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Final Fantasy é em minha opinião uma das melhores produções de sempre dentro do seu género. Apesar de não ter tido grande sucesso comercial, e de vir na sequência de um jogo de PC, o filme é interessante porque consegue aliar ficção científica à mitologia grega. O pacote vem “embrulhado” numa filmografia divinal, em que os personagens gerados por computador, os efeitos visuais e a banda sonora formam um conjunto convincente e cativante. E para dar “credibilidade” à história, junta-se às personagens virtuais as vozes de excelentes actores, todos cuidadosamente escolhidos para representar na perfeição os estereótipos representados.
Mas tudo isto é talvez secundário face ao cunho da história contada. Esta assenta numa personagem central em quase todos os mitos da criação gregos (e não só), mitos esses que chegaram até aos nossos dias através das obras de Hesíodo, Homero, Ovídio, entre outros. Essa personagem mitológica é Gaia, deusa-mãe, fundadora de toda a vida, muitas vezes identificada com a fertilidade, a criação, a natureza e a terra (quer o composto material quer o planeta). A Gaia retratada no filme é contudo uma versão mais elaborada da que surge na maioria dos mitos gregos: é uma versão impregnada de platonismo.
Platão defendeu no Fedón (por razões pouco ou nada religiosas) que as almas são incorruptíveis, migrando de corpo em corpo aquando da corrupção dos corpos, ie., da morte física. A ideia foi aproveitada desde então para especular sobre a imortalidade da alma, uma noção que ainda nos é bastante familiar nos nossos dias. O que importa reter é que Final Fantasy explora estas ideias até ao limite: de um lado temos Gaia, criadora de tudo o que existe e receptáculo de todas as almas; de outro temos almas imortais (espíritos) que insuflam vida nos corpos. Quando essas almas abandonam os corpos, eles morrem; mas a alma, a essência, essa continua a existir – ou passando para um novo corpo ou fundindo-se numa grande amálgama que é Gaia.
Isto é muito apelativo para a maioria das pessoas: a ideia que algo de nós continuará a existir depois da morte física tem movido a fé de bilhões de seres humanos ao longo dos séculos, conferindo-lhes muitas vezes a esperança de que necessitam para enfrentar de forma tenaz uma existência difícil e cruel. Mas a imortalidade da alma é algo muito difícil de provar. É algo tão ou mais difícil que provar a existência de Gaia ou do Deus cristão, ou de qualquer outra divindade. Daí que a Fé tenha sido fiel companheira de todos aqueles que desejam ardentemente que a sua alma sobreviva depois da morte. E dai que a religião seja fundamentalmente uma questão de Fé racional, e não de crença e prova racional (e daí também que variadas seitas religiosas se tenham aproveitado e continuem aproveitar-se desse desejo para ganhar poder e prosperar em conformidade).
Apesar do guião de Final Fantasy “cooperar” com este sistema de crenças milenar, e até alimentá-lo, coisa que não sei se será muito saudável, tem também o mérito de ser uma história de Ficção Cientifica. Nela vemos retratada uma Gaia extraterrestre, o que é um conceito caricato, mas não completamente tolo. A ideia é que os habitantes de um determinado planeta distante do nosso conseguiram autodestruir-se. No processo de estúpida autodestruição, destruíram o seu próprio planeta; projectando, no interior de um fragmento do planeta, a sua “Gaia” para o espaço sideral. Essa “Gaia”, contendo todas as almas pertencentes aos corpos mortos dos habitantes do referido planeta, acaba por chocar com a terra. A partir daí os Fantasmas de “Gaia” (as almas, uma espécie peculiar de energia) aterrorizam os habitantes da terra, conseguindo pelo simples “contacto” roubar-lhes as suas próprias almas. Segue-se o descalabro e a guerra. Mas tudo o que os Fantasmas querem é, literalmente, paz de alma! Querem descansar, querem o descanso eterno. Isso só lhes poderá ser concedido num hábil cruzar de energias pertencentes às Gaia terrestre e extraterrestre. E assim se desenrola o filme, nessa tentativa de cruzar as energias e repor o equilíbrio entre um mundo “morto” e um mundo “vivo”.
Queria acabar fazendo referência ao nome do filme. Em grego antigo, “Phamtasia”(Fantasia) tem vários significados: imaginação, fenómeno, aparição, fantasma etc. Daí que eu encontre o nome bem escolhido: no filme temos imaginação, fantasmas, almas, fenómenos do “outro mundo” e coisas afins. E o subtítulo, The Spirits Within, acompanha perfeitamente a ideia platónica, a saber, que somos mais do que os nossos corpos sensíveis e corruptiveis, e que “dentro” deles está algo imortal, perene ou eterno: a nossa essência.
Muitos dos filósofos naturalistas contemporâneos não aceitam esta ideia. Cabe àqueles que a defendem encontrar os argumentos e as provas para demonstrar que é verdadeira. O ónus da prova é demasiado pesado para mim. Concedo-vos o privilégio, na esperança que consigam demonstrar a minha imortalidade.
Luís Rodrigues |
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