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Do Desconsolo dos Filósofos

(Perspectivismo e pseudo falta de utilidade da filosofia)

3ª parte

...por Luís Rodrigues - 30/1/2001

 
 

 

Nos dois textos anteriores, aqui o primeiro e aqui o segundo, vimos como o cepticismo e o relativismo são fundamentalmente posições a partir das quais se questiona o conhecimento e a verdade. No texto que se segue vou mostrar sucintamente como o perspectivismo, também conhecido por subjectivismo, ambiciona também ser uma rampa de lançamento para ataques cerrados ao conhecimento e à verdade, considerados de uma forma objectiva (não há outra forma de os considerar). Depois disso vamos ver como o perspectivismo falha redondamente, auto destruindo-se na própria tentativa de se impor. Finda a colocação dos argumentos contra as teorias que militam a favor da tese 2 (ver também artigos anteriores), irei tecer algumas considerações sobre o problema da utilidade da filosofia.


v) Perspectivismo (epistemológico)


Adoptar uma perspectiva é simplesmente “ver” as coisas a partir de uma determinada posição. À primeira vista, nada de mal decorre dessa atitude. Todos nós, de uma forma ou outra, adoptamos regularmente a nossa própria perspectiva: a perspectiva da primeira pessoa. Nós percepcionamos, sentimos e pensamos graças ao nosso corpo e a nossa mente. É assim de esperar que quando fazemos cada uma dessas coisas as façamos a partir de "dentro" da nossa própria perspectiva.


O mesmo ocorre com o conhecimento e com aquilo que julgamos ser a verdade. Não poucas vezes consideramos - sobranceira e injustificadamente - que sabemos algo e que estamos na posse da verdade, quando afinal isso não é de todo o caso. Não é fácil garantir que estamos na posse dessas coisas usando apenas a nossa perspectiva; mas, enfim, não há nada de contraditório em dar o benefício da dúvida a esta hipótese: pode ser o caso que sim ou pode ser o caso que não, sendo algo extremamente difícil decidir a questão sem recorrer a processos fiáveis “exteriores” à mente de quem adopta uma determinada crença e, consequentemente, uma perspectiva (1).


O perspectivismo é, grosso modo, a teoria segundo a qual 1) todas as perspectivas são igualmente válidas no que respeita à verdade e ao conhecimento, principalmente porque 2) não é possível decidir qual é a melhor perspectiva, na medida em que essa decisão depende sempre de uma perspectiva. Vemos facilmente que 2 é uma apenas uma forma mitigada de contextualismo, adaptado não a contextos mas sim a perspectivas (ou talvez limitada a contextos psicológicos). 1 é claramente uma forma velada de cepticismo - radical.


A maneira mais aconselhável e eficaz de combater o perspectivismo é submetê-lo ao seu próprio crivo, como fizemos aliás nos outros artigos com certas figuras - desaconselháveis - de cepticismo e relativismo. A melhor forma que conheço de explicar os resultados dessa auto-submissão do perspectivismo às suas próprias premissas, procedimento que conduz à subsequente implosão da teoria, está num texto que tomo a liberdade de transcrever para aqui. Ei-lo:


«Uma vez um filósofo teve o seguinte sonho:


Primeiro apareceu Aristóteles, e o filósofo disse-lhe: “Podias fazer um resumo de quinze minutos de toda a tua filosofia?” Para surpresa do filósofo, Aristóteles fez uma excelente exposição em que sintetizou uma enorme quantidade de material em quinze minutos. Mas depois o filósofo levantou uma certa objecção a que Aristóteles não conseguiu responder. Confundido, Aristóteles desapareceu.


Depois apareceu Platão. Aconteceu a mesma coisa e o filósofo fez a Platão a mesma objecção que fizera a Aristóteles. Platão também não conseguiu responder-lhe e desapareceu.


Depois apareceram um por um todos os filósofos famosos da história e o nosso filósofo refutou todos eles com a mesma objecção.


Depois do último filósofo ter desaparecido, o nosso filósofo disse para si próprio: “Sei que estou a dormir e a sonhar tudo isto. Mas encontrei uma refutação universal para todos os sistemas filosóficos! Quando acordar amanhã provavelmente já não me vou lembrar de nada, e o mundo ficará sem saber uma coisa importante!” Fazendo um esforço tremendo, o filósofo forçou-se a acordar, precipitou-se para a sua secretária e escreveu a sua refutação universal. Depois saltou novamente para a cama com um suspiro de alívio.


Quando acordou na manhã seguinte, dirigiu-se à secretária para ver o que tinha escrito. E era: "Isso é o que tu dizes"»
(2).


O perspectivismo acaba de implodir. Paz à sua alma! Posto isto, vamos agora a algumas ideias finais.


Para que se perceba o que está “em cima da mesa” quando se fala de utilidade da filosofia, quero voltar a algumas tiradas que o meu colega Pedro Sargento lança nesta excelente Interrogação. Eis a primeira. Diz ele:


«(..) tentemos agora regressar (..) a uma qualquer conversa que tenhamos tido sobre um assunto indecifrável, por exemplo, saber se podemos provar a existência de um conhecimento objectivo sobre o mundo. Dois filósofos embrenham-se em argumentos, tentando escapar às subtilezas dos argumentos do adversário, e enquanto discutem, estão realmente convictos da verdade da sua posição, caso contrário não tentariam provar, por “a+b”, que existe mesmo (ou não) um qualquer conhecimento sobre o mundo real»


Como é óbvio, esta tirada do Pedro está carregada de cepticismo quanto à possibilidade de alguma vez se atingir a verdade sobre um qualquer assunto de carácter filosófico, mormente no que respeita ao conhecimento. Ora, por um lado, como vimos neste texto, não faz qualquer sentido alimentar um cepticismo deste género no que toca à possibilidade se atingir a verdade e o conhecimento, fazendo, paralelamente, um apelo à verdade daquilo que queremos propor. Dessa inglória tentativa de afirmar algo como verdadeiro que vai frontalmente contra a hipótese da verdade ser possível resulta, como vimos, uma contradição insustentável – incompatível com uma qualquer asserção sobre um qualquer estado de coisas no mundo. Se, por outro lado, o Pedro não reclama essa possibilidade, reclamando, no entanto, que não é possível decidir sobre essa possibilidade, cai no mesmíssimo erro (como vimos no referido texto). Se, por outro lado ainda, o Pedro deseja sustentar as teses da incomensurabilidade ou da relatividade de todas as afirmações, terá então que admitir que a sua própria afirmação será tão incomensurável ou “relativa” quanto outra qualquer, o que lhe confere uma dúbia pertinência. – O mesmo vale para todos os posicionamentos cépticos, relativistas ou perspectivistas que o Pedro deseje adoptar, excepto o do cepticismo metodológico e o de arbitrário palavroso. O primeiro é trivial num filósofo, logo, não lhe ligamos aqui. O segundo é estúpido, e sabemos o Pedro não o ser, nem o defender.


O Pedro continua o seu périplo pela Interrogação, dizendo:


«Se cremos que uma questão filosófica pode, de facto, ter um fim, então a utilidade da Filosofia é expressa no próprio acto de filosofar. Isto é, fazer filosofia é, na expressão de Ortega y Gasset, “estar a caminho”. Neste caso, estar a caminho da dissolução de si própria. Filosofia como autofagia»


Considero que isto é uma confusão clara entre acabar com os problemas e acabar com a filosofia. Como é evidente, é extremamente difícil solucionar todos os problemas filosóficos. E, como bem sabem a maioria dos filósofos, a solução de problemas filosóficos é por norma acompanhada com o aparecimento de novos problemas, correlacionados ou independentes. Não se vê, portanto, como é que do estar a caminho e da resolução de problemas se segue necessariamente a extinção da filosofia. Daí que também não se compreenda como a utilidade da filosofia possa consistir apenas num estar a caminho. Esta é uma visão excessivamente reductora e minimalista que não podemos aceitar de ânimo leve, mesmo vinda de um filósofo-historiador conceituado. (Esta é uma das belezas da filosofia: ao contrário de algumas outras àreas, a vassalagem de ideias não é uma condição necessária para o pensamento pertinente ou relevante).


Sugiro então que a primeira utilidade da filosofia é levantar questões pertinentes com relação a assuntos pertinentes. A segunda utilidade é (como bem me dizia um colega há tempos) procurar respostas para essas questões, i.e., procurar a verdade e o conhecimento com respeito aos assuntos e problemas colocados por essas questões. Estes problemas são - ao contrário da ideia errada de inutilidade que deles têm a maioria dos leigos em filosofia – problemas pertinentes e importantes. Eis alguns exemplos: O que é ser algo? O que é o Homem? Como devemos agir? O que é a verdade? O que é o conhecimento? Como nos devemos organizar social e politicamente? Como funciona (ou deve funcionar) a ciência? etc. Cada um destes problemas, e muitos outros que não coloco aqui, levanta um sem-número de novos problemas. A utilidade da filosofia está em perseguir as respostas para estes problemas. O filósofo deve fazê-lo usando da sua capacidade para interrogar (como bem faz o Pedro, diga-se), mas também usando a sua capacidade para resolver, com consistência e solidez. De nada vale lançar interrogações sem estas serem acompanhadas de um esforço aplicado de as responder. Cepticismo metodológico, sim, claro. Pirrónico, Indolente e indiferente? Não! Porquê? Por causa aquilo que dissemos nos outros artigos e anteriormente neste.


O Pedro continua:


«Em geral, um “filósofo” veste uma autoridade que lhe é reconhecida por um meio social, para falar sobre questões universais, inalcançáveis ao homem comum»


Isto está parcialmente certo, mas não se pode por isso retirar as conclusões que o Pedro quer retirar no seu artigo. Claro que, por exemplo, um médico também tem autoridade para falar dos problemas relativos à sua área de formação, embora a maioria dos leigos não o possam perceber (tecnicamente). Faz isso do médico alguém menos competente? Faz isso dele alguém que abusa da sua actividade? Não? Por que deveríamos então aceitar esse estigma do indecifrável do filósofo? Pelo amor de Deus! Isso não “pega”.


«Creio que a maioria das palestras filosóficas está minada pelo facto de uma autoridade que nos é reconhecida nos deslumbrar ao ponto de acreditarmos que construímos um caminho para a Verdade assim que, no pleno exercício daquilo que nos é reconhecido, e por isso legitimado, investimos o nosso labor intelectual numa questão filosófica, ou numa questão derivada de qualquer problema “clássico”. É, penso, muito por isto que o filósofo procura sempre justificar a utilidade da Filosofia – para justificar a sua própria autoridade e o seu próprio trabalho –. Da mesma forma, a noção de Filosofia enquanto busca pela (única) Verdade, padece de um mal derivado desta assumpção de autoridade por parte do filósofo: se dele se espera algo, esse algo deve ser verdadeiro, um acrescento ao caminho trilhado ao longo dos séculos por uma humanidade carente de respostas»


Há aqui por parte do Pedro a insinuação clara de que o trabalho de grupo dos filósofos sofre de três males, a saber, i) um complexo de superioridade por parte dos filósofos relativamente aos não filósofos, ii) a estanquicidade das suas investigações e descobertas e iii) o abuso de direitos epistémicos. Quanto a isto, sugiro que,


i) Não é aplicável a todos os indivíduos da classe. Avaliar assim a situação é cometer um erro categorial: tomar as propriedades do todo (o conjuntos dos filósofos e todos os centros de estudo) pelas propriedades das partes (alguns filósofos e alguns centros de estudo).


ii) É falso. Cada vez mais a filosofia está na “rua”. Cada vez mais está disponível para fácil acesso e compreensão do leigo.


iii) É falso. Não é o caso que os resultados (pelo menos na filosofia feita de forma séria) obtidos na criação ou discussão filosófica derivem da autoridade (social ou outra) conferida pela legitimação de classe. Os resultados filosóficos, alcançados por grupos de estudo filosófico sérios, não são fruto de interesses localizados ou utilidades exigidas - tal como indicaria uma teoria pragmática da verdade. Esses resultados são verdadeiros ou falsos em função da sua concordância com os factos e com a realidade, só descobertos ou aceites depois de árduo trabalho de investigação – assentes em teorias sólidas e conclusões plausíveis. E nada há de mau ou nefasto na auto verificação dos resultados, como quer fazer crer o Pedro. Não verificam os médicos os resultados dos seus pares? Não o fazem os Físicos? Porque diabo não o poderiam fazer os filósofos? Sugerir que o trabalho dos filósofos está viciado por causa disso é uma imprudência, pois teríamos que admitir também que os talhantes não sabem cortar carne ou que os enfermeiros não sabem fazer pensos. Além disso, mostrámos nos artigos anteriores que muito provavelmente a tese de que a verdade e o conhecimento são inatingíveis é falsa. Se assim for, e até agora não vi nenhuma afirmação demonstrando que não é (o que seria uma afirmação contraditória), podem descansar os que temiam pela utilidade da filosofia, a saber, procurar a verdade e o conhecimento no que concerne a tópicos bem definidos e louváveis.


Por tudo isto, e muito mais que não digo aqui, discordo do Pedro quanto à putativa falta de utilidade da filosofia. Temos fundamentalmente que distinguir entre a utilidade da filosofia e a (falta) de utilidade prática que querem colar à filosofia. É certo que a filosofia não dá couves lombardas nem computadores; mas e daí? Quer isso dizer que não tem utilidade? Não estaremos a confundir os resultados com a pertinência?

Luís Rodrigues

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Notas:


(1) Falamos, claro, do Externalismo epistemológico e da sua mais conhecida manifestação: o Fiabilismo.

(2) Raymond Smullyan, 5000 B.C. and Other Philosophical Fantasies, Tradução de Pedro Galvão, de (St. Martin's Press, 1983). Disponível na Crítica aqui