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Do Desconsolo dos Filósofos (introdução),

por Luís Rodrigues - 21/1/2001

 
 

Julga-se saber que Anicius Manlius Severinus Boethius, conhecido nos meios filosóficos e literários por simplesmente por Boécio, escreveu A Consolação da Filosofia enquanto aguardava a sua própria execução, presumivelmente depois de ter sido condenado à morte. Boécio insinua nessa obra as razões pelas quais a filosofia tem um papel crucial na vida dos homens; insinua como pode dar-lhe um sentido, uma finalidade. Sugere-se uma procura constante do conhecimento e do saber, uma vida de postura ética vincada, de rejeição do facilitismo, de intencionalidade. Curiosamente ou talvez não, dezasseis séculos depois de Boécio ter escrito esta magnífica obra há ainda quem se lamente pelos “cantos” da filosofia, questionando, desconsoladamente, a sua utilidade. Nos três artigos que se seguem vou tentar mostrar as razões pelas quais apesar de fazer todo o sentido questionar a utilidade da filosofia usando a própria filosofia, sujeitando-a assim a uma reformulação constante e necessária, não faz contudo nenhum sentido assumir uma postura excessivamente céptica, relativista ou subjectivista com relação aos seus objectivos e, logo, utilidade.

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(Boécio, A Consolação da Filosofia, livro 1, poema 2)

Posto o intróito, passo a expor dois estigmas que marcaram e ainda marcam fundo a filosofia (dita) pós-moderna, são eles:

1) o complexo da falta utilidade da filosofia, e

2) o problema da impossibilidade de se atingir a verdade e/ou o conhecimento - por via filosófica, ou, na opinião dos mais pirrónicos, seja por que via for, inclusive a científica.

Tenciono mostrar que (1) deriva em larga medida da aceitação acrítica de (2). Terei primeiro que explicar sucintamente como é que (2) é apoiada pelos i) cépticos, ii) indiferentes, iii) defensores da arbitrariedade, iv) relativistas e v) subjectivistas (perspectivistas). Depois disso irei argumentar que é perfeitamente consistente rejeitar (1) com base na rejeição - prévia - de (2).

Para melhor “digestão” filosófica dividirei a análise em três artigos, brevemente disponíveis.

Luís Rodrigues