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Donnie Darko: determinismo, fatalismo e livre-arbítrio (2ª parte), por Luís Rodrigues - 6/9/2005
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« De onde vem esta diferença entre o passado e o futuro? Por que nos lembramos do passado mas não do futuro» Stephen Hawking, Breve História do Tempo . …Agora que a primeira parte da análise forneceu algum aparato conceptual, podemos tentar perceber o que está em jogo em Donnie Darko. Para levar esta tarefa a bom porto sugiro que adoptemos o seguinte método: Primeiro, situamos a principal mensagem do filme. Segundo, identificamos o tópico. Terceiro, vemos quais as principais questões filosóficas e científicas agregadas a esse tópico. Quarto, extraímos conclusões (1). Primeira tarefa (a principal mensagem de Donnie Darko) A história de Donnie Darko é uma parábola sobre o valor da liberdade e sobre a importância e a beleza de dispormos e usarmos dessa liberdade. Como já expliquei anteriormente, esta liberdade é algo que intuímos e que pensamos ter, mas que dificilmente conseguimos explicar. O final de Donnie Darko é, simultaneamente, um hino ao poder de escolha livre (dos seres humanos) e uma lição de ética sobre como esse poder-de-escolha consegue conduzir-nos a sacrificar aquilo que mais prezamos na vida – a nossa própria vida – para que outros possam viver.
O nosso livre arbítrio permite-nos alcançar a nobreza moral e a excelência ética (ou aproximarmo-nos delas), realçando o melhor que há em nós. Torna-se assim claro que visar esta nobreza e esta excelência é apenas possível quando usamos o nosso poder de escolha para cumprir objectivos que conseguimos minimamente justificar como racionalmente bons, o que é uma tarefa hercúlea que exige todas as fibras e componentes do nosso ser: compreensão, intuição, emoção, sentimento, entendimento, imaginação, pensamento, consciência, auto-consciência, racionalidade etc. O que nos faz humanos, e o que nos diferencia dos outros animais, não é apenas a nossa superior capacidade de reflectir – racionalmente - sobre o mundo, de o transformar à nossa medida, de usar linguagem, etc (2). Como muito bem Donnie Darko nos mostra, o que faz de nós seres humanos é o conjunto de todas as nossas capacidades e o conjunto de todas as nossas deficiências. O poder-de-escolha é em última instância um resultado, quiçá o mais importante, de todas as capacidades que fomos desenvolvendo ao longo de milhares de anos de evolução, de selecção natural e cultural. Ele, poder-de-escolha é talvez o mais fantástico e o mais perigoso de todos os nossos poderes, aquele que nos permite construir mundos ou arrasar continentes, amar Deus ou condenar à fogueira, criar Arte ou disseminar deliberadamente epidemias. O poder-de-escolha faz a diferença entre viver e morrer, amar e odiar, auxiliar ou espezinhar. Daí que este poder é o que implica mais responsabilidade: grandes poderes implicam grandes responsabilidades. Temos tentado, nem sempre bem, suportar o peso da responsabilidade que acompanha o nosso poder-de-escolha – a aprendizagem continua… Segunda tarefa (identificação do tópico filosófico) Ninguém no seu perfeito juízo dirá que não quer ser livre: socialmente livre, politicamente livre, economicamente livre, etc. Mas o que está em questão em Donnie Darko não é apenas a liberdade social, política ou económica. A Liberdade é um conceito que ultrapassa em muito os conceitos de não-restrição política, social, judicial, económica etc, não podendo ser considerada uma soma aritmética destas manifestações. O que Donnie Darko aborda não é um tipo específico de liberdade, mas sim o conceito de livre-arbitrio entendido na sua forma mais ampla, a saber, a liberdade de escolhermos e agirmos sem que a nossas escolhas e acções estejam completamente condicionadas por restrições impostas por um mundo de funcionamento determinista ou fatalista. Lembram-se do Big-D mencionado na primeira parte do artigo? O que está em jogo é saber se só há um caminho possível a percorrer e se esse caminho é uma inevitabilidade, ou se, pelo contrário, possuímos poder-de-escolha suficiente para construirmos o nosso próprio percurso rumo ao nosso futuro. Voltemos ao filme. Donnie sabe (porque Frank, o homem-coelho, lhe disse logo no início) que o mundo vai acabar(3) . O nosso herói é inteligente e percebe de imediato que algo de estranho se passa: não é normal dizerem-nos a data exacta em que o mundo vai acabar a não ser que deparemos com um profeta do juízo final ou um louco, não é? Donnie esforça-se para entender o que se passa, para saber o que são e como aparecem os estranhos fenómenos que experimenta, e para decidir o que deve fazer perante tão estranhas ocorrências. Durante todo o filme Donnie luta com um mundo manipulador e consigo mesmo. No final do filme Donnie faz uma escolha, a escolha da sua vida! Ele sabe que ao fazer essa escolha, e ao agir em conformidade com ela, vai morrer -- mas ainda assim decide morrer para que outros possam viver (a sua mãe, a sua irmã mais jovem, a sua namorada e Frank). Podemos então arriscar dizer que a escolha final de Donnie é consciente, intencional e moral, e que é o sacrifício moral (ético) por excelência: trocar a nossa própria vida pela vida de outrem (lembram-se do sacrifício de Cristo por todos nós? O tema do sacrifício é recorrente na tradição religiosa e filosófica ocidental, e não só). Adiante argumentarei que Donnie usou o seu livre-arbítrio para trocar a sua vida por tudo aquilo que mais amava no mundo, mostrando que é possível (pelo menos teoricamente) vencer o egoísmo, e contrariar um hipotético curso “fatalístico” do mundo. Mas podemos questionar -- pensa o leitor -- se a escolha de Donnie foi realmente livre. Não terá sido ela ditada por um conjunto de circunstâncias que obrigaram Donnie a agir como agiu e não a agir de outra maneira? Não terá sido essa escolha um resultado preestabelecido por algum deus ex machina? (deus no exterior da máquina, para quem não sabe – uma ideia de Descartes, e não só. Resumindo: a máquina é o universo e o deus é o tipo que controla as marionetas do lado de fora do universo -- e nós, seres viventes, somos as marionetas. Yerk! Que ideia desagradável!, não é?). Somos por norma muito levianos quando nos referimos à nossa liberdade. De uma forma ou de outra, damos a nossa liberdade como algo garantido, um dado adquirido, um facto inevitável e indesmentível. Veja-se agora um exemplo de como podemos estar enganados quando sentimos ou pensamos que somos livres. De cada vez que fumo um cigarro sinto e penso que sou livre para o fazer (por vezes até sou estúpido ao ponto de me gabar disso). Mas serei mesmo livre quando executo esse acto execrável? Será o meu acto um acto livre? Como é óbvio, não é! Não é, porque apesar de -- agora que estou em casa -- não estar condicionado por qualquer restrição de ordem social, política, económica ou outra que me impeça de fumar um cigarro, ainda assim estou condicionado a fazê-lo por razões de dependência física (da nicotina e outros venenos) e psicológica (manias, psicoses). Quer dizer, a minha liberdade é ilusória, pois fui condicionado pelo meu vício a agir em função do que ele determinou. Eu não quero realmente fumar um cigarro: sei que isso é prejudicial em muitos aspectos, mas não me consigo evitar. Sou livre nestas circunstâncias? Claro que não (tomem lá fumadores! É falso quando dizem que são livres para fumar). E o inverso também é verdade. Suponha-se que o meu vício me diz para fumar um cigarro, mas que não o faço. Fui livre nesta escolha que fiz? Bem, talvez não. Não fui, simplesmente porque fui condicionado a não fumar pelos avisos que vi sobre o cancro do pulmão, ou porque me lembrei da reprimenda que a minha filha me deu da última vez que fumei perto dela (encaixem esta, não-fumadores: não fumar também não é uma escolha livre). A liberdade total, um poder de escolha irrestrito, por assim dizer, é uma coisa muito difícil de alcançar, se não mesmo impossível. De uma forma ou outra as nossas escolhas parecem estar sempre condicionadas por factores externos ao nosso Eu (4). Agora, se é assim, não podemos de forma alguma ser livres? Já que as nossas escolhas não dependem inteira e exclusivamente de nós (do Eu puro e duro), pois são sempre condicionadas por factores “exteriores” a nós (ao Eu), dir-se-ia então que o nosso poder-de-escolha é uma miragem. Bem, isto parece correcto até certo ponto, ponto a partir do qual é claramente incorrecto. Se dissermos que somos completamente livres, i.e., que dispomos do poder ilimitado de decidir com base apenas num impulso ex nihilo (vindo do nada) do nosso Eu (tal como Deus parece poder fazer, é o que dizem), então estamos a dizer uma falsidade; pois, como vimos, estamos sempre condicionados nas nossas escolhas por algo que actua a partir do “exterior” do nosso Eu (seja lá o que for o Eu: os filósofos discordam bastante quanto à natureza do nosso Eu e mesmo se ele existe). Mas se, pelo contrário, afirmamos que por estarmos permanentemente condicionados por factores externos, não temos qualquer tipo de livre-arbítrio, é quase certo que também estamos a dizer uma falsidade. Estamos a dizer uma falsidade, claro, porque apesar dos condicionalismos a que estão sujeitas as nossas escolhas, impostos possivelmente por um mundo de funcionamento determinista, ainda assim é possível que algo só nosso determine a nossa escolha. O difícil para os filósofos tem sido definir o que é esse “algo só nosso” e a sua origem (5). Voltaremos a este assunto. Terceira tarefa, (as principais questões filosóficas e científicas agregadas ao tópico do determinismo, do fatalismo e do livre-arbítrio,) (Quem não gostar de pormenores técnicos, e não estiver disponível para tentar entender o processo histórico que conduziu à remota possibilidade de haver viagens no tempo, assumindo assim dogmaticamente a doutrina da sua possibilidade, pode perfeitamente saltar esta secção. Aos que têm espírito inquisitivo e não se importam de despender uns minutos da sua vida, aconselho a leitura e posterior investigação destes pormenores. Estes últimos ficam a saber do que falam, os primeiros ficarão apenas com certezas por demonstrar -- tal como o personagem charlatão em Donnie Darko). Voltamos ao pobre do Donnie. O Rapaz vai percebendo, durante os dias que faltam para “acabar” o mundo, que algo está errado com esse mundo (a realidade) em que vive. Graças a livro que lhe foi dado pelo prof. de ciências, A Filosofia das Viagens no Tempo , escrito há muitos anos pela misteriosa velhinha que passa a vida a verificar se tem correio (presumo que tenham visto o filme), e que lhe disse que «todas as criaturas vivas neste mundo morrem sós», Donnie percebe que tem o poder de passar entre universos tangentes e de alterar a realidade temporal. Mas…O que raio é isto? O que é que estou para aqui a dizer? Alguém compreendeu isto? … Não? Bem, então para que se compreenda o que isto quer dizer devemos separar o facto cientifico da ficção cientifica, o que nem sempre é fácil -- há muitos factos científicos que pela sua excentricidade e grau de abstracção mais parecem ficções e, conversamente, há muitas ficções científicas que pela sua genialidade e poder de antevisão provavelmente irão converter-se (se não são já) em realidade. Mas, vamos por partes. Temos que perceber um a um os conceitos científicos e filosóficos envolvidos no filme, são eles: a) universos tangentes e/ou mundos possíveis; b) viagens no tempo, cones de luz, teoria da relatividade restrita, espaço-tempo (a quatro dimensões), paradoxo dos gémeos e pontes de Einstein-rosen (wormholes); c) Entropia, desordem, caos e catástrofes, efeito borboleta (6); d) determinismo, fatalismo e livre-arbítrio. a) universos tangentes (paralelos) e mundos possíveis. Há duas formas de entender os universos tangentes: 1) como uma realidade, algo que existe realmente -- algo que é uma efectividade física (7) ; ou 2) como um aparato conceptual usado para descrever como as coisas poderiam ser, mas não são, ou poderiam ter sido, mas não foram, ou poderão vir a ser, mas nunca serão, i.e., como formas de considerar ou descrever possibilidades ou modalidades: lógicas, físicas ou metafísicas. (2) é um instrumento conceptual muito usado pelos filósofos contemporâneos para resolver problemas filosóficos e para argumentar a favor de algumas teses que exigem a avaliação de possibilidades e modalidades. Estas possibilidades e modalidades, os mundos possíveis, também assim chamadas, foram pelo que julgo saber “inventadas” por um filósofo do século XVII, Leibniz, que disse que Deus tinha feito (a partir do lado de fora do mundo, do universo, da máquina, claro, deus ex-machina ) o melhor dos mundos possíveis (8). Queria Leibniz com isto dizer que de entre infinitas formas (modos) possíveis do mundo ser, por via da infinita capacidade de criação e escolha de Deus, Deus escolheu a que da sua perspectiva omnisciente lhe pareceu a melhor e mais perfeita -- e esta é a configuração do mundo que conhecemos e em que vivemos, a saber, o melhor mundo possível idealizado por Deus. Depois disto muita tinta correu e ainda corre sobre o assunto, mas é melhor ficarmos por aqui para não complicar mais. (1) é, que eu saiba, e por enquanto, uma hipótese ou postulado científico que se sustenta em algumas teorias derivadas da física quântica -- e.g., teoria das cordas -- sustentadas por sua vez em teorias matemáticas de grande complexidade e alto grau de abstracção (quer dizer, dificilmente poderemos, se não formos o Donnie Darko, claro, encontrar uma boa justificação empírica para elas). A interpretação dos universos tangentes em Donnie Darko é claramente uma especulação baseada em alguns postulados científicos contemporâneos, caindo assim na nossa divisão (1), a saber, os universos tangentes (ou mundos possíveis) são uma efectividade física, e não apenas um conceito instrumental. Adiante! b) viagens no tempo, cones de luz, teoria da relatividade restrita, espaço-tempo a quatro dimensões, paradoxo dos gémeos e pontes de Einstein-rosen (wormholes). Para perceber a possibilidade das viagens no tempo, e extrair logicamente as suas consequências, temos que perceber sob que condições seriam possíveis viagens no tempo . Durante muito tempo foi para os físicos uma verdade indiscutível que o espaço e o tempo eram absolutos. Por exemplo, Newton (um tipo a quem provavelmente nunca caiu uma maçã na cabeça) aceitava esta hipótese porque o núcleo da sua teoria física do comportamento dos corpos (normalmente e erradamente conhecida apenas como “teoria da atracção gravítica”) necessitava desse postulado para “funcionar”, e porque a sua concepção metafísica de Deus exigia que a natureza do Todo-poderoso se identificasse com espaço e um tempo absolutos (9) . “Absoluto” toma aqui o sentido de imutável, invariável, omnipresente etc. Esta ideia de um espaço absoluto e um tempo rígido vinha já de Galileu et al, cujos sistemas teóricos de medição de distâncias, movimentos e velocidades pressupunham que o espaço e o tempo fossem fixos -- rígidos -- , variando apenas as velocidades e os ratio de aceleração dos objectos em movimento. No dealbar do século XX a perspectiva de um espaço e de um tempo absolutos desmoronou-se por completo. Algum tempo antes de surgir a Teoria da Relatividade (restrita) de Einstein em 1905 (Relatividade Geral apenas em 1916), fizeram-se experiências (Michelson and Morley) que derrubaram a ideia até então prevalecente de que a velocidade da luz é variável, provando-se nessas experiências que é constante e que quase atinge os 300 000 kms/s. A partir desse momento, como diz Stephen Hawking, «Todos os observadores deveriam medir a mesma velocidade da luz, independentemente da velocidade do seu movimento»(10) . Este novo dado científico foi aproveitado por Minkowsky e Einstein para elaborar duas novas teorias que mudaram radicalmente as concepções sobre um espaço absoluto e um tempo rígido “igual” para todos, independentemente posição, movimento e velocidade. A Teoria dos Cones de Luz de Minkowsky (ver figura 1), sustentada na geometria não-euclidiana, afirma basicamente que num dado momento T (imagine-se que se conseguia parar o tempo e observar esse momento a partir do exterior, como faz Deus só para se entreter), sendo a velocidade da luz constante, todos os acontecimentos do passado e do futuro de uma partícula estão incluídos respectivamente nos chamados cones de luz do passado e do futuro, que não são mais que “receptáculos” de uma possível movimentação da luz a partir da (futuro), ou até à (passado), partícula. O importante a reter é que dentro do cone de luz do futuro quem andar a uma velocidade igual (impossível, segundo Einstein) ou próxima da luz (junto ao eixo do tempo) despende menos tempo a chegar a um ponto do futuro do que alguém que ande a uma velocidade reduzida (junto às margens do cone. A teoria de Minkowsky é, julgo, omissa relativamente à possibilidade de viajar no tempo, mas fornece indicadores de que talvez não seja uma impossibilidade metafísica ou lógica – embora seja uma impossibilidade física, como veremos adiante).
Figura 1 (A partícula está na intersecção dos dois eixos. O passado e o futuro da partícula estão respectivamente a rosa e azul) Como o Einstein não era nenhum otário (o marido da otária, uma mulher natural de Ontário, Canadá), aproveitou a deixa de Minkowsky (ou o contrário, acho que Minkowsky é que aproveitou a deixa de Einstein, não estou certo disto) e, na sua Teoria da Relatividade Restrita de 1905, que assumia ser a velocidade da luz constante para todos os observadores, mostrou que quando mais rápido X se mover relativamente a um ponto Y mais o tempo se dilata e o espaço se contrai para X. Teoricamente, se o Francis Obikwelu (o nosso corredor maravilha dos 100 e 200 metros) conseguisse correr os cem-metros à velocidade da luz (se isso fosse possível, e pela Teoria da Relatividade Geral de Einstein de 1916 isso é impossível, devido ao aumento exponencial da massa-energia de um corpo em função da sua velocidade, o que torna cada vez mais difícil aumentar a velocidade à medida que ela aumenta – a massa-energia seria tanta que o coitado do Obikwelu nunca poderia chegar à meta de tão pesado que se tornaria) poderia, dizia eu, quase parar o tempo relativamente aos espectadores que se movessem a baixas velocidades ou estivessem mesmo parados nas bancadas a aplaudi-lo (este é o efeito câmara-lenta que Donnie experimenta quando começam a sair wormholes do seu peito, que faz com que o movimento lhe pareça mais lento que o normal, enquanto todas as outras pessoas experimentam os movimentos do tempo “normal”). Se isso fosse possível, e, repito, não parece ser à luz da física contemporânea, os habituais 10 segundos que demora a percorrer os cem-metros seriam para o nosso grande ”black-locomotiva-voadora” apenas 0, 0000001 (sei lá quantos) segundos: o tempo dilatava-se para ele e contraía-se para os espectadores, enquanto o espaço se contraía para ele e se dilatava para os espectadores. Segue-se que, se a teoria da relatividade restrita de Einstein estiver correcta, espaço e tempo não são iguais para todos, variando em função do movimento e da velocidade (e não o contrário, que era a ideia clássica). Esta distorção temporal que ocorre em função dos movimentos e das velocidades promove alguns paradoxos caricatos. Veja-se um desses casos o paradoxo dos gémeos, explicado por Paul Davies: «Os gémeos Ana e José decidem testar a teoria de Einstein. Assim, a Ana embarca numa nave espacial em 2002 e lança-se a 99% da velocidade da luz para uma estrela próxima situada a 10 anos-luz de distância. O José fica em casa. Ao alcançar o seu destino, a Ana dá a volta e regressa imediatamente a casa à mesma velocidade. O José verifica que a duração da viagem da Ana foi um pouco mais de vinte anos terrestres. Mas a Ana experimenta o tempo de forma diferente. Para ela, a viagem durou menos de três anos, de modo que, quando regressa à terra, constata que a data aqui é 2022 e que o José é dezassete anos mais velho do que ela. (…) a Ana foi transportada dezassete anos para o futuro do José. Com uma velocidade suficientemente alta, pode “saltar-se” para qualquer data no futuro»(11) . Bem, isto é viajar para o futuro, mas no fim do filme Donnie viaja para o passado. Será possível viajar para o passado? Como? Bem, teoricamente há duas hipóteses remotas disso ser possível. Primeiro, se conseguíssemos viajar muito mais rápido que a luz, o que, como vimos está “proibido” pela física contemporânea. Mas se fosse possível viajar muito mais rápido que a luz talvez fosse possível parar no tempo (tempo 0) ou mesmo recuar no tempo daqueles que estão imóveis ou se movem a baixas velocidades (atenção que o tempo para os que viajam à velocidade da luz é constante da sua perspectiva, só não é constante relativamente a terceiros que viajem a outras velocidades). Segundo, como pela teoria da relatividade geral (1916) a gravidade nada mais é que uma curvatura do espaço (ver figura 2 abaixo) em função da massa que se encontra num determinado lugar, quanta mais massa houver (?) mais o espaço se curva. Segue-se que se um determinado espaço se curva, então o tempo que demora a percorrer -- em linha recta -- a distância entre dois pontos separados por esse espaço “curvo” é menor que o tempo que demora a percorrer a distância estando esse mesmo espaço “esticado”. E se massa for infinita num local, então deixa de haver tempo para quem está nesse ponto. É basicamente isto.
Figura 2 (Curvatura do espaço originada pela massa do sol) Mas isto leva-nos para o tema das singularidades e das pontes einstein-rosen (wormholes). Admitamos um ponto do espaço onde de alguma forma existe um objecto com uma massa tão grande que o espaço que “contém” esse ponto é curvado até ao infinito (ver figura 3). Esse espaço contrai-se (afunila-se) até criar uma Singularidade, um Buraco-negro. Dizem os físicos que nesse estranho “objecto”, nessa singularidade, o espaço cessa de existir e o tempo pára. Se alguém pudesse estar numa singularidade veria passar a eternidade do universo, pois o tempo não tem aí qualquer expressão (dizem eles, mas eu não ponho as minhas mãos no fogo).
Figura 3 (representação gráfica de uma singularidade causada pelo colapso de uma estrela de neutrões) Admita-se agora, como fazem alguns físicos, que há um tipo de energia (ou matéria exótica), chamada energia negativa, que quando aplicada à singularidade (ao fundo do poço afunilado) consegue anular aos poucos os efeitos da contracção gravítica e assim desafunilar a singularidade no sentido simetricamente oposto – ou suponha-se que existe uma singularidade que por mero acaso está simetricamente oposta à primeira, encontrando-a (ver figura 4). Eis uma ponte que “rasga” o espaço-tempo "normal".
Figura 4 (representação gráfica de uma singularidade dupla) Uma ponte de einstein-rosen, um buraco-de-minhoca nada mais é que um atalho, um rasgão, no espaço e no tempo. Alguns físicos supõem que se fosse possível viajar através destes atalhos seria possível viajar muito rapidamente para locais muito distantes. Estes objectos são uma espécie de curto circuito espaço-temporal (ver figura 5), e, teoricamente, podem servir para viajar no tempo.
Figura 5 (Representação gráfica de uma ponte einstein-rosen. Repare-se que viajar no wormhole implica um caminho directo entre dois pontos, pontos esses que no espaço-tempo “normal” estão muito afastados entre si. Estas pontes são fissuras no espaço-tempo de quatro dimensões) A tempestade final de Donnie Darko, aquela do fim-do-mundo, nada mais é que a formação espontânea de vários wormholes (os redemoínhos no céu) que ligam diferentes pontos do espaço-tempo, ou que que ligam universos tangentes (paralelos). Estes buracos-de-minhoca apresentados no filme têm a peculiar característica de serem “controlados” por Donnie. Ele pode viajar neles sem ficar feito num esparguete de comprimento infinito, que é o que os físicos dizem acontecer a quem está perto de ou numa singularidade: a força gravítica numa singularidade é tão elevada que qualquer corpo seria esticado até todos os seus átomos ficarem perfeitamente alinhados numa linha recta de tamanho impensável. Ainda bem para o Donnie que consegue não ser afectado por estas ninharias. Seja como for, o nosso herói domina estes fantásticos atalhos. Ele é o único que consegue perceber a distorção do espaço-tempo e usá-la: quer queira quer não, ele é o escolhido pelos deuses do espaço-tempo. c) Entropia, desordem, caos e catástrofes, efeito borboleta Romper o espaço-tempo, passar entre universos tangentes e alterar o curso “normal” dos acontecimentos, não parece ser uma coisa fácil. O sistema de funcionamento físico da realidade parece proibir à partida efectuar quaisquer alterações no curso dos acontecimentos a partir do futuro. Se ficamos na dúvida acerca de construir o futuro a partir do presente, imagine-se agora a reviravolta que seria necessária para alterar o presente a partir do futuro. Mas Donnie parece ter esse poder. Aguns teóricos defendem essa possibilidade, argumentando que é possível evitar inconsistências lógicas que resultariam da intervenção no passado por alguuém que viesse do futuro. Mas mostrar que isso seria válido para todos os casos de interferência não é nada fácil. No livro que o Prof. de Ciências mostra a Donnie quando lhe explica o mecanismo que permitiria eventuais viagens no tempo, Stephen Hawking tem um capítulo que explica o significado das Setas do Tempo. Diz Hawking: «Há pelo menos três setas diferentes do tempo. Primeiro há a seta termodinâmica, o sentido do tempo em que a desordem ou a entropia aumenta. Depois há a seta psicológica, ou seja, o sentido em que sentimos que o tempo passa, em que nos lembramos do passado mas não do futuro. Finalmente há a seta cosmológica, que é o sentido do tempo em que o universo está a expandir-se em vez de contrair-se»(12). Para Hawking, as setas termodinâmica e cosmológica determinam a nossa forma de ver, sentir e pensar o tempo, i.e., determinam a seta psicológica. Imagine-se que filmamos uma chávena a partir-se e que depois projectamos o filme do fim para o principio. Nessa projecção invertida vemos a chávena reconstruir-se a partir dos seus próprios cacos até ter a figura que tinha antes de se partir. Ora, a segunda lei da termodinâmica parece proibir que se viva o curso dos acontecimentos no sentido que vai do futuro para o passado, isto porque no universo a desordem e o caos têm tendência para aumentar, na medida em é necessária menos energia para desordenar o que está ordenado do que para ordenar o que está desordenado. A entropia é um entrave à viagem que Donnie faz do futuro para o passado no final do filme. Tal como mostra o “livro” A filosofia das viagens no tempo da velhinha Roberta Sparrow (ver figura 6), há setas intimamente associadas a nós que definem o percurso normal do tempo que vivemos. Contrariar essas setas seria o mesmo que contrariar os efeitos das leis naturais. Será isso possível? É uma questão fascinante, mas não faço a menor ideia do que lhe responder.
Figura 6 (Representação gráfica das setas do tempo. As Setas também se conotam com pequenos wormholes que nos transportam gradual e normalmente para o futuro -- viver é uma forma de viajar no tempo) E é por aqui que entra a teoria do filme sobre uma possível corrupção do espaço-tempo quadrimensional (três dimensões espaciais, altura, largura e profundidade, mais uma quarta dimensão: o tempo). Quando se forma – sabe-se lá como -- um universo tangente ao universo “normal”, o curso dos acontecimentos no universo “normal” pode modificar-se radicalmente. Para perceber isto temos que recuperar o diálogo de Donnie com o seu prof. de ciências. Donnie sugere que podem surgir rupturas no espaço-tempo, rupturas essas que ele consegue perceber e, quiçá, dominar. Eis o diálogo. Prof -- Cada nave viaja através do espaço-tempo, ao longo do seu centro de gravidade. Donnie – Como uma lança? Como uma lança que sai do seu peito? Prof – Sim… e para que a nave viaje através do tempo tem que encontrar um portal, ou, neste caso, um buraco-de-minhoca. Donnie – Esses portais podem surgir em qualquer lado em qualquer altura? Prof. – Acho isso altamente improvável. Penso que estás a falar de um acto de Deus. Donnie – Mas se Deus controla o tempo, então todo o tempo está pré-definido. Prof. -- Não estou a seguir-te… Donnie – Cada ser vivo segue um caminho determinado. E se pudesse ver o seu futuro então podia antever o futuro, certo? Donnie quer saber se é possível contrariar o destino dado por Deus a cada ser vivo. Quer saber se é possível alterar o curso dos acontecimentos -- causa rompendo as cadeias de causalidade -- ver 1ª parte do artigo. Prof. – Está a contradizer-te, Donnie. Se pudéssemos ver os nossos destinos, se eles se manifestassem visualmente a nós, ser-nos-ia dada uma possibilidade de trair o destino escolhido. E o simples facto dessa escolha ser possível -- dessa possibilidade existir -- eliminaria a possibilidade dos caminhos pré-estabelecidos. O prof. chama atenção de Donnie para as incongruências lógicas e os paradoxos metafísicos e físicos que se gerariam se fosse possível viajar no tempo(13). Mas Donnie julga que é possível romper as fronteiras do espaço-tempo se percorrer a “Via de Deus”. Esta “Via” é uma metáfora que o filme usa para referir o poder de livre criação irrestrito de Deus. Por definição, Deus não está sujeito a qualquer restrição ou condicionamento. Deus pode escolher o que quiser. Para Donnie, quem percorre a via de Deus participa um pouco destas capacidades de Deus; e percorrer a via de Deus é ter o poder de alterar o curso dos acontecimentos-causa, é ter a possibilidade de realizar milagres, criar catástrofes, romper com o determinismo e o fatalismo e substitui-los pela liberdade e pela indeterminação. Esta teoria está presente no Filosofia das viagens no tempo : Chapter Six: The Living Receiver -- The Living Receiver is chosen to guide the Artifact into position for its journey back to the Primary Universe. No one knows how or why a Receiver will be chosen. The Living Receiver is often blessed with a Fourth Dimensional Powers. These include increased strength, telekinesis, mind control, and the ability to conjure fire and water. The Living Receiver is often tormented by terrifying dreams, visions and auditory hallucinations during his time within the Tangent Universe. Those surrounding the Living Receiver, known as the Manipulated, will fear him and try to destroy him. Resumindo, aqueles que são escolhidos (talvez por Deus) para passar entre universos têm poderes que lhes permitem contrariar as cadeias determinísticas causa-efeito. Esta ideia do filme singra graças aos conceitos de catástrofe, incerteza e indeterminação, que se opõem ao conceito de causalidade e efeito-borboleta. Como vimos na primeira parte, o determinismo apoia-se na ideia de que um conjunto de acontecimentos-causa do passado só pode resultar num determinado conjunto de acontecimentos-efeito do futuro. Por exemplo, se uma borboleta bater agora as asas na china, a deslocação de ar pode alterar decisivamente a densidade atmosfera e, graças a essa pequena alteração, ser uma causa activa de um furacão no oceano atlântico. Esse é o chamado efeito-borboleta, a saber, o aumento exponencial e determinado de possibilidades a partir de um único evento. Em oposição ao efeito borboleta está, por exemplo, a teoria das catástrofes de René Thom. Esta teoria matemática postula um certo grau de “indecidibilidade” e indeterminação quanto ao que vai acontecer:« A teoria estuda e classifica fenómenos caracterizados por mudanças bruscas de comportamento que derivam de pequenas mudanças nas circunstâncias»(14) . Se esta teoria estiver correcta, há talvez espaço para a indeterminação e a incerteza num mundo de funcionamento determinista. Vamos admitir que é possível, pelo menos teoricamente, que a realidade tenha alguns componentes que permitam a indeterminação e a incerteza, o que iria contrariar, pelo menos parcialmente, uma concepção fatalista e determinista do mundo. d) determinismo, fatalismo e livre-arbítrio (ver primeira parte do artigo aqui) Conclusão Donnie Darko é um filme que apela para o poder-de-escolha dos seres humanos permitido por um mundo que, é certo, funciona deterministicamente, mas onde ocorrem fenómenos extraordinários que contrariam o fatalismo – a ideia que o destino é fixo e não controlável pela nossa vontade. Donnie usa a sua liberdade e a sua capacidade de antecipar e prever, capacidades “fornecidas” por milénios de evolução determinística, para alterar um futuro que viveu mas que não se lhe afigurava o melhor (não era o melhor dos mundos possíveis aquele em que assassinava Frank, morria a sua namorada, a sua mãe e a sua irmã). Donnie rompe as fronteiras do espaço-tempo, retrocede no tempo (passa entre universos tangentes) e, no final, sacrifica-se com uma gargalhada de desprezo pelo destino. Ele escolheu aquele que, da sua perspectiva, era o melhor dos mundos possíveis, a saber, aquele onde deixava de existir para que outros pudessem existir. Donnie fez uma escolha intencional, moral e, até certo ponto livre; daí sua felicidade perante a morte que sabia certa. Como todas as escolhas que fazemos, temos que estar preparados para as consequências dos actos que delas derivam. Ele estava. E nós, estamos? --------------------------------------------- Notas (1) Antes de prosseguir esta tarefa importa esclarecer que uma conclusão deve ser preferencialmente verdadeira e sólida, i.e, deve seguir-se dedutiva ou indutivamente de premissas que devem também ser verdadeiras e sólidas. Só assim estaremos perante um argumento sólido . Um argumento sólido apresenta uma conclusão plausível. Ora, vamos tentar de seguida perceber se Donnie Darko apresenta de facto um argumento sólido. Um argumento sólido é um tipo de argumento muito mais exigente do que um argumento meramente válido . Um argumento pode ser válido e ter premissas falsas, por exemplo. Ora, um argumento que tem premissas falsas não é um bom argumento (sólido).
(2) O que sempre foi a ideia base do paradigma antropológico clássico grego, que via o homem como um ser superior ao animal devido ao facto ter um intelecto agente ( cf. Aristóteles, De anima ). (3) Claro que o mundo vai acabar, mas é o mundo – um mundo possível - em que Frank morre, não o mundo de Donnie. Adiante falaremos de mundos possíveis, do que são, e como são utilizados para contar a história. (4) Vide discussão na 1ª parte sobre determinismo e libertismo. (5) A discussão contemporânea, conduzida por filósofos e neurocientistas, anda à volta dos mecanismos cerebrais e da forma como contribuem, se é que contribuem, para “gerar” livre-arbítrio ( Vide Dennett, D, A liberdade Evolui ). A forma como nossa vontade funciona é também motivo de muita discussão e especulação. Para quem não sabe, o problema da vontade e da sua eventual autonomia foi (re)descoberto no século XVIII pelo filósofo Imanuel Kant. Desde as suas obras, densas e pesadotas para o leigo, diga-se, a Fundamentação da Metafísica dos Costumes e a Crítica da Razão Prática , que o assunto “autonomia da vontade (Ou autonomia e vontade e moralidade) nunca mais deixou de ser discutido nos círculos filosóficos, e não só. (6) Por sinal, outro bom filme que retrata o mesmo tipo de situação. (7) David Lewis, um filósofo do século XX, defendeu esta possibilidade. (9) Para Newton, Deus estava presente em todas as coisas, em todo espaço e em todo o tempo (eternidade). Para Leibniz, que disputou esta pretensão de Newton da “absolutidade” do espaço (que na sua opinião não era absoluto mas relativo), Deus está fora do espaço-tempo, daí ser um Deus ex machina – um Deus fora do espaço e do tempo. (10) Hawking, S, Breve História do Tempo , Gradiva, 1988 versão original p. 42. Este é o famoso livro que o professor de ciências de Donnie lhe mostra quando da sua visita para saber mais sobre viagens no tempo. Adiante teremos oportunidade de o referir novamente, mas atenção que o autor admitiu há pouco tempo que algumas das suas teorias apresentadas no livro estavam incorrectas. (11) Davies, P, Como construir uma máquina do tempo , Gradiva, p.25. (12) Hawking, S, Breve História do Tempo , Gradiva, 1988 versão original p. 195. http://en.wikipedia.org/wiki/Philosophy_of_space_and_time e http://plato.stanford.edu/entries/spacetime-holearg/ e (14) http://en.wikipedia.org/wiki/Catastrophe_theory
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