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  Ladrões de Bicicletas (Vitório de Sica), por Pedro Sargento - 4/11/2005  
 

Este clássico de Vittorio de Sica (1949) está aí para ensinar-nos que nem sempre “Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”. Por vezes o Homem não pode fazer nascer Obra, porque os elementos do Mundo jogam contra a sua Vontade. Nem tudo depende só de nós. Especialmente, há momentos em que não temos controlo sobre as coisas mais importantes, e os acontecimentos flúem na direcção exactamente oposta àquela que gostaríamos que fluíssem.

Numa Roma destruída pela guerra, as famílias lutam pela sobrevivência. Quando surgem oportunidades de trabalho, os homens amontoam-se e fazem tudo para conseguir o posto que garantirá ao menos comida sobre a mesa. Qualquer coisa serve. A Antonio, o protagonista, é garantido um lugar como colador de cartazes, se ao menos ele preencher um único requisito: ter uma bicicleta. O filme segue então um argumento tão simples quanto o utensílio de trabalho de António: no primeiro dia, a bicicleta é roubada, e o resto do tempo é passado a tentar recuperá-la.

Dotado de inteligência, força, uma vontade por vezes capaz de fazer ultrapassar-se a si mesmo (capacidade indispensável se se quiser, de facto, ver a Obra nascer), o facto é que quando o Mundo, ou a combinação de todos os eventos que se vão sucedendo, não produz a possibilidade de nos libertarmos dos nossos problemas, então não temos outra solução senão resignarmos perante a nossa fraqueza. De resto, a capacidade de o Homem superar-se a si mesmo e às adversidades não seriam louvadas se não houvesse a intuição de que defronte ao Absoluto podemos, em geral, pouco. Por exemplo, o mérito de “vencer a morte”, criando algo que nos projectará para além dos limites do nosso corpo mortal, não é mais do que, ao mesmo tempo, uma consolação e uma constatação da nossa finitude, da nossa precariedade. E esta precariedade envolve seja o “corpo” seja a “mente” (estes duas outrora separadas substâncias, cada vez mais se identificam uma com a outra), naquele no que respeita, por exemplo, à impossibilidade de ultrapassar certos limites físicos, e nesta no que respeita, por exemplo, à debilidade do nosso conhecimento.

Ladrões de Bicicletas é a metáfora do Homem des-sacralizado, separado de um imaginário religioso em que ele e Deus se olham com confiança, certos que estão da reconfortante presença um-em-face-do-outro. Mas Antonio é um homem que sabe que tem de ser ele a agir, e, mais importante, sabe que a teia que envolve cada acção sua é da sua inteira responsabilidade. O filho que o acompanha fielmente, mas que tem fome, a mulher que vende objectos da casa para obter algum dinheiro, são pessoas que dependem do trabalho de Antonio, e é com esse peso que ele tem de avaliar cada acção. Se não for ele a agir, ninguém o fará por ele.

A acentuar o motivo da “individualidade responsável”, e particularmente da solidão perante o Mundo, temos a situação histórica de uma Europa arrasada pela guerra, provocada por uma figura que, embora protegido pela Igreja, incarne a negação dos maiores valores morais cristãos (a dignidade da pessoa, a bondade, o respeito pela vida…). É neste desfasamento que surge entre o Homem e a moralidade não-secularizada, entre aquilo que o Homem pode sonhar e ambicionar, e aquilo que depois efectivamente é capaz de fazer, entre a resistência e a inadequação que há entre “os sonhos de todos os filósofos” e a realidade, que está situada a tragédia de Antonio. Ele é “O Homem que está condenado a ser livre”, como anunciará o existencialismo de Sartre e Camus.

Outro elo perdido espelha-se (mostra-se escondendo-se…) na ausência de algo, dentro das imagens, que faça o espectador acreditar que uma qualquer Justiça Universal acabará por intervir, resolvendo o drama de Antonio, reavendo-lhe a ansiada bicicleta. O decorrer das cenas mostra, ao invés, que por mais que se procure, o objecto do nosso desejo escapa-nos, adianta-se sempre em relação ao nosso último passo, para sempre desaparecido do arco da nossa percepção. Enquanto Antonio, o seu filho e os seus amigos procuram a bicicleta pelo mercado de Piazza Vittorio, sabemos que os ladrões já a desmontaram e vendem agora apenas as peças. A polícia nada pode fazer (está demasiado ocupada em reuniões de sindicatos), e mesmo quando Antonio descobre o ladrão, por acaso, este escapa-se para dentro do seu bairro, onde, pressionado pela fúria do desesperado protagonista, sofre um ataque epiléptico, causando a fúria dos seus amigos, que o expulsam violentamente. Todo o complexo sistema de relações que são precisas para obter o que se deseja se anula a cada passo de Antonio, resvala por entre os seus dedos como areia, abandonando-o mais do que nunca a si, preparando a acção para que a derradeira decisão tenha lugar.

É no desabamento de todos os valores (a lembrar a nova moral de Nietzsche) que o Homem se prepara para se copiar e reproduzir: Quando cai a esperança na bondade do Mundo, o indivíduo é deixado a si próprio: auto-referencia-se. O culminar deste princípio de acção aparece quando Antonio decide, mesmo depois de uma visível batalha interior (a cena é formidável), cometer o mesmo crime de que foi alvo. O gesto de Antonio expressa ao mesmo tempo o desespero e a insurreição do Homem perante o abandono a que o Mundo o votou. A imitação do gesto infractor exprime na perfeição o mecanismo de transferência resultante de um descentramento da confiança no Mundo, em direcção a uma radical incerteza acerca do lugar que habitamos. Depois da queda da “certeza” na perfeita ordenação do mundo e do lugar pré-estabelecido que nos foi conferido, agora o Homem apenas vê em si mesmo, e no seu abandono, “a medida de todas as coisas”. (confronte-se, por exemplo, a “dignidade do Homem” no humanista Pico della Mirandola, ou o valor metafísico da “harmonia pré-estabelecida” e as suas consequências para a moralidade, em Leibniz, com a radicalidade deste novo caos –e também Cais – do abandono).

Este já não é o melhor dos mundos possíveis – e a História que escrevemos no último século responsabiliza-nos por isso. A coragem de nos livrarmos de um deus ordenador resultou no despedaçar da nossa grande referência, seja moral ou epistémica, e lançou-nos na plena secularização do gesto . Tudo o que fazemos, a forma como olhamos, a forma como pensamos, preenche-se de desconhecimento, de incerteza e, ainda assim, de insurreição. Queremos ainda, e não cremos. Mas persistimos, tentamos e falhamos, somos perseguidos porque os outros não compreendem a legitimidade do nosso gesto, pois “os outros” referenciam-se a partir de si. Tudo se reorganiza numa dinâmica sem centro. Ou talvez numa organização plural e apenas aparentemente desordenada, em que cada irredutível subjectividade participa ainda de algo que já não encontra, porque lhe apagou apenas a face.

Pedro Sargento