Cinefilosofia ® 2005 - 2006, todos os direitos reservados.
 
 

Do Desconsolo dos Filósofos

(Relativismos e produtos derivados)

2 ª parte

...por Luís Rodrigues - 27/1/2001

 
 

 

Julgo ter apresentado no texto anterior razões suficientes para refutarmos, ou pelo menos ignorarmos sem remorso, certos tipos de cepticismo. No texto que se segue analiso as propostas daquele que é talvez o mais perigoso e subversivo dos desconsolados a respeito da putativa falta de utilidade da filosofia:

iv) O relativista.

O relativismo apoia a tese 2 (ver texto anterior) na medida em que “sujeita” a verdade e o conhecimento a relações, posicionamentos e contextos, deixando-nos assim inseguros no que toca à sua possibilidade ou efectivação. Mas o relativismo tem muitas faces(1). Importa distingui-las.

a) O relativista temporal, ou da verdade e do conhecimento enquanto meras construções históricas.

Este partidário do relativismo afirma que tudo vai mudando ao longo do tempo, inclusive a verdade e o conhecimento. Diz que nada é temporalmente ou historicamente fixo, precisamente por o tempo e a história sujeitarem tudo a uma constante mutação, etc. Sendo assim, sugere-se que a verdade é uma coisa dúbia e que o conhecimento é, quanto muito, algo em constante criação e mutação.

Este relativista é por norma uma figura simpática. A maioria das suas propostas epistemológicas são trivialidades e não devem por isso ser levadas muito a sério. O seu principal erro - e ponto - está em supor que a mudança e reformulação do conhecimento ao longo dos tempos implicam a variação da verdade. Ora, isto é falso. A teoria geocêntrica de Ptolomeu, tal como formulada por Ptolomeu, sempre foi e sempre será falsa; embora, num certo sentido, possa ter-se constituído em tempos como uma espécie de “conhecimento” (muito arcaico, o possível). Todavia, do facto de ter sido aceite em tempos como verdadeira e, logo, como conhecimento (datado), não se segue que tivesse alguma vez sido verdadeira ou se tivesse realmente constituído como conhecimento. Pensar isto é uma tolice (incrivelmente aceite inclusive por alguns filósofos da ciência menos atentos). Resumindo, o que é aceite como conhecimento num dado momento não sendo a verdade, i.e., não correspondendo a crença justificada nos factos, não pode nem deve de todo ser visto como sendo a verdade. A verdade não é uma construção racional, científica ou outra, que vai variando ao longo dos tempos (como nos queria fazer crer o Bigodes alucinado). É verdade o que é o caso; é falso o que não é. Os habitualmente simpáticos mas inócuos relativistas desta espécie podem dar as voltas que quiserem aos seus argumentos, mas que é assim é um facto inescapável. Que Hitler mandou matar milhões de pessoas não é uma construção racional que agora aceitamos mas que daqui a cinco séculos rejeitaremos por nos surgir uma explicação melhor. Que Hitler fez isso é um facto - não pode deixar de ser a verdade, algo intemporal e não relativizável que compreendemos racionalmente e que somos forçados a aceitar se formos minimamente racionais (2).

Temos forçosamente de apresentar neste ponto uma conhecida distinção epistemológica, isto de maneira a evitarmos confusões desnecessárias. É a distinção entre Realismo e Anti-realismo (epistemológicos). O realismo afirma que, apesar de toda a evidência possível ou disponível, não nos é possível chegar à verdade - que, assim, transcende evidência. O anti-realismo afirma o contrário do realismo, acrescentando que a evidência disponível pode “esgotar” a verdade.

Agora, um relativista do tempo ou da história adopta quase sempre o realismo epistemológico; por conseguinte, adopta um cepticismo moderado com relação à verdade – diz que está “lá”, naquele “sítio” transcendente, mas que dificilmente a poderemos alcançar. Enquanto o seu cepticismo for moderado e meramente metodológico, este relativista não incorre nos erros habituais do céptico radical, podendo até sustentar a sua posição com alguma consistência. Mas assim que cai na tentação de afirmar que nada pode ser conhecido ou decidido por tudo estar em constante mutação, citando freneticamente (e refugiando-se) em dialécticas heraclitianas, hegelianas ou marxianas (3), podemos de imediato “abatê-lo” da mesma forma que abatemos o céptico radical. Se assim for, R.I.P ., porque, segundo a sua própria tese, o que ele acabou de dizer ou já não vale ou não pode ser decidido.

b) O relativista cultural.

Este indivíduo reserva-se o direito de “refugiar-se” nas diferenças culturais existentes no seio da comunidade humana. Pretende ele com isto defender a igualdade de pertinência e mérito de diferentes culturas, confundindo quase sempre igualdade de direitos com igualdade de méritos. Na sua perspectiva, vale tanto a “sabedoria astrológica” do aborígene australiano, assente na tradição e na crendice (indemonstrada racionalmente), quanto o conhecimento científico do astrofísico ocidental, assente na teorização e demonstração científica (outra comparação impossível é a da pseudo medicina tradicional do Prof. Karamba vs a de um médico da tradição ocidental de Hipócrates). No que respeita a este relativista, normalmente um ferrenho adepto das ciências sociais (antropólogo, sociólogo, ou filósofo convertido) não há nada a fazer senão deixá-lo perceber o seu erro de avaliação, a saber, que da igualdade de direitos de diferentes culturas não sai necessariamente a igualdade de pertinência, de mérito e de utilidade das mesmas.

Apesar deste nosso argumento ser sólido quanto baste, o típico relativista do espaço cultural reincide no erro, queixando-se que é impossível chegar à verdade simplesmente porque há muitas verdades, resultando todas dos diferentes meios culturais que as “produzem”, sendo assim impossível decidir qual a melhor – principalmente por não haver um critério universal a-culturado, por assim dizer, que permita a distinção e a decisão sobre a verdade. A isto podemos simplesmente responder que se não é possível decidir qual é a “melhor” verdade, ou mesmo a Verdade, também não é possível decidir se a dele é melhor que a do seu adversário (cultural ou não cultural); por exemplo, a nossa. Portanto, conclui-se que o relativista não está em condições de reclamar vitória, pois, segundo a sua própria teoria, a sua verdade vale tanto quanto a dos outros, e não há, novamente, segundo aquilo que defende, hipótese de verificar quem “possui” mais verdade. É neste ponto da discussão que ele pergunta de que nos serve esta pequena vitória (ou derrota, depende da perspectiva) se é o caso de tudo o que dizemos ser num certo sentido indecidível e indemonstrável devido ao que se aceitou previamente, a saber, que todas as verdades têm o mesmo valor ou não podem ser decididas umas em função das outras, principalmente por serem resultado de diferentes contextos culturais, não havendo maneira de escolher ou valorizar um em detrimento dos outros. Mas aí ele cai numa espécie de cepticismo radical! Obviamente, só temos de lhe pôr à disposição a mesma resposta que demos anteriormente ao céptico radical (ver aqui o outro artigo).

c) O contextualista

Nesta linha do relativista cultural apresenta-se também o contextualista. Segundo alguns, o contextualismo é uma forma atenuada de relativismo (4). Há variantes de contextualismo, sendo as mais conhecidas a linguística e a epistemológica. O contextualista quase escapa incólume aos nossos argumentos contra as outras formas de relativismo (tempo-histórico e cultural), pois o que diz é que o valor de verdade de proposições é determinado pelo contexto em que as proposições são asseridas, ou, do ponto de vista epistémico, em que se estabelecem enquanto crenças. Isto é extremamente difícil de combater. Mas talvez nem seja necessário combatê-lo de raiz. Experimente-se adaptar o argumento que usámos anteriormente contra os outros relativistas e cépticos e lançá-lo contra a posição do contextualista. Sugerimos então que se a verdade de uma proposição depende de um contexto, também a proposição “O contextualismo é verdadeiro” só é verdadeira dentro de um determinado contexto - porque se for em todos o contextualismo deixa então de fazer sentido enquanto teoria, pois nesse caso há proposições verdadeiras em todos os contextos, que formam assim um único contexto no qual ocorre a verdade independentemente da contextualização. Mas, se assim é, como pode então o contextualista reclamar vitória? QED.

d) O relativista da ciência

Há outras formas bem conhecidas de atacar a verdade e a possibilidade de conhecimento, nomeadamente o conhecimento científico. Os relativistas com respeito à racionalidade e à ciência tentam minar a confiança no seu valor intrínseco e instrumental. Uma dessas formas é atacar as capacidades da racionalidade humana, ou negar que o conhecimento pode assentar sobre bases seguras, i.e., negar que o conhecimento tem fundações seguras. Mas estes ataques parecem estar condenados ao fracasso enquanto dependerem, e vão depender sempre, de um núcleo forte de racionalidade e de conhecimentos (5). Quer dizer, não se pode usar a racionalidade para atacar a racionalidade sem admitir de antemão que a racionalidade “funciona” e que, assim, é possível um ataque racional à racionalidade.

Outra maneira de minar a confiança na verdade e no conhecimento é afirmar a imensurabilidade dos resultados científicos ou filósoficos devido ao facto de qualquer resultado ser alcançado a partir de, e no, “interior” de, um determinado paradigma científico ou filosófico. Não vou responder aqui a esta questão; mas, como é óbvio, os condicionalismos do funcionamento da ciência não são suficientes para deitar por terra tudo o que ela alcançou, teórica e pragmaticamente. Quase de certeza que o relativista da ciência que escreve agora uma crítica a este texto e que se coloca nessa crítica contra o valor per se da ciência já deixou de usar máquina de escrever e “bate” agora (freneticamente) as suas críticas num moderno computador portátil de última geração, resultado de um processo cientifico no qual dizem - muitos deles, hipocritamente - não acreditar.

e) O pragmático holista

Este é talvez o mais insidioso dos relativismos (6). O espécime que defende esta forma de relativismo acredita que ou a verdade é uma construção coerente e holística, situada e datada, ou que é algo que não ocorre na relação sujeito cognoscente/coisa conhecida, ou, ainda, que é algo determinado em função daquilo que mais convém ou melhor funciona, conforme ou em determinadas circunstâncias – pragmatismo no seu expoente máximo. Para alguns destes espécimes mais obscuros, a verdade até é algo que - miraculosamente! - se “desvela e aparece”, algo que brota das fontes e dos campanários, nos quais foi gentilmente depositada por poetas e trovadores que, sabiamente, aprenderam a “beber” o sentido da vida por inacção. Tolice! A verdade procura-se objectivamente: a Terra não gira em volta do Sol porque isso é um consenso útil para a maior das pessoas, ou permite uma qualquer vantagem de espécie num determinado contexto. A Terra, o planeta, gira de facto à volta do Sol, e vai continuar a girar mesmo que deixem de existir seres humanos para constatar esse facto. A teoria da verdade como correspondência, apesar de possuir bastantes problemas, ainda é a que nos parece melhor quando se trata de explicar o que é a Verdade.

Veja-se, num breve exemplo, uma das razões por que não faz sentido usar uma teoria pragmática da verdade. Suponha-se que Bin-laden e acólitos reúnem e concordam entre si que os EUA são um país imperialista e que o Bush é um ganancioso. Nesta situação, o que mais convém a este grupo é aceitar esta verdade como sendo a verdade - é a que melhor resulta no sentido de se motivarem e de se convencerem a imolar-se. Mas a sua “verdade” não pode ser a verdade, embora eles ainda tenham razões para sustentar essa “verdade” - pois é verdade que de facto Bush é ganancioso e os EUA um país imperialista. Portanto, o pragmatismo tem quanto à construção da verdade algumas falhas fatais. A principal, parece-me, é esta: no caso do pragmatismo a verdade está refém de inclinações, tendências, finalidades ou necessidades. Mas, parece-me, a Verdade não está (nem pode estar) refém dessas coisas, ou deixa de ser a verdade, tal como a concebemos, para passar a ser precisamente ou algo contruído, artificial, dependente. Portanto, não faz talvez grande sentido afirmar que a verdade é determinada apenas em função daquilo que convém ou do que resulta eficaz na prática (a definição mais tradicional do pragmatismo - de William James), embora haja talvez algum nexo nessa afirmação .

Algo de similar se passa com o holismo ou o coerentismo: a verdade que Hitler mandou matar milhões de pessoas não deriva da coerência interna de um conjunto de crenças que suportam essa crença. É que podiam perfeitamente só existir conjuntos coerentes de crenças que não suportassem essa crença, ou não existir nenhum que o fizesse, e, ainda assim, não poder deixar de ser o caso, i.e., verdade, que Hitler mandou matar milhões de pessoas.

Finalizo aqui este já longo intróito das várias posições assumidas pelos relativistas e das principais razões pelas quais devem ser declinadas (7). No último artigo veremos as razões que nos indicam que o perspectivismo também não é solução. Depois, se conseguirmos mostrar que não há razões para abandonar as ideias de Verdade e de Conhecimento, mostraremos por que é insensato duvidar da utilidade da filosofia enquanto forma de os alcançar.

Mas… vamos com calma. Ainda faltam uns passos importantes.

Luís Rodrigues

--------------------

Notas

1) Em conversa com o meu amigo e colega Diogo Santos, foi-me por ele sugerido que há diversas subdivisões de relativismo aplicadas a diversas áreas, em especial a Ética, a Moral e a Política. O que eu quero aqui definir não são as áreas específicas, a que respeitam certas proposições também específicas, que o relativista pretende relativizar ou cuja relatividade deseja discutir, aplicar ou afirmar. O que eu vou aqui discutir é a posição epistemológica das diversas formas de relativismo. Portanto, não vou discutir se um argumento contra o aborto é visto como verdadeiro ou plausível relativamente a um contexto mas visto como falso ou implausível noutro. Longe disso, o que vou discutir é a possibilidade do próprio relativismo ser uma teoria plausível ou, no mínimo, auto-sustentada e auto-sutentável. Sobre o extenso assunto do relativismo, consultar esta excelente página.

2) Cf , Dancy J, Epistemologia Contemporânea , ed 70, Lisboa, 1985, p. 33 ss.

3) Fica uma próxima ocasião os argumentos que nos levam a acreditar que a bivalência com respeito à verdade é preferível a outras soluções. De salientar apenas que, curiosamente ou talvez não, as argumentações que sustentam as “outras posições” fazem-no usando de permeio a própria bivalência para se sustentarem, o que não deixa de ser uma dependência daquilo que desejam anular ou contrariar.

4) Há quem defenda que é uma forma domesticada do relativismo. Ver T. Williamson, - Knowledge, Context, and the Agent´s Point of View

5) Sobre isto ver, Feyerabend, P, Adeus à Razão , Edições 70, Lisboa (cap. 1 e 12); e, Thomas Nagel, A Última Palavra , Gradiva, Lisboa, 1999.

6) Cujo representante por excelência é Richard Rorty. Ver, A Filosofia e o Espelho da Natureza , Princeton, 1979., onde o filósofo se apoia nos problemas derivados do Mito do Dado, (Sellars), numa concepção pragmatista da verdade e do conhecimento (James) e no atomismo semântico de Wittgenstein para construir uma pseudo refutação da filosofia cartesiana; que, como é sabido, tem um carácter internalista e fundacionalista. Se Rorty está certo, então a sua própria teoria é apenas mais uma cuja verdade “directa” não podemos garantir. Mas se é assim, porquê dar-lhe importância? Por ser plausível, talvez? Bom, mas para que algo seja plausível tem que haver algo que é o caso, a saber, aquilo que sustenta a afirmação de plausibilidade. Voltamos ao mesmo, não é? É melhor ele estar calado para não entrar em contradição.

7) Quem quiser desenvolver o assunto, pode ler este excelente artigo de Simon Blackburn.