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Questiono-me seriamente acerca da utilidade da Filosofia. Penso que, se porventura já estabeleci para mim mesmo uma resposta, ela não está ainda em condições de ser expressa. Muito daquilo que achamos verdadeiro, assumindo com essa crença uma posição, não é mais do que uma espécie de auto-convencimento de uma mentira para que possamos justificar algo sobre nós próprios. Por exemplo, convencermo-nos da utilidade de um longo debate filosófico sobre a natureza do conhecimento, ou sobre a existência de Deus e as suas propriedades. Normalmente, justificamos o tempo e o latim gasto nestas diatribes com uma asserção do tipo ético-moral: “ Ah, mas ao discutirmos estamos a conhecer-nos melhor… ”, “ Ao debater estamos a caminhar juntos em relação à verdade…e isso só pode ser positivo. ”
Isto pode parecer uma espécie de retorno ao mais básico senso comum. Tenho esperança que assim não seja, afinal, porque também anseio justificar-me. Não chamaria inútil a esse lado claramente aporético da Filosofia, porque a noção de utilidade (1) pode estar consagrada ao subjectivismo e ao egoísmo, e eu posso usufruir de uma conversa, desfrutando daquilo que nela me entretém – e, assim sendo, uma boa dose de divagações lógico-paradoxais ser-me-iam úteis –.
Mas tentemos agora, num exercício de imaginação, regressar a uma qualquer conversa que tenhamos tido sobre um assunto indecifrável, por exemplo, saber se podemos provar a existência de um conhecimento objectivo sobre o mundo. Dois filósofos embrenham-se em argumentos, tentando escapar às subtilezas dos argumentos do adversário, e enquanto discutem, estão realmente convictos da verdade da sua posição, caso contrário não tentariam provar, por “a+b”, que existe mesmo (ou não) um qualquer conhecimento sobre o mundo real. E isto não tem de ser necessariamente uma conversa “presencial”. A maior parte dos escritos filosóficos sobre temas que, desde o início da suposta “história da Filosofia”, permanecem insolúveis, crêem possuir os elementos que resolverão a questão. Se cremos que a uma questão filosófica pode, de facto, ter um fim, então a utilidade da Filosofia é expressa no próprio acto de filosofar. Isto é, fazer filosofia é, na expressão de Ortega y Gasset, “estar a caminho”. Neste caso, estar a caminho da dissolução de si própria. Filosofia como autofagia. A atitude de muitos filósofos, repito, parece ser esta mesmo. Em geral, um “filósofo” veste uma autoridade que lhe é reconhecida por um meio social, para falar sobre questões universais, inalcançáveis ao homem comum. Creio que a maioria das palestras filosóficas está minada pelo facto de uma autoridade que nos é reconhecida nos deslumbrar ao ponto de acreditarmos que construímos um caminho para a Verdade assim que, no pleno exercício daquilo que nos é reconhecido, e por isso legitimado, investimos o nosso labor intelectual numa questão filosófica, ou numa questão derivada de qualquer problema “clássico”. É, penso, muito por isto que o filósofo procura sempre justificar a utilidade da Filosofia – para justificar a sua própria autoridade e o seu próprio trabalho –. Da mesma forma, a noção de Filosofia enquanto busca pela (única) Verdade, padece de um mal derivado desta assumpção de autoridade por parte do filósofo: se dele se espera algo, esse algo deve ser verdadeiro, um acrescento ao caminho trilhado ao longo dos séculos por uma humanidade carente de respostas. O que despoleta uma prosa deste tipo, é, precisamente, o embaraço de não se saber responder à pergunta: “Mas afinal, o que é a Filosofia?”, a mim dirigida bastas vezes por familiares e amigos de outras “paragens existenciais”. Nunca tive a atitude de, indo directamente contra algumas concepções acerca da identidade da Filosofia existentes, afirmar uma delas, ou seja, aquela em que acredito. Respondo normalmente que a resposta a essa pergunta é já de si um complexo problema filosófico, não ignorando que estou a cometer uma grave redundância. Não tendo resposta para isso, sinto que a própria Filosofia é demasiado complexa para ser fechada…em amplexos! Do que a Filosofia trata não é assunto para tratados, se o seu alvo está na verdade das coisas.
Por agora gostava de ficar por aqui, mas espero poder em breve avançar, interrogar e aludir (aqueduzir , também) a Filosofia. Para já deixo-a assim, em cacos, no chão da sua magnitude impossível.
Pedro Sargento -------------------- Notas
(1) Não confundir com a noção “escolar” de utilidade derivada do Utilitarismo inaugurado por J.S.Mill, que não é de modo nenhum egoísta, e pretende não ser subjectivo.
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