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Donnie Darko: determinismo, fatalismo e livre-arbítrio (1ª parte), por Luís Rodrigues - 24/9/2005 |
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Donnie Darko é um caso de culto. É um daqueles filmes que ou se ama ou se odeia, não há hipótese de ficar indiferente. Importa pensar na razão por que é assim. O que é que o filme apresenta que mexe tanto com quem o vê? (e o compreende, claro). Como os problemas abordados pelo filme são muitos e bons, dividirei este artigo em duas partes, esperando com isso facilitar a digestão filosófica. Na primeira parte do artigo, esta, introduzo brevemente os traços gerais do filme e apresento um vislumbre do aparato conceptual necessário para perceber o que está em jogo. Na segunda parte lanço a minha interpretação do filme aos sábios das películas cinematográficas (quer dizer, aos leões), esperando sinceramente não ser comido por esses brilhantes críticos da 7ª arte, por certo muito mais perspicazes e espertos do que eu. O Filme Donnie Darko é um rapazola adolescente que vive numa pequena cidade dos EUA nos finais dos anos 80 do século passado (quando eu era jovem). Este rapaz sofre aparentemente de problemas psicológicos sérios, mas demonstra também possuir uma inteligência fora do comum. Além disso, esta estranha persona sofre terríveis crises de sonambulismo, durante as quais sonha acordado. Num desses sonhos-vigília aparece a Donnie um coelho gigante, o Frank, que fornece ao nosso herói a previsão exacta do tempo que falta para o mundo acabar: 28 dias, 6 horas, 42 minutos, 12 segundos. Estranho! Muito estranho. Depois desta estranha revelação de Frank, Donnie vive um conjunto de ocorrências enigmáticas e rocambolescas. Por acidente, ou talvez não, só se percebe no final, um motor de um 747 cai dos céus justamente em cima da casa de Donnie, arrasando por completo o seu quarto, um misto de violência aerodinâmica e de fenómeno do Entroncamento. Isto acontece precisamente numa noite em que uma crise de sonambulismo tinha conduzido o pobre rapaz para um relvado de um campo de golfe próximo de sua casa, onde aliás passou a noite a dormir, permitindo-lhe assim miraculosamente escapar à morte. Um pouco mais adiante na história, aquando de um transe inexplicável, Donnie inunda propositadamente o seu liceu por ordem de Frank, rompendo os canos da água à machadada e deixando a arma do crime cravada na cabeça da estátua-mascote da escola: o “Rafeiro” (The Mutt). Mais adiante ainda, Donnie expõe os vícios de um charlatão pedófilo que vende “banha-da-cobra” filosófica e psicológica. Este verdadeiro “prof.” Karamba mambo-jambo dos States , a quem Donnie incendeia a casa, num acto aparentemente tresloucado, vende o seu “saber” aos incautos e aos fracos de mente, “ensinando” que a vida é bipolarizada entre o amor e o medo (diz ele que ou escolhemos um ou outro, não havendo meio termo – ridículo, claro!). Apesar de toda esta confusão que impera na sua vida, Donnie tem ainda tempo para desenvolver uma daquelas paixões típicas da puberdade, e de travar conhecimento com uma misteriosa anciã que passa os seus dias a verificar se tem correio na caixa-de-correio (nunca tendo nenhum, claro). Mais tarde vem-se a perceber quem é essa mulher idosa e a razão da sua misteriosa obsessão. Por razões que serão óbvias adiante, deixo propositadamente o resto da história para o final do artigo (Parte II). Confissões Confesso que a primeira vez que vi o filme não consegui encontrar o seu verdadeiro significado, excepto, talvez, já bem depois de sair do cinema. Isto apresentou-se-me como um desafio; pois, digo-o sem modéstia, costumo por norma antecipar os finais dos filmes com grande precisão. A consciência da minha incapacidade em perceber o que me apresentavam motivou-me a encontrar respostas. Eis algumas que encontrei. Quero defender que a história de Donnie Darko é uma excelente história sobre determinismo, fatalismo, viagens no tempo, universos paralelos (mundos possíveis) e, principalmente, livre-arbítrio. Antes porém de começar a defender a minha ideia, tenho que fazer uma breve incursão no aparato conceptual que vou usar para expô-la. Vamos a isso! Introdução ao(s) problema(s) Todos nós, agentes racionais, conscientes do mundo e conscientes de nós próprios, nos preocupamos pelo menos uma vez na vida em tentar perceber se estamos sujeitos àquilo que vulgarmente se designa por Destino – o BIG-D !, que tudo comanda e que não deixa grande margem de manobra para sermos livres. A perspectiva do BIG-D coloca-nos perante esta fantástica questão, de difícil resposta, que é a de saber se o nosso futuro está predeterminado por alguma ordem cósmica, mecânica divina, lei(s) da natureza, sequência de causas, ou qualquer outra coisa que não seja uma nossa capacidade intrínseca de escolher livremente, de agir em função dessa liberdade de escolha, e de assim determinar (construir) o nosso próprio futuro. Vejamos então o que está em jogo quando nos questionamos sobre estas matérias. Há algumas definições a reter e outras tantas distinções a observar. Iniciemos essa tarefa. 1 – Determinismo, inevitabilidade e fatalismo Se não queremos avançar imprudentemente definições incorrectas sobre estas coisas, devemos escutar umas opiniões de peso. Simon Blackburn, proeminente filósofo (com aspecto de filósofo), diz que o determinismo é «A doutrina segundo a qual tudo o que acontece tem uma causa»(1) . E segue dizendo que «A explicação habitual desta ideia consiste em defender que, para qualquer acontecimento, existe um estado anterior que está relacionado com ele de tal maneira que esse estado anterior não poderia (sem violar uma lei da natureza) existir sem que existisse o acontecimento»(2) . Isto pode ser um pouco difícil de perceber para as pessoas sem formação em filosofia (e mesmo para essas, como eu, por exemplo), mas vai tornar-se mais claro à medida que avançarmos. Daniel Dennett, um conhecido filósofo, citando Peter V. Inwagen (Inwagen 1983), outro (menos conhecido) filósofo, diz que «O determinismo é a tese que afirma que “a cada instante só há um futuro fisicamente possível”»(3) . Já Elliot Sober, um especialista nestes assuntos, diz que «A ideia de que uma descrição completa dos factores causais garante o que acontecerá a seguir é a tese do determinismo»(4) . O leitor ficou confuso com estas definições? Bom… eu também. Vamos lá ver se conseguimos tirar algum sumo disto. Enquanto teoria, o determinismo parece apoiar-se nas ideias de Causalidade (determinismo causal) e de Inevitabilidade (determinismo radical). Um defensor do determinismo causal argumentaria, por exemplo, que o facto de eu estar agora a escrever este artigo se fica a dever a uma sequência de acontecimentos - causas directas ou indirectas - ocorridos no passado distante ou próximo, cujo resultado é o facto de eu estar aqui e agora a escrever este texto. Eis alguns exemplos de acontecimentos-causa que contribuíram para eu estar agora a escrever este texto: o facto de os meus pais me terem “dado” uma constituição genética específica, o facto de eu ter feito a licenciatura na Universidade de Lisboa, o facto de eu não ter ido às aulas de religião e moral no Secundário, o facto de eu ter lido o Freedom Evolves do Dennett, o facto de eu não ter nada melhor para fazer, etc. Um determinista causal diria, pois, que todos estes acontecimentos-causa estão de alguma forma ligados a mim e à minha vida - fazem parte do “caminho” que percorri enquanto ser vivente que sou. Este Determinista diria também que alguns ou mesmo todos esses acontecimentos (e muitos mais) estiveram na origem do meu acto de estar agora a escrever este artigo. Quem defende uma forma mais radical de determinismo, defende normalmente que o livre-arbítrio – a nossa liberdade de escolha - é pura ilusão. Para estes “radicais”, a sequência de acontecimentos-causa origina resultados inevitáveis : um conjunto de acontecimentos-causa inevitável só pode resultar num conjunto de acontecimentos-causa inevitável , até ao infinito. Veja-se, por exemplo, que quem defende o determinismo radical dos fenómenos físicos alega por norma que sabendo-se as leis da natureza (que se supõe serem estáveis e imutáveis) e o estado de partículas A, B e C, num momento t1 (ver figura) é possível saber-se antecipadamente e exactamente o estado e a disposição das mesmas partículas nos momentos seguintes t2 e t3. Os deterministas radicais alegam, portanto, que a natureza e os seus componentes se comportam de forma linear e determinada desde menos-infinito até mais-infinito, tudo graças ao facto das leis naturais serem estáveis e imutáveis e ao “sentido” imprimido pelo piparote de arranque (obra de algum deus ex-machina , certamente). Sendo assim, para o defensor do determinismo físico radical há uma dose de inevitabilidade agregada a todos os acontecimentos-causa que ocorrem na natureza.
“Instantâneo de Laplace”, Figura 2.3 em Freedom Evolves , Daniel Dennett
Então, dizem ainda alguns deterministas radicais, se é assim não existe liberdade na natureza. Não podemos agir em liberdade a cada momento simplesmente porque não há lugar para qualquer actividade (acção, movimento ou interacção) que não esteja “mecanicamente” determinada e predeterminada em função da disposição inicial da natureza e das suas leis. Segundo esta perspectiva do funcionamento da natureza, tudo o que nos acontece, e tudo o que queremos que aconteça , não é realmente resultado do nosso poder-de-escolha, mas sim resultado de um conjunto de condições e restrições (externas ou internas, físicas ou mentais) a que estamos sujeitos e de que não nos conseguimos livrar de maneira nenhuma. Alguns deterministas acrescentam que a ideia recorrente de que somos livres é fruto da intuição de que podemos agir sem estarmos sujeitos a restrições, mas que afinal isso não é o caso. Eles (e não só eles) negam a introspecção como método seguro de garantir que somos livres. Negam, portanto, que essa liberdade que “sentimos” ser resultado da nossa vontade seja real. Os defensores do determinismo radical sustentam que se a natureza tem de facto um funcionamento “determinista”, escolher e agir em liberdade é impossível. Se aceitarmos isto, escolhas e acções livres são apenas sonhos de robots conscientes (nós). Também o fatalista diz que não podemos agir em liberdade porque tudo o que ocorre está previsto desde a aurora dos tempos. Veja-se o exemplo do bom-cristão que acredita piamente que no fim-dos-tempos haverá inevitavelmente ressurreição para os justos e crentes em Deus. Ou veja-se um qualquer cidadão conformado com a vitória de Cavaco Silva nas presidenciais depois de serem conhecidos os resultados das eleições. Dirá certamente, «Cavaco tinha que ganhar. Era o destino. Estava escrito!». Há muitos exemplos deste tipo, deparamo-nos com eles todos os dias, principalmente nas afirmações derrotistas de pessoas insatisfeitas com o curso dos acontecimentos. O determinista radical sustenta algo um pouco diferente, mas similar em alguns pontos. Diz que tendo ocorrido no passado o conjunto dos acontecimentos-causa X, segue-se que o conjunto de acontecimentos Z, ligado e temporalmente posterior a X, é um resultado inevitável de X. Elliott Sober (que não é um determinista radical) afirma que «o fatalismo difere do determinismo» porque «o determinismo diz que o presente determina o futuro, e não que o futuro está gravado na pedra, sem ser afectado por aquilo que é verdade no presente» . Certo! Aceita-se a diferença de base das teorias. Mas o que parece óbvio é que ambas as teorias defendem que o que acontece no futuro é inevitável porque condicionado pelos acontecimentos-causa do passado, o que é uma perspectiva trivial, mas que implica um futuro “fechado” em função do que é temporalmente anterior. O determinista diz que se o Benfica jogar mal contra o Sporting (conjunto X) vai inevitavelmente perder o derby (conjunto Z). Os deterministas radicais deixam pouco ou nenhum espaço para o Benfica ganhar ao Sporting (conjunto Y) depois de ocorrer X. Para eles, por exemplo, a “sorte do jogo” (o acaso) ou a dúvida do árbitro (a indeterminação) no momento de assinalar um penalty são factores que contribuem pouco ou nada para o resultado final do jogo. Daí que aquando de uma partida de futebol os jogadores apenas “cumprem” uma sequência de acontecimentos que vão estar na origem de outra sequência de acontecimentos, que vão estar na origem de outra, e outra, e outra, e outra (5)… Onde está a liberdade dos jogadores? Onde está o “espaço” para a sorte, criatividade, espontaneidade e escolha ? O Nuno Gomes passou a bola ao Mantorras quando queria ter chutado à baliza? Ou chutou à baliza quando queria ter passado a bola ao Mantorras? Vá-se lá saber…Este é um problema muito complicado, e tem as seguintes ramificações: a) o que o Nuno fez, b) o que não podia deixar de fazer, c) o que queria fazer mas não fez, d) o que fez porque queira fazer. Qual destas hipóteses é a verdadeira? Podem coexistir, ou excluem-se entre si? Os deterministas moderados, ou libertistas desiludidos, como por exemplo Dennett e Sober, têm bons argumentos para defender a existência de livre-arbítrio num mundo de “funcionamento” determinista. Mas para já vamos dar uma vista de olhos na teoria contrária ao determinismo, o libertismo, e deixaremos as opções em aberto. Deixamos também por enquanto a “guerra” de Donnie Darko em banho-maria. Já lá voltaremos quando estivermos mais capazes de perceber melhor o que está em disputa. 2 - Indeterminismo e libertismo O libertismo é a teoria filosófica que se opõe às ideias que o futuro é “fechado”, fatalismo, e que a “determinação” dos fenómenos físicos implica inevitabilidade, o determinismo radical. Os defensores do libertismo alegam que há indeterminação quanto ao desenrolar dos acontecimentos, que liberdade é real e que o determinismo é muito provavelmente falso. Portanto, o libertismo e o indeterminismo andam por norma de mãos dadas (embora nem sempre)- (6) . A principal ideia do libertismo é que é possível escolher e agir em liberdade. Segundo esta teoria podemos “construir” construir livremente o futuro. Uma outra defesa do futuro-em-aberto apoia-se na ideia que o acaso e a incerteza têm um papel importante na construção dos acontecimentos. Os defensores do indeterminismo (filosófico) sustentam habitualmente a sua tese na incerteza e na indeterminação inerentes aos fenómenos quânticos (física quântica). Mas há quem argumente que não é fácil transpor a incerteza e a indeterminação constatada nos fenómenos microfísicos para os fenómenos macrofísicos (7) . 3 - Liberdade num mundo determinista Chegamos a um ponto crucial da discussão. É que há ainda quem defenda que é possível ser-se livre, num certo sentido de “livre”, num universo de funcionamento determinista. As pessoas que defendem esta possibilidade defendem a compatibilidade do determinismo com o livre-arbítrio, daí serem conhecidos por “compatibilistas” (não confundir com contabilista, quiçá um dos derivados da espécie humana mais sujeito ao determinismo). Podemos verificar pelo que se disse acima que os deterministas radicais e os libertistas são por norma “incompatibilistas”, isto porque defendem que o determinismo e a liberdade são incompatíveis por serem separadamente (?) exaustivos e mutuamente exclusivos. Ou seja, quem é incompatibilista defende que se uma das teorias, não importa agora qual, seja o determinismo ou o libertismo, é verdadeira a outra tem que ser falsa. Não podem pois ser ambas verdadeiras, embora possam ambas ser falsas. Pode contudo haver uma terceira opção que seja verdadeira, em que determinismo e liberdade sejam compatíveis, é o que defendem os compatibilistas. Veja-se agora um caso de famoso de compatibilismo. Daniel Dennett defende que o universo do qual somos parte tem de facto um “funcionamento” determinista(8) , mas que ainda assim podemos ser subjectivamente livres e intencionalmente livres. Há algo de contra-intuitivo nesta ideia, não é? Mas, vendo bem, até faz algum sentido. Apesar de estarmos física e mentalmente “regulados” pelas leis de um universo que funciona deterministicamente, ainda assim as leis desse universo permitem a evolução de seres (nós) que desenvolvem gradualmente um certo tipo de capacidade de escolher livremente dentro do panorama de opções determinadas disponíveis . Daí, segundo Dennett, a liberdade evoluir num mundo deterministicamente regulado: só nós, seres cuja selecção natural (uma lei da natureza) “moldou” o design de forma a desenvolver uma capacidade de escolha livre moralmente relevante (diferente, por exemplo, da escolha “livre” das aves voarem para onde lhes apetece), podemos agir com um certo grau de liberdade num mundo determinístico. O argumento de Dennett em defesa da compatibilidade entre determinismo e liberdade consciente e intencional não pode ser exposto aqui, pois envolve uma imensidão de premissas sobre determinismo, indeteminismo, acaso, “aleatoriadade”, incerteza, Design físico, Design genético, Design cultural, psicologia comportamental, funcionamento da mente e da consciência. Mas podemos reter a ideia de base: dispomos de livre-arbítrio porque fomos preparados pela natureza para desenvolver um cérebro que nos permite avaliar opções, antecipar resultados e agir em função das nossas expectativas e desejos. Esta é uma explicação naturalista da liberdade, e é a meu ver bastante plausível. Ela é também económica (parcimoniosa), i.e., não postula a existência de entidades como as almas ou espíritos enquanto sustentáculos imateriais do nosso poder-de-escolha. Para um naturalista da liberdade como Dennett podemos “encontrar” e explicar a liberdade partindo da análise dos fenómenos naturais que ocorrem num mundo de funcionamento determinista. Time-out Bem, agora vamos digerir estas ideias com calma; isto para, depois de realizarmos um exercício (livre ou talvez não) de reflexão sobre estes temas, podermos analisar convenientemente o que nos diz Donnie Darko . Na segunda parte vamos ainda falar de relatividade restrita, cones de luz de Minkowsky, paradoxo dos gémeos, pontes Einstein-rosen, mundos possíveis (à-lá Leibniz), teoria das catástrofes, teoria das cordas e outras maravilhosas esquisitices. «Que a Força esteja convosco… para serem livres, dominem-na! Um jedi sente a Força em si fluir, o poder de fazer coisas fantásticas ela lhe dá. Mas se controlado por ela ele é, sem dúvida no Darkside cairá». (Excerto de uma aula de ética de Mestre Yoda dada a jovens padawans, retirado dos registos do conselho de mestres e gentilmente cedido por George Lucas) --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Notas 1 Blackburn, S, Dicionário de Filosofia, Gradiva, Lisboa, 1997, p.108. 3 Dennet, D, A liberdade Evolui , Temas e Debates, Lisboa, 2005, p.39. 4 Sober, E, “Liberdade, determinismo e causalidade” in, Crítica, revista de filosofia e ensino: http://www.criticanarede.com/eti_livrearbitrio.html (o sublinhado é meu) 6 Atenção que o determinismo é “bom” do ponto de vista da ciência, da previsão e da antecipação: se se conhecer todos os acontecimentos-causa que estão na origem de um furacão ou de um maremoto, e se o funcionamento da natureza for realmente determinista, é possível saber, prever e antecipar os efeitos destes fenómenos. Mas ainda estamos longe de um grau de previsão seguro (ou absoluto) com base na informação disponível. Veja-se o recente exemplo dos furacões que assolaram os estados unidos: a Destruição causada pelo Katrina previa-se média e foi terrível; a provocada pelo Rita previa-se terrível e foi média. 7 Libertismo e indeterminismo são teorias diferentes, não confundir. É possível defender o indeterminismo sem defender o libertismo. Se, por exemplo, o curso dos acontecimentos fosse regulado pelo acaso, então não haveria liberdade de escolha. Dennett leva esta ideia ao extremo quando diz que todos os fenómenos físicos podem estar determinados a serem incertos ou resultado do acaso, o que é uma possibilidade que não deixaria lugar para a liberdade de agentes como nós, pois quaisquer opções que fizéssemos seriam condicionadas pelo acaso, e não resultado da nossa escolha intencional . 8 Dennet, D, A liberdade Evolui , Temas e Debates, Lisboa, 2005, p.112 ss
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