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  Um Adeus Relativista, por Diogo Santos - 9/9/2005  
 

 

Goodbye Lenin! , de Wolfgang Becker, escrito por Bernd Lichtenberg/Wolfgang Becker

Goodbye Lenin! Transporta-nos a uma altura de mudança súbita: a unificação da Alemanha e a queda do mundo soviético – final de 1989/1990.

Christiane ( Katrin Sass ) entra em coma antes da queda do Muro de Berlim. Acorda do coma oito meses depois, num mundo capitalista, totalmente modificado – cultural, social, económica e politicamente. O seu filho, Alex ( Daniel Bruhl ), assume uma medida drástica, a fim de salvaguardar o bem-estar e a saúde da mãe: fazer com que ela não se aperceba das mudanças extremas que ocorreram na sua ausência; fazer tudo ao seu alcance para criar um mundo credível no qual a Alemanha do Leste e o Muro de Berlim estejam ainda intactos.

É exactamente a criação (1) deste mundo artificial, no meio de outro mundo, que irá pautar a nossa reflexão acerca do Relativismo e acerca do próprio filme.

O mundo artificial é praticamente a contradição do mundo real . Como tal, por princípio, não haverá pontes possíveis entre um lugar histórico e o outro. A primeira tarefa a levar a cabo, a fim de cumprir tamanha empresa – estamos a falar da criação de um mundo, não é empreendimento de su-menos, portanto, – é o encerramento das fronteiras do novo universo velho, que se pretende criar, em relação ao universo exterior e autêntico. A figura da mãe de Alex será o arquétipo do indivíduo encerrado para as mudanças e para a sociedade onde estas operam. Na verdade, apesar de acordada do coma, o seu estado é ainda de comatose profunda; nunca acorda de facto. Aliás, o seu coma é originado por um acontecimento que perturba as fundações do seu mundo privado: descobre o filho numa manifestação contra o governo da RDA. É já um indício da impossibilidade de conviver noutro mundo, que não aquele a que pertence, ou julga pertencer.

Christiane vive ao sabor dos artífices pontualmente criados pelo seu filho e colaborantes, de modo a mantê-la segura, fechada na sua privacidade. Esta segurança tem uma componente antropológica relevante. Se o homem é um animal de hábitos, a habituação a transformações radicais poucas vezes será fácil e ausente de resistências. Trata-se da adaptação a um novo universo: com um novo norte, com novos sistemas. É um mundo inteiro que se dissipa violentamente. É exactamente dessa violência que Alex quer proteger a sua mãe.

Mesmo as supostas janelas que se abrem – como a interacção entre a Christiane e os seus antigos amigos e camaradas, ou as cartas que redige a uma entidade estatal imaginária – são meticulosamente direccionadas para situações compatíveis com o mundo artificial no qual habita.

No entanto, esse mundo atinge um ponto de rotura iminente com o mundo real , uma vez que o mundo criado por Alex é constantemente invadido por acontecimentos reais, aparentemente inexplicáveis de acordo com os parâmetros que o próprio utiliza. A tensão é permanente ao longo do filme – e o ritmo do mesmo é pautado por ela. O que torna a tensão possível e o que obriga a um mundo privado no interior de outro, desta feita, público é a incompatibilidade entre os dois mundos e a impossibilidade de comunicação entre ambos, que daí resulta. O Muro de Berlim não é somente físico. Inconscientemente, creio, as preocupações de Alex são tipicamente relativistas. A sua empresa é uma experimentação científica .

De modo a que a tensão se mantenha e, por conseguinte, de forma a evitar a rotura, exige-se a adopção de outra estratégia: a reinterpretação do mundo real (2) , mediante as características e os princípios próprios do mundo artificial , desaparecido. A recente estratégia é mais eficaz, porque permite uma convivência muito particular entre os dois universos. Não estamos, porém, perante qualquer estratégia convergente ou comunicativa entre os dois mundos. É antes um alargamento do mundo artificial para o lugar habitualmente ocupado pela realidade. Para todos os efeitos, o mundo real mantém-se vedado a Christiane . Novamente, só é possível vedá-lo completamente porque há uma contradição na relação entre ambos os mundos. Caso pontos em comum houvesse, haveria pontes de comunicação entre os dois planos históricos. A nova estratégia chega ao ponto de perverter a verdade de um plano, de forma a transformar-se noutra verdade, admissível, segundo os parâmetros do plano oposto. Tudo difere de acordo com o contexto (3) onde se interpretam os acontecimentos – e os acontecimentos são o mesmo num contexto e noutro, apesar de adquirirem significados diversos consoante a sua contextualização. O âmago do relativismo.

Como explicar que Christiane não faça a transposição de um mundo para o outro tal e qual o resto da sociedade alemã? Explica-se, não pela sua debilidade física, que é apenas circunstancial, mas por ter-se ausentado no momento de transição . É isso que a distingue do resto dos alemães. Significará que a transição entre um mundo e outro é possível e, por conseguinte, é possível a comunicação entre ambos os contextos? Anuência significa denegação do relativismo em Goodbye Lenin! . A questão, como tal, obriga a prudência suplementar na resposta. A Alemanha de Leste cai violentamente, pela mais diversas causas, mas quaisquer que sejam movidas por indivíduos. Não é, portanto, uma transição pacífica. Os princípios nos quais a RDA assentava são abalados e destruídos completamente e substituídos por novos princípios, gerando um novo contexto. Os indivíduos do velho mundo operam de acordo com os velhos princípios. Quando tudo isso desaba, os indivíduos renascem, adaptados aos novos princípios e ao novo mundo. Nunca, em momento algum, é possível a abertura de vias comunicativas entre os dois planos. Para haver novidade completa, o que a precede tem de perecer. O Relativismo trata da incompatibilidade entre contextos. É essa incompatibilidade que determina as suas fronteiras. Mesmo que Christiane compreendesse, no final, as mudanças que ocorreram (4) , nunca o faria mediante os parâmetros artificiais, com que estava habituada a conviver. Também nela ocorre a queda do Muro. A sua morte – última cena – pode ser simbolicamente entendida como o adeus a Lenine , um adeus relativista .

Diogo Santos

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Notas

(1) Não é criação no sentido amplo do termo, visto não haver originalidade inerente à empresa.

(2) Ou melhor, a reinterpretação dos acontecimentos que aí ocorrem.

(3) Mundo.

(4) O que não sucede, apesar de haver pormenores no filme que possam indiciar o contrário.