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Crash: Causalidade e o Outro, por Luís Rodrigues - 16/11/2005 |
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Decidi fazer um breve comentário ao filme Crash porque aborda dois problemas importantes que são do desconhecimento da maioria dos críticos de cinema. Os críticos cinéfilos (que em grego antigo seria qualquer coisa como “amigos do movimento”), na internet ou fora dela, referem que o filme trata de problemas sociais (da sociedade de consumo americana), de problemas raciais, de problemas psicológicos, de problemas de justiça, etc. Concordo com tudo isto. Acho mesmo que o objectivo do filme era dar bicadas a “torto e direito”, mostrando de caminho como todos os aspectos que referi podem contribuir para, num curto lapso de tempo e num espaço geográfico circunscrito, originar as situações mais bizarras. Mas não é nada disto que me traz para este comentário. É então o quê? Como não podia deixar de ser, são dois problemas filosóficos; dois problemas que o filme coloca implicitamente, mas que não desenvolve, deixando ao leitor o trabalho de os perceber e, se for caso disso, de os tentar resolver. Os problemas são: 1) o da causalidade; 2) o problema do Outro. Estas são questões antigas e “enormes” no seio da filosofia. Vou, por isso, apenas dar uma breve ideia do que está em jogo. O filme começa com alguém (Don Cheadle?) queixando-se que em LA as pessoas chocam propositadamente umas com as outras por terem necessidade de se impor e, subentende-se, por se sentirem profundamente sós e isoladas face ao Outro. Como podemos analisar esta tirada? Bom, é habitual associar à ideia de choque físico a ideia de causa; embora, como é óbvio, nem sempre uma causa tenha que ter um carácter físico ou originar um efeito dessa natureza. Por exemplo, algumas causas podem ser mentais e não ter nada de físico. Actos mentais podem ser a causa de efeitos físicos, e acontecimentos físicos podem causar efeitos mentais. Esta é a questão da causalidade implícita no filme do princípio ao fim: a ideia de que um contacto, físico ou mental, origina determinados efeitos, também físicos ou mentais, que vão ser as causas de novos efeitos, que vão ser causas de novos efeitos, etc; desenvolvendo-se assim uma complexa rede ou sequência de causas e efeitos. É por aqui que entra o segundo problema: o do Outro (ou outros). A ideia do filme, que me parece boa, é mostrar como as relações de choque (de causa e efeito) que se geram entre pessoas (que às vezes nem se conhecem) contribuem para o aparecer e o desenrolar de situações emocionais e sentimentais intensas, mostrando-se assim que a interacção entre seres humanos (uma complexa rede de causas e efeitos que nos envolve a nós e ao outro) exige o melhor de nós, principalmente atenção, altruísmo e responsabilidade. E assim se chega à conclusão bastante trivial, mas muitas vezes esquecida, que as nossas acções definem não só aquilo que somos mas também e principalmente a nossa vivência em partilha com o Outro. Eis por que, diz-nos o filme, de umas vezes conseguimos ser tão horríveis, sujeitando-nos a nós e aos outros ao sofrimento atroz; e, de outras, conseguimos fazer coisas maravilhosas, moralmente louváveis e que nos fazem sentir imensamente felizes. Parece então que, na perspectiva do filme, necessitamos, para sermos e fazermos os outros felizes, de estar conscientes dos efeitos das nossas acções e de agir com a preocupação de chocar positivamente com eles – o que o Acaso, a existir, nem sempre permite (veja-se a rábula do tipo que morre por gostar de São Cristóvão). Esta é talvez uma máxima de Cristo. Consigo viver com ela sem grandes problemas. E vocês?
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