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Lugares de Música e Moralidade (A Laranja Mecânica de Kubrick), por Pedro Sargento - 12/9/2005 |
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Daniel Bonnell, Sliced Orange with Knife.
A proximidade do espectador com o “humilde narrador”, Alex, leva ao acompanhamento da trama de um ponto de vista privilegiado, quase interior ao próprio Alex, deixando-nos à mercê dos episódios que se vão sucedendo na sua aventura. Isto torna praticamente impossível a fuga à identificação imediata com o sentir de Alex. E tal acontece seja qual for a “zona” do espectro da (i)moralidade em que a história se situa. O sentir de Alex é o sentir do espectador (isto é, foi o meu sentir, e há uma dúvida razoável que me permite a generalização…). Seguindo a estrutura básica de acontecimentos da obra, o que nos espera em termos de sentimento de identificação? A imagem de um jovem que exerce a sua vitalidade exclusivamente no Sexo e na Violência. Seja no espancamento do velho irlandês bêbedo ou no confronto com o grupo rival num teatro decrépito, ou, mais particularmente, no assalto do grupo ao Lar (“Home”) dos subúrbios, onde, aliás, Sexo, Violência e Música se conjugam numa única cena (que é também uma cena única, ao som de Singing in the Rain ), o protagonista exibe a incarnação humana da imoralidade, da maldade, e do viver em função do grotesco. O fascínio que tal comportamento suscita pode apenas explicar-se através da unidade trans-pessoal que têm o Violento, o Sexual e também o Musical (1) . Percorrem-nos a todos essas manifestações de forças da própria Natureza. No entanto, enquanto para a maioria de nós o equilíbrio entre Bem e Mal é achado no interior de um comportamento socialmente aceite, para Alex o Mal e o Bem não entram em confronto. A norma comportamental de Alex é o Mal e ele aparece como um verdadeiro líder físico, e também intelectual, sobre o seu grupo e sobre a sua comunidade. Uma espécie de eleito sobre o qual a negatividade, a brutalidade e a Violência se manifestam. Uma verdadeira força da Natureza , dir-se-ia. No instante em que o anti-herói protagoniza esta exuberância do Mal (2) , os mecanismos de controlo começam a actuar. Também nós, espectadores, começamos a certa altura a desejar que assim seja. Também nos identificamos com um certo “sentimento universal de justiça” que puna aquele que se dedica a destruir, a matar e a violar. A ubiquidade dos sistemas penais que, com maiores ou menores diferenças, exercem o seu poder em todos os formatos culturais, é um reflexo da necessidade de equilibrar as forças que através dos elementos do Mundo se manifestam. É possível que o próprio Mundo subsista através de uma “actualização” constante da intensidade dos fluxos que o percorrem, de forma a prevalecer um equilíbrio entre esses fluxos indefinidos. Assim, Alex é, primeiro, traído pelos seus companheiros (como qualquer verdadeiro líder, ele estava exposto à traição), e em seguida preso e sujeito a uma pena de 14 anos. Mas o curso de um filme “normal” termina aqui. Algum tempo depois, Alex é escolhido como voluntário de um programa governamental de reabilitação de criminosos. Enquanto a nossa raiva (será que, de facto, ela alguma vez existiu?) para com Alex se esvai, motivada pela observação da sua surpreendente (?) e inteligente dedicação aos preceitos católicos dentro da prisão, algo que em definitivo separa Alex do comum dos marginais, o lugar do “agente imoral” transtorna-se. Agora, ele desloca-se, descentra-se de Alex, e aparece dentro da própria força “normalizadora” do próprio “mecanismo de controlo”. A oscilação a que a (i)moralidade está sujeita dentro do filme, marca-o (ao filme, entenda-se) definitivamente. O Estado é desmascarado como a grande entidade imoral da história, capaz de subverter a imoralidade animal de Alex, levando-nos, com surpresa, a constatar precisamente o não-lugar do Bem (e, como veremos, possivelmente também o lugar definido do Mal). Aquilo que parecia vir em socorro da sociedade acaba por ser decididamente demasiado cruel para com Alex. Através de uma “terapia de aversão”, o nosso “humble narrator” é submetido ao choque através da imagem . Imagens de Violência são repetidas e irrecusáveis ao olhar de Alex. A insistência da Imagem (aqui falamos da imagem enquanto conceito) cria uma camada na sua pele (3) . A sua substância maléfica não desaparece, mas é coberta por um dispositivo de reacção a estímulos, fruto do visionamento excessivo de imagens de transgressão e destruição. O que nos choca, e move decididamente para o sentimento de compaixão para com Alex é que a terapia que lhe foi imposta privou-o da sua liberdade de uma forma muito mais extrema do que a prisão o faria. Enquanto que uma prisão mantém o delinquente dentro de limites físicos, a terapia de aversão transformou Alex num mecanismo primário de reacção a estímulos. Assim, a liberdade negada a Alex é aquela que nos distingue do cão pavloviano, é aquele “pormenor” que nos permite escolher entre um acto e outro, deixando-nos aberta a porta da possibilidade . Tal significa negar a um homem a sua identidade enquanto homem, ou seja, negar-lhe a humanidade. A fatalidade atinge o seu ápice quando, como efeito colateral do programa de reabilitação, Alex é levado também a abominar a sua peça favorita de Beethoven. O lugar que a música, normalmente, ocupa nas nossas vidas, faz-nos perceber quão grande deve ser o sofrimento de alguém que se vê negado do acesso à audição da sua música favorita. E quando Alex é restituído ao seu mundo, os seus pais rejeitam-no. O círculo que se completa entre os actos de pura maldade de Alex e a sua total manipulação por parte de uma entidade obscura (o Estado), é um desafio ao espectador. Ao longo do filme, sentimos por Alex quer desejo de uma dura vingança, quer desejo de salvação que o restituísse ao seu estado inicial. Isto faz-nos, sem dúvida, interrogar sobre o que é o Bem, o que é a Justiça, o que é o Mal, e sobretudo quais destas categorias pertencem a um lugar específico numa suposta ordem categorial do mundo. A resposta que esta obra nos dá é que apenas o Mal subsiste no seu lugar, como que reinando sobre as instâncias “positivas”. No percurso inverso de Alex, em que lhe é aplicada a vingança dos velhos bêbedos e do velho escritor, o habitante do Lar, o sofrimento de Alex é tão grande que o leva a uma tentativa de suicídio. Este é um suicídio provocado, em tudo alheio à vontade de Alex (pois ela já não existe). Sobrevivendo, e como se a proximidade da morte constituísse uma catarse, Alex regressa àquilo que é verdadeiramente. A camada superficial que revestia o âmago maléfico, cínico e poderoso de Alex sucumbe, e tudo termina numa orgia…beethoveniana: “ I was cured all right! ” Site oficial de Stanley Kubrick --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 1) Violência, Sexo e principalmente a Música não são exactamente, penso, aquilo que atravessa o coração de todos os humanos. São, isso sim, representações humanas dessas forças inomináveis. 2) O anti-herói deste filme não é de todo uma personagem inverosímil, onde astúcia, cultura, força e violência se concentram para formar um protótipo anti-social. Para além de haverem outras personagens do cinema que incarnam tais qualidades (lembro-me de Hannibal Lecter), o perfil de um sociopata inclui, muitas vezes, os mesmos atributos. 3) E a pele, diz Paul Valéry, “é o que há de mais profundo”.
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