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Impostor,

por Luís Rodrigues

21/4/2006

 

 
 

 

Tive recentemente uma discussão com alguém que disputava a utilidade da Filosofia e, como não podia deixar de ser, de algumas das suas áreas preferenciais de intervenção e investigação. Essa pessoa insinuava a inutilidade de algumas questões clássicas que a filosofia elege como preferenciais enquanto disciplina e área privilegiada de desenvolvimento do conhecimento. Prosseguia essa pessoa a sua argumentação dando como exemplo do que afirmava a futilidade de uma conhecida questão da província da Metafísica: A Questão dos Indiscerníveis. A propósito do tópico, pretendo cumprir dois objectivos neste artigo: Primeiro, explicar muito resumidamente, usando para tal o filme Impostor (2002), baseado numa short story,homónima, de Philip K. Dick, o que está em jogo quando se estuda esta questão; e, segundo, mostrar por que razão é ela ainda importante nos nossos dias – contribuindo assim para manter a Filosofia uma actividade viva e de boa saúde, contrariamente à opinião de alguns.

Começo pelo filme. Num futuro não muito distante, 2079, a Humanidade está em guerra com uma espécie extraterrestre que tem como principais objectivos conquistar o nosso planeta e destruir a nossa espécie. A guerra com os Centauros, assim se chamam os agressores, é diária e violenta. Muitas cidades terrestres foram destruídas e milhões seres humanos sucumbiram perante a força do invasor alienígena. Os que sobreviveram a este holocausto e continuam a tentar resistir ao agressor vivem em cidades fechadas por campos de força protectores que impedem a entrada dos extraterrestres. É neste cenário que Spencer Olham (o sempre eficaz Gary Sinise), um extraordinário físico nuclear, vive e desenvolve armas para auxiliar a luta contra os invasores. Todavia, Spencer é surpreendentemente detido por agentes dos serviços secretos que o acusam de ser uma réplica perfeita do verdadeiro Spencer, um clone molécula a molécula, memória a memória – um impostor! O objectivo deste espião-réplica infiltrado pelos Centauros seria, segundo os agentes, tomar o lugar de Spencer Olham e aproveitar a sua posição social para chegar perto da Chanceler da Terra e a assassinar, fazendo-se explodir (uma bomba dissimulada no próprio coração do impostor!) aquando de uma troca de cumprimentos agendada entre o cientista e a governante.

Vamos então agora à Questão dos Indiscerníveis. Visto da perspectiva dos agentes, Spencer não é Spencer, pois eles sabem (ou pelo menos têm boas razões para pensar) que o verdadeiro Spencer foi assassinado pela sua réplica e tomou o seu lugar. Da perspectiva dos agentes, a própria réplica não tem consciência que é uma réplica, o que a torna ainda mais eficaz e perigosa. Já da sua própria perspectiva, Spencer acredita sinceramente que é Spencer, pois nada lhe indica que não o é: nada na sua memória ou consciência lhe indica o contrário.

O espectador fica assim na dúvida. Será que Spencer é Spencer? Ou será que não é? Será que estamos perante o original? Ou será que estamos perante uma réplica do original? Como decidir se estamos perante duas coisas, mas indiscerníveis, ou uma única, idêntica a si própria? O problema é bicudo…

G. Leibniz parece ter pensado afincadamente neste problema da identidade. A ele se deve uma conhecida Lei da identidade. Os filósofos tendem a considerar duas vertentes possíveis desta lei: (1) a Indiscirnibilidade de Idênticos e (2) A Identidade de Indiscerníveis. Não sendo pacífico, dá-se ultimamente primazia a (1) quando se trata de encontrar um critério para a identidade estrita (para saber quando uma coisa é ela própria). A ideia é que se duas coisas têm exactamente as mesmas propriedades1 , elas não são duas mas apenas uma.

Dada esta definição (que não deve, julgo, ser tomada como apodíctica ou definitiva), possuímos já talvez um esboço de um critério que nos ajude a decidir o problema que nos ocupa. O problema era, recordo, o de como saber se Spencer é Spencer e não uma sua réplica perfeita.

Bem, primeiro devemos ter em atenção que não poderíamos saber isto a priori, ou seja, sem possuir dados sobre os factos que envolvem Spencer ou a sua eventual réplica. Para o efeito de descobrir isso, teríamos que investigar – empiricamente – a condição de Spencer Olham, tal como fizeram os agentes que o detiveram. (Agora a parte mais complicada). Cumprida esta investigação de campo, empírica, como vimos, poderíamos aplicar o Principio da Indiscirnibilidade de Idênticos para descobrir se Spencer é Spencer ou se Spencer é uma sua réplica. Para tal vamos “inverter” o que diz o Principio, i.e, vamos assumir que se duas coisas não têm exactamente as mesmas propriedades então não são mesma coisa (esta é uma frase que faria talvez Ludwig Wittgenstein corar de indignação). Portanto, estamos aparentemente na posse de um critério que nos permite distinguir entre Spencer e uma sua eventual réplica, a haver tal réplica.

Posto isto, é relativamente fácil: se Spencer tiver uma propriedade que seja a mais ou a menos que uma sua eventual réplica, e conversamente, então poderemos fazer a distinção. E o facto é que, tal como vimos a perceber no final do filme, a réplica de Spencer tem propriedades que o próprio Spencer não tem. As mais salientes são as propriedades de “ter uma bomba no coração” ou a de “ter assassinado Spencer Olham” (sabe-se também no final do filme que a réplica matou o original antes de tomar o seu lugar).

Eis, pois, o que nos permite distinguir discerníveis2 : o facto de terem diferentes propriedades3 . O facto da réplica de Spencer só perceber isso no final do filme, convencido que estava de ter todas as propriedades que faziam Spencer ser Spencer, inclusive a propriedade de “amar a mulher de Spencer”, também ela uma réplica do original, causou na réplica um sentimento de incredibilidade momentâneo, imediatamente anterior à explosão por si despoletada (um mecanismo de autodestruição dos Centauros) que a destruiu.

Conforme prometido no início, importa oferecer uma palavra sobre a utilidade prática do estudo destas questões. Alguns reclamam que são questões estéreis, típicas de uma forma contemporânea de escolástica. Isto parece-me pouco plausível. É que nem é necessário considerar a passibilidade de cenários de ficção científica pouco prováveis, mas não impossíveis, como o retratado pelo conto de P.K. Dick, para constatarmos as vantagens de encontramos um critério seguro de individuação e da sua aplicabilidade. Se, por exemplo, num futuro próximo, clonarem um dos pessimistas de que falávamos, iremos questionar se estamos perante a mesma pessoa jurídica, por exemplo, ou se será legitimo conceder-lhe os mesmos direitos – ou se poderia, suponha-se, herdar a fortuna deixada pelo seu original aquando da sua morte natural. Estas são questões mais do que nunca actuais e pertinentes. Pensar filosoficamente sobre elas só pode contribuir para melhorar a condição humana e preparar-nos para as dificuldades que nos esperam.

É por isto e por muito mais que renegar o papel fundamental da Filosofia no seio da comunidade humana e dos seus destinos parece, aos olhos dos mais avisados, uma tolice.

Luís Rodrigues

Notas

1) Quem quiser desenvolver este assunto, pode fazê-lo aqui.
2) Para os especialistas: a definição parece ser impredicativa, mas não quero complicar o texto com essa complicação adicional.
3) Parece talvez que chegámos a uma trivialidade, mas não é bem assim: antes tínhamos suposições, agora conclusões – conclusões sujeitas a revisão, talvez, mas ainda assim conclusões. De salientar também que o problema é muito mais complexo e interessante do que foi aqui exposto.