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| Guilhotinas da Mente, por Luís Rodrigues - 18/1/2006 | ||
The Final Cut, erradamente traduzido para português por A Última Memória (deveria ser A Última Edição), é o título de um filme que aborda o problema da falta de ética de um - por enquanto hipotético - acesso ao conteúdo mental de outrem, ou seja, à mente de terceiros. O argumento do filme é relativamente simples e coloca algumas questões pertinentes; que, todavia, algo inexplicavelmente, ficam por responder. Isto desilude o espectador, deixando-o, como eu, com a sensação de que o filme é bastante parco – curto em muitos aspectos, demasiados. Com efeito, excluindo a ideia inicial e central que preside ao argumento, que é bastante boa, diga-se, pouco “sumo” se retira do filme. Nem o excelente desempenho do fantástico Robin Williams, da sensual Mira Sorvino e do altivo Jim Cazaviel, em minha opinião excelentes actores, consegue suprir o vazio de ideias que se nota a partir do meio até ao fim (ao ponto de ter quase adormecido). Apesar disto, há um problema colocado pelo filme que importa realçar, principalmente por causa do seu teor claramente filosófico. É o problema do acesso directo ao conteúdo das mentes de outrem. Este problema é solucionado no filme de uma forma assaz criativa e interessante, fazendo com que o filme mereça a minha atenção e este artigo. Passo a explicar porquê. Suponha que o nosso poder tecnológico é já de tal magnitude que, antes ainda de o leitor nascer, lhe é implantado um chip no cérebro que vai gravar todos os acontecimentos da sua vida futura (o chip é inamovível assim que implantado). Esta “gravação” contém todo o conteúdo mental que vai desenvolvendo e adquirindo ao longo da sua vida, em particular o “filme” construído pela sua capacidade visual a partir da (sua) perspectiva da primeira pessoa, e respectiva “banda sonora”. Para sermos exactos, não é todo o conteúdo mental que fica assim disponível; pois emoções, sentimentos, intenções, etc., são estados mentais que não ficam registados na “gravação”. A bem dizer, só fica impresso nesse “filme-gravação” a perspectiva visual e auditiva criada a partir da primeira pessoa, a sua; i.e., aquilo que você vê e ouve com os seus olhos e ouvidos (e cérebro) durante a toda sua vida, sem excepção ou interrupção. (Arrepiante, não é?) Mas de que serve esta gravação? Suponha que você morre, supostamente velhinho(a) e feliz, depois de uma vida bem vivida, honrosa e honesta. Suponha também que depois da sua morte, e a pedido da sua família, um especialista retira a gravação de dentro do chip (que assim teria também que ser um dispositivo de enorme capacidade de armazenamento de dados, problema não abordado pelo filme) e, usando as suas capacidades de edição , selecciona os melhores momentos da sua vida que compila em mais ou menos duas horas de “filme”, “película” essa que é apresentada publicamente numa cerimónia fúnebre em sua honra, eufemisticamente designada por “ re-memória ”. (Parece coisa de loucos, não é? Mas tem alguma pertinência e não deve estar assim tão distante. Vejam-se as pessoas que nos nossos dias têm pachorra para ir às agências funerárias tratar pessoalmente dos pormenores da sua morte como se se tratasse dos preparativos para casamentos ou baptizados. A morte é cada vez menos um acontecimento macabro e religioso e cada vez mais um momento da vida - o final, é certo - e, logo, um negócio para o qual já há muitos e bons produtos disponíveis, tal como se se tratasse de turismo rural ou de uma ida à neve). Chegámos ao ponto que nos interessava chegar, é o seguinte: O especialista que edita a “película” da mente do leitor para re-memória futura nada mais é que uma emulação de vulgaríssimo editor de som e imagem cinematográfico da nossa realidade. Este expert de edição de conteúdo mental tem como instrumento de trabalho um poderoso computador, humoristicamente alcunhado (acho eu) de “A Guilhotina”.
Nos seus três ecrãs vai desfilando, com direito a cronómetro da vida, todos os momentos e acontecimentos da vida de uma pessoa vista da sua própria perspectiva. O editor só tem que aceder a esse conteúdo mental e seleccionar aquilo que lhe interessa. E é isto que interessa também a nós, a saber, que o editor acede à totalidade do conteúdo mental da pessoa cuja vida contratou contar de forma abreviada na re-memória . Neste ponto da análise importa distinguir e relembrar novamente os problemas em questão; são eles: a) o problema da possibilidade de acesso ao conteúdo da mente de outros; b) o problema do uso desse conteúdo, ou de partes dele. O que nos ocupa aqui é (a). (b) é um problema fascinante - aquele que o filme quer tratar mas não consegue -, que, todavia, por razões de espaço e pertinência, será analisado noutro lugar (1) . (a) é um velho problema filosófico. É bem capaz de ter se ter constituído como problema a partir de Descartes e respectiva filosofia. A ideia que a mente é um local de acesso privilegiado – e, talvez, isolado – é devida à noção cartesiana de que a certeza no que respeita àquilo que podemos conhecer só surge primeiramente numa introspecção do eu pensante sobre si mesmo (2). Esta perspectiva foi muitas vezes acusada de ser “fechada”, i.e., de “fechar” a mente sobre si própria, cortando-lhe assim o “contacto” com as coisas fora dela, a si exteriores. E é aqui que entra o problema das mentes dos outros. Se bem que o leitor tenha acesso privilegiado, directo e imediato, à sua mente; ou seja, só o leitor pode aceder directa e imediatamente ao conteúdo da sua mente, o leitor não poderá nunca ter esse tipo de acesso relativamente às mentes de outros (pelo menos a julgar pelo que diz a formulação clássica do problema). Ao que se passa nessas outras mentes que não a sua, o leitor só poderá ter quanto muito um acesso mediato e indirecto, não podendo nunca aceder ao conteúdo dessas outras mentes a partir da posição privilegiada da primeira pessoa (3). Para colocar o problema de forma clara, transcrevo o que diz Thomas Nagel, um conhecido filósofo contemporâneo especialista neste problema. Diz ele muito a propósito: «Que sabes realmente sobre aquilo que se passa na mente de qualquer outra pessoa? É claro que só observas os corpos das outras criaturas, incluindo os das pessoas. Observas aquilo que fazem, escutas aquilo que dizem e os outros sons que produzem, vês como respondem ao ambiente que as rodeia – quais as coisas que as atraem e quais as que lhes repugnam, aquilo que comem, e assim sucessivamente. Também podes abrir outras criaturas, observar o interior dos seus corpos e comparar mesmo a sua anatomia com a tua. Mas nada disto te dará um acesso directo às suas experiências, pensamentos e sentimentos. As únicas experiências que podes realmente ter são as tuas próprias: se acreditas em alguma coisa acerca da vida mental de outras pessoas, só o fazes com base na observação da sua constituição física e dos seus comportamentos. Tomemos um exemplo simples: quando comes gelado de chocolate com um amigo, como sabes que o teu gelado e o do teu amigo têm o mesmo sabor para ele e para ti? Podes provar o gelado dele, mas o facto de ter o mesmo sabor que o teu apenas quer dizer que para ti o sabor é o mesmo: não tiveste nenhuma experiência do sabor que o gelado tem para ele. Parece que não há qualquer maneira de comparar directamente as experiências gustativas de ambos. Bem, podes dizer que, uma vez que se trata de dois humanos e que ambos podem distinguir diferentes sabores de gelados – por exemplo, ambos podem distinguir de olhos fechados o sabor do chocolate do sabor de baunilha –, é provável que as experiências gustativas de ambos sejam semelhantes. Mas como podes sabê-lo? A única conexão que alguma vez observaste entre uma qualidade de gelado e um sabor foi no teu próprio caso; portanto, que razão tens para pensares que noutros seres humanos se verificam correlações similares? Não será igualmente consistente com todos os dados disponíveis que o chocolate lhe sabe como a baunilha a ti, e vice-versa? A mesma questão pode ser colocada quanto a outros tipos de experiências. Como sabes que o teu amigo não vê as coisas vermelhas tal como tu vês as amarelas? É claro que se lhe perguntares qual é a cor de uma boca-de-incêndio, te responderá que é vermelha, como o sangue, e não amarela como um dente-de-leão, mas isso acontece porque ele, tal como tu, usa a palavra vermelho para a cor que vê nas bocas-de-incêndio e no sangue, seja qual for essa cor. Talvez seja a cor a que tu chamas amarela, ou aquela a que chamas azul, até mesmo uma cor que nunca viste e que nem sequer podes imaginar. Para o negares tens de apelar ao pressuposto de que as experiências de sabor e de cor estão uniformemente correlacionadas com certos estímulos físicos dos órgãos dos sentidos, independentemente da pessoa que recebe tais estímulos. Mas o céptico diria que não possuis quaisquer dados que apoiem este pressuposto e que, devido ao tipo de pressuposto em causa, não poderias de modo algum ter quaisquer dados a seu favor. A única coisa que podes observar é a correlação que ocorre no teu próprio caso. Face a este argumento, poderás começar por conceder que neste caso existe um grau de incerteza. A correlação entre os estímulos e a experiência poderá não ser exactamente a mesma em todas as pessoas: poderá haver, para duas pessoas diferentes, ligeiras distinções entre as experiências de cor ou sabor de uma mesma qualidade de gelado. Na realidade, uma vez que as pessoas são fisicamente diferentes umas das outras, este facto não seria surpreendente. Mas talvez possas dizer que a diferença entre as experiências não poderá ser muito radical, porque senão já nos teríamos apercebido disso. Por exemplo, o gelado de chocolate não pode ter para o teu amigo o mesmo sabor que um limão tem para ti, pois faria caretas sempre que comesse um gelado de chocolate. Repara, no entanto, que esta tese pressupõe outra correlação que varia de pessoa para pessoa: uma correlação entre a experiência interna e um certo tipo de reacções observáveis. Mas a mesma questão se levanta neste caso. Já observaste a conexão de fazer caretas e o sabor a que, no teu caso, chamas amargo. Mas como sabes que essa conexão existe nas outras pessoas? Provavelmente, aquilo que leva o teu amigo a fazer caretas é uma experiência semelhante àquela que tens quando comes cereais ao pequeno-almoço. Se continuares a fazer este tipo de perguntas persistentemente, passaremos de um cepticismo moderado e inofensivo acerca de saber se o gelado de chocolate sabe exactamente ao mesmo a ti e ao teu amigo para um cepticismo muito mais radical acerca de saber se existe alguma semelhança entre as tuas experiências e as do teu amigo. Como sabes que ele tem exactamente uma experiência do tipo a que tu chamas sabor quando põe qualquer coisa na boca? Tanto quanto sabes, a experiência dele pode ser aquilo a que tu chamarias um som – ou talvez seja diferente de tudo o que alguma vez experimentaste ou de tudo o que possas imaginar. Se continuarmos a seguir este caminho, seremos finalmente conduzidos ao mais radical dos cepticismos acerca das outras mentes. Como sabes que o teu amigo é consciente? Como sabes que há outras mentes para além da tua? » (4) A solução apresentada em The Final Cut não soluciona definitivamente o problema aqui abordado por Nagel, pois as experiências registadas pelo chip-zoe (assim chamado) não abrangem nem sensações, nem emoções, nem sentimentos, nem intenções, i.e., não abrangem o acesso a outros tipos de estados mentais que não seja o (estar) a ver e o (estar) a ouvir. Mas se tal chip fosse uma realidade, poderíamos ter acesso privilegiado, (temporalmente posterior, é certo, embora talvez também pudesse existir em simultâneo) a grande parte do conteúdo mental de uma outra pessoa. Se assim fosse, quase que poderíamos mandar o texto de Nagel para prateleira e esperar que apodrecesse por falta de uso, pois grande parte do problema do acesso directo estaria resolvido e, consequentemente, o céptico habitual teria que se “submeter” às evidências (pelo menos às suas). Mas isso está longe de acontecer (5) . Eis uma das razões por que importa continuar a investigação científica e filosófica sobre a natureza e condição da Mente. A passividade neste e noutros estudos só pode talvez ajudar os cépticos, os demónios (cartesianos) ou os futuros vendedores de edição dos conteúdos mentais alheios – já para não falar dos vendedores das “guilhotinas” que permitam efectuar essas edições. Parece que já estou a ver o anúncio na TV digi-holográfica: “Compre uma guilhotina Sony, garantia total de fiabilidade e precisão quanto precisa de aceder e editar o seu conteúdo mental ou o de outros. -- ou, ainda melhor: Its a Sony! Mind cut and edition is our job. 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(ou lá perto) 3) -- Este problema é extremado por alguns cépticos que afirmam não ser possível aceder com certeza ao que quer que seja que pertença ao mundo exterior à mente. É daqui que nasce a também velha acusação de solipsismo, objecção colocada àqueles que defendem o estatuto epistémico dessas mentes que garantem a sua própria existência mas têm imensa dificuldade em estender essa prova àquilo que lhes é exterior - o isolamento cognitivo face ao mundo é uma forma maior, ou a forma principal, ou mesmo a única forma, de solipsismo. 4) -- Nagel,T, What does it all mean?, Gradiva, Lisboa, 1987, pp.22-28. Diponivel em: http://metafisica.no.sapo.pt/nagel.html 5) -- Há um famoso argumento, devido a J.S. Mill, que defende a existência das outras mentes e que têm um conteúdo mental similar ao da nossa. Este argumento é conhecido como Argumento da Analogia. Não posso colocá-lo aqui por questões de espaço. Há quem o encontre forte e quem ache que é fraco. Há inúmeras objecções e contra-objecções. Quem desejar desenvolver o assunto, pode ver aqui o seu teor e desenvolvimento. |