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Na introdução referi como iríamos abordar o problema da falta de confiança no conhecimento e na verdade (tese 2), e de como essa falta de confiança dá azo à falta de confiança nos objectivos e utilidade da filosofia (tese 1). Neste texto explico as razões dos cépticos, dos indiferentes e dos arbitrários em favor da tese (2). Depois desmonto-as e apresento, julgo, razões muito plausíveis para as refutar ou ignorar sem apelo nem agravo. Vamos ao trabalho!
i) O céptico radical.
Este indivíduo tem por hábito afirmar ou o que conhecimento não é possível - seja de que tipo for - ou que poderemos nunca vir a saber se é possível. A favor destas teses milita a ideia de que é impossível saber-se quando alcançamos a verdade ou o conhecimento, porque isso exigiria saber-se, previamente, o que é verdadeiro e o que é falso, assim como o que é o conhecimento. Ergo, nunca poderemos “chegar” à verdade e ao conhecimento na medida em que qualquer explicação, proposta ou teoria sobre o assunto, incorre numa petição de princípio ou num regresso (explicativo) ao infinito.
Este argumento afigura-se-nos à primeira vista bastante plausível, mas há pelo menos duas formas eficazes de o refutar; segue-se a explicação. Primeiro, pode conceder-se ao céptico que está certo. Ele vai então ter de conceder que a sua afirmação “o conhecimento é impossível e a verdade inatingível” é verdadeira. Mas, se assim fosse, então o céptico não estaria de facto certo, pois haveria pelo menos uma proposição que teria que ser verdadeira e constituir-se como conhecimento, a saber, que “o conhecimento é impossível e a verdade inatingível”. Em segundo, pode mostrar-se ao céptico que se a sua asserção fosse de facto verdadeira teria que ser de facto falsa; pois o que a proposição assevera é que não há proposições verdadeiras, inclusive a proposição que afirma não haver proposições verdadeiras - portanto, assevera que ela própria é falsa. Logo, o argumento do céptico radical implode assim que se sujeita à inspecção. Este céptico entra em clara contradição assim que abre a boca para afirmar a sua tese que o conhecimento é impossível e a verdade inatingível. Se, contudo, por outro lado, o céptico nada diz, tentando com isso vindicar a sua posição de que nada pode ser dito, então simplesmente nada diz – é inócuo. Coitado, sofre se fala e sofre se está calado. Temos pena…, mas é assim.
Há no entanto uma variante light do céptico radical que costuma safar-se melhor do que este último inventando demónios cartesianos(1) , cenários de sonhos, cérebros em cubas, e outros “enganadores epistémicos” de escala universal. Este céptico é por norma um tipo sério e mantém uma posição filosófica perfeitamente respeitável, principalmente por ser muito menos radical que o seu “primo” radical e por estar disposto a discutir os problemas com base na suposição inicial de que, pelo menos à partida, o conhecimento é possível e a verdade atingível. Portanto, ele não afirma como o seu “primo” tresloucado que o conhecimento é de todo impossível e a verdade de todo inatingível. Nada disso! O que ele diz é que é extremamente difícil, senão mesmo impossível, demonstrar que não estamos a ser enganados por algo ou alguém que nos incute e nos obriga a acreditar em falsidades sobre tudo que nos rodeia e até sobre a nossa própria condição(2) . Uma variante conhecida destes cenários de engano e erro é a teoria de que se estivermos de facto a sonhar que estamos a viver tudo o que experienciamos, coisa que não podemos garantir com toda a certeza não ser o caso, então também não podemos saber se estamos a sonhar ou não. Logo, não podemos saber coisa nenhuma do que poderíamos saber se tivéssemos a certeza, que não temos, de que não estamos de facto a sonhar. Esta é uma conhecida “pescadinha-de-rabo-na-boca” que este céptico gosta de servir em quase todas as suas intervenções, vangloriando-se, no processo, da irrefutabilidade inerente à sua tese.
Mas vejamos. Se este céptico defende e aceita o cenário-do-engano, então também ele não pode demonstrar ou justificar a existência dos demónios enganadores, pois ele afirma que nada pode ser afirmado como certo ou verdadeiro devido ao facto de estarmos a ser enganados por eles (3) . Assim, a teoria do céptico sobre o demónio-enganador tende a anular-se a si mesma: se não há maneira de decidir, demonstrar ou justificar que há um demónio enganador que nos engana intencionalmente, também não se pode assegurar que essa possibilidade é o caso, i.e., que é verdadeira. Portanto, se houver o tal demónio, não podemos saber se existe. Se não podemos saber isso, também não podemos assegurar a tese de que existe um demónio enganador e que estamos a ser enganados. Nova implosão.
ii) o céptico desinteressado e indiferente a tudo e todos
Há, porém, um outro tipo de céptico ainda mais sagaz e cínico. Este fulano é especialmente, e propositadamente, insensível a argumentos consistentes ou posições bem sustentadas. Ele nada afirma e nada defende, excepto, talvez, que a sua posição é tão legitima quanto a dos outros e que o ónus da prova está sempre do outro “lado”; não do seu, obviamente, mas sim do lado de quem deseja afirmar ou sustentar algo. Quando este céptico é confrontado com os antídotos receitados às posturas cépticas que referimos, responde coisas deste género: “Pois, pois. Está bem, está bem. Se isso te faz feliz, por mim também está fino! Quero lá saber do que dizes. Nada disso me interessa, nem sequer que proves o teu ponto. Estás a falar para as paredes. Vai falando: é-me igual ao litro”.
Que eu tenha conhecimento, só há uma resposta possível a este tipo de cepticismo: pagar da mesma moeda. Só temos de lhe dizer (se a isso nos virmos obrigados por um qualquer imperativo de moralidade ou de boa-vontade) para ir professar a sua religião para o Ignoristão ou para o País-da-Alice. Toleramos e respeitamos a sua posição, mas, seguindo uma atitude semelhante, não somos obrigados a aturar tolos. Claro que adoptar essa atitude não nos torna iguais a ele, pois nós continuaremos disponíveis e interessados em manter discussões saudáveis, consistentes e produtivas, com outras pessoas. Resta apenas dizer que se este céptico insiste na sua atitude de indiferença para com tudo e todos, então não é de todo filósofo; pois este é, por definição, aquele que procura algo: o conhecimento e a sabedoria. Como vimos acima, este céptico (da indiferença) não procura a filia da Sophia mas sim a ataraxia ou a inacção; ergo, deve ser um filos-apatias (da a/patia – sem pathos), ou algo do género, mas nunca um filósofo. Logo, podemos ignorá-lo quando fala da falta de utilidade da filosofia, pois não tem “moral” ou autoridade para o fazer. E quem lhas reconhece, não as possuindo ele, ainda é, por razões óbvias, mais tolo que ele.
iii) o céptico arbitrário-palavroso
Este indivíduo tem um lema que é o seguinte: “Nada se pode decidir ou demonstrar porque ninguém está numa posição privilegiada para o fazer. Logo, ou não te ligo ou, se te ligo, não sou de todo obrigado a aceitar o teu argumento, por muito plausível que possa ser ou parecer. É que, rapaz, ninguém está na posição privilegiada do olho de Deus. Só dessa posição seria possível decidir quem está certo e quem está errado. Logo, se nada vale, tudo vale; e, se tudo vale da maneira que sugiro, então nada vale”. Curiosamente, este tipo tem o hábito de disfarçar-se de filósofo e diz amar a profundamente a sabedoria. Usando de jogos de palavras e combinações sintático-semânticas pseudo pertinentes, diz apenas o que lhe sai como improvisação inconsequente ou incoerente. É também “especialista”, inconfesso ou inconsciente, da falácia non-sequitur. Entra facilmente em arbitrariedades loucas que ninguém com dois dedos de testa está disposto a aceitar (do género da que acabamos de referir). Etc.
Há duas respostas possíveis a estes pseudo savants da arbitrariedade e da confusão. A primeira é adquirir, pragmaticamente, mais habilitações e reconhecimento por parte da sociedade do que eles próprios têm (e que não se percebe muito bem como conseguiram adquirir) e, a bel-prazer, ser legitimamente para com eles tão ou mais arbitrários do que eles são para connosco, enviando-os assim para o limbo que merecem. Segundo, ir jogar ao berlinde e deixá-los a pregar as suas arbitrariedades às larvas – teria que ser às larvas, pois os peixes são criaturas inteligentes e não estariam certamente dispostos a ouvir tais parvoíces, muito menos em academias que sustentem projectos de educação sérios, porque coerentes, bem estruturados e com finalidades bem definidas.
Finda esta breve rejeição de várias formas de cepticismo com que nos confrontamos quase todos os dias, e antes ainda de passar para o terreno dos outros “ismos” e “istas” subversivos da utilidade da filosofia, convém esclarecer uma grande confusão feita habitualmente por alguns incautos. Desta confusão nascem as mais variadas atrocidades e ataques à verdade, ao conhecimento e à própria filosofia, resultado de uma (muito, muito!) má compreensão dos conceitos usados (o resultado provável de um mau, mesmo mau, sistema de ensino da filosofia enquanto disciplina escolar). Esta confusão acontece por não se fazer habitualmente uma distinção óbvia: a distinção entre, por um lado, o cepticismo destrutivo, radical, sustentado no paradoxo, na indiferença ou na arbitrariedade, e, por outro lado, o cepticismo metodológico. As primeiras formas de cepticismo são claramente anti-verdade e anti-conhecimento. O segundo tipo de cepticismo é obviamente profilático e instrumental. Como é manifesto, a segunda forma de cepticismo é adoptada por aqueles que procuram a sabedoria. A primeira não! A primeira estanca o fluxo epistémico logo na nascente - é impeditiva e castradora, não sendo uma atitude epistémica louvável ou admissível. É esta é a confusão de muitos, a saber, tomam a segunda forma pelas primeiras, ou metem tudo no mesmo saco, e depois desesperam porque não vislumbram a luz ao fundo do túnel. Coitados, confusos e desconsolados. Vamos lá! É preciso animá-los e tirá-los do seu pesadelo. Malditos demónios! Enganam os pobres diabos e ainda são enaltecidos por eles.
No próximo artigo veremos em linhas mestras as principais razões que nos podem levar à recusa do relativismo e do contextualismo. Até lá.
Luís Rodrigues
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Notas:
1) Cf., Descartes, Meditações Metafísicas, II Med.
2) Quem viu o filme Matrix tem aí um bom retrato do que pode “funcionar” como um demónio-enganador. Antes de despertar para a realidade-realidade, Neo vivia numa realidade virtual “fabricada” por máquinas (demónios) que faziam Neo ter crenças falsas sobre tudo o que o rodeava, quase tudo o que experimentava e pensava (excepto, talvez, que existia).
3) Sobre isto ver G.E. Moore, “Certainty”, 1962.
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