosofia não pode alguma vez fornecer « (…) um real avanço na busca pela Verdade» (9), cometemos o mesmo erro que Eloanor Arraway comete quando nega a existência de Deus baseada apenas em razões circunstanciais. Ela diz que é impossível Deus existir e permitir que tudo o que de mau acontece no mundo (o problema da incompatibilidade de Deus com o mal natural e moral). Mas ela não pode afirmar a inexistência de Deus com base em provas circunstanciais: ela teria de estar na posição de Deus para afirmar a existência ou inexistência de Deus – Ellie não tem de todo a sua crença devidamente justificada. Mas outras coisas são bem menos difíceis de demonstrar que a existência de Deus. Uma dessas é a filosofia permitir que se chegue à verdade ou, pelo menos, a algumas verdades. Quando se afirma que o facto de a filosofia ser - e dever ser - por natureza anti-dogmática inibe a possibilidade de chegarmos à verdade e até de a esgotarmos em certos campos, estamos a incorrer ou em inconsistência ou em inconsequência. Pois, como pode ser isto verdadeiro se não há verdades filosóficas ou não as podemos alcançar? Pergunta-se então: a filosofia perde a sua utilidade por causa desta pseudo-ausência - fracamente idealizada - de objectividade? Esgota-se num seu caminho de retrocessos ou insucessos? Afoga-se no seu próprio esforço de se encontrar com o seu objecto? É a filosofia uma Erótica da insatisfação? Do irrealizado, talvez? Não! Claro que não! Porquê? Porque isto é simplesmente falso. É falso porque, lamento dizê-lo, é o resultado de uma visão pobre da filosofia que se anula a si mesma. Esta visão pobre afunda-se na tentativa de afirmar a sua própria plausibilidade. É que se o proposto por esta visão estreita fosse verdadeiro, como deseja todo aquele que questiona a possibilidade da filosofia fornecer verdades, haveria uma anulação automática das verdades filosóficas, incluindo a de que não pode haver verdades filosóficas fornecida por tal visão estreita. Podemos ver nisto uma primeira verdade, algo que não esgota (de todo) a filosofia mas que a inocula contra cepticismos dogmáticos, esses sim autofágicos porque em si mesmos contraditórios - e por isso inaceitáveis. A filosofia não é, pois, uma autofagia se se direcciona para a verdade. Ela não está condicionada por essa putativa extinção que lhe poderia ocorrer a quando do seu encontro com o seu objecto: a Verdade. A filosofia é um instrumento dos homens, um instrumento por natureza inesgotável. Mas não é por ser inesgotável ou propor abertura constante que a filosofia é em si contraditória, inútil ou auto-fágica. Pelo contrário, a filosofia é um refazer depois do encontrar…. A filosofia é um permanente fazer e refazer, procurar e re-procurar. Mas, por um lado, esse refazer e procurar não partem sempre e inapelavelemente do zero; e, por outro, não há retorno eterno ou cíclico ao zero que em si mesmo inviabiliza a utilidade do próprio fazer e procurar, i.e., a filosofia não se extingue nem na procura, nem na chegada, nem de forma alguma. Esta é, penso, das mais belas lições de Sócrates (Do platónico. Há outro?); infelizmente, tantas vezes esquecida. Finalizo com um famoso trecho filosófico: «Eis aqui a principal e a mais perturbante objecção ao cepticismo excessivo: nenhum bem duradoiro pode alguma vez dele resultar, enquanto permanecer na sua plena força e vigor. Precisamos apenas de perguntar a um tal céptico: Qual é o seu significado? E que propõe ele mediante todas estas curiosas investigações?»(10) (David Hume) ------------------ Notas 1) Unger, P, “An Argument for Skepticism”, 1974. ( in Epistemology, an Anthology , org. Sosa & Kim). 3) Como é óbvio, uma sugestão é uma declaração. Uma declaração é uma afirmação, seja intencional ou não. Logo, julgo, qualquer sugestão tem de passar o crivo de P2. Isto será melhor explicado no final da secção. 4) Esta é uma das exigências do meu amigo Pedro Sargento. Ele sugere que como não podemos ter a certeza absoluta de nada, ou estarmos absolutamente seguros do que quer que seja, então ou não sabemos nada ou não é possível decidir quem sabe – ou que tem razão. Segue-se, afirma o Pedro, que o conhecimento faz um loop sobre si mesmo, sendo impossível conseguir uma posição privilegiada para confirmá-lo, pois isso exigiria que estivéssemos nessa tal posição onde não podemos estar. 5) O pirronismo é uma variante fortíssima do cepticismo, talvez mais famosa mas menos compreendida entre os leigos, segundo a qual não é possível alguma vez saber algo porque qualquer das nossas crenças necessita de uma justificação que, por sua, vez necessita de uma justificação que, por sua vez, necessita de uma justificação…etc., gerando-se assim um regresso ao infinito na sequência de justificações que não permite que qualquer crença esteja alguma vez justificada – portanto nenhuma pode contar como conhecimento; logo o conhecimento é impossível. 6) Crenças sobre verdades necessárias, talvez verdades simples da aritmética e da matemática (ou nem isso se tivermos em atenção os problemas com o logicismo e outras teorias explicativas dos fundamentos da aritmética e da matemática). Ou talvez proposições trivialmente verdadeiras como “se isto é verde então é verde”, ou “eu estou aqui”. Fora isto não parece haver muitas mais crenças nas quais possamos acreditar com certeza absoluta. 7) É óbvio que não posso responder aqui como é que se pode justificar correctamente a maioria das nossas crenças. Isso seria por certo tema para uma tese de doutoramento em epistemologia. Por falar nisso, é o tema da minha, que espero apresentar daqui a sensivelmente quatro anos. 8) Unger faz uma defesa interessante desta premissa no seu texto. Esta defesa não pode ser aqui tratada por ser demasiado técnica. De notar, contudo, que mesmo essa defesa implica uma exigência que vai contra a posição assumida na própria premissa, fazendo perigar a sua consistência e plausibilidade. Em breve terei disponível noutro lugar um texto mais completo e especializado sobre este assunto. 9) Sargento, P, “Consol(id)ações”. (Disponível aqui ) 10) Hume, D, Investigação Sobre o Entendimento Humano , secção XII, parte 2 – (128). |