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Voando sobre um Ninho de Cacos, por Pedro Sargento

18/3/2006

One Flew Over The Cuckoo's Nest (1975), de Milos Forman

 
 

 

Gostaria de relembrar este excelente filme de Milos Forman para posicionar um pouco o conceito de loucura num contexto filosófico. Tentemos apenas, uma vez que a loucura é um estado mental cujas fronteiras são em grande parte desconhecidas. Justamente, o que deve ser sublinhado é que a loucura assume nas suas mais elaboradas e profundas manifestações o carácter de disfunção. Quanto a mim, não há espaço, nestes casos, para classificar tal loucura de um modo possível e legítimo de existência, em relação a uma suposta maior clarividência dos factos, socorrendo-se da justificação pseudo-filosófica da “loucura enquanto um modo-outro” de estar no mundo. Os casos mais graves de esquizofrenia, por exemplo, são altamente incapacitantes e não são, para a pessoa que dela sofre, um modo privilegiado de sentir, ver ou pensar.

 Esta ressalva não aponta para uma aceitação acrítica do conceito de loucura. Há que tentar perceber até que ponto não a loucura, mas aquele que é tido como o “louco” ou o “anormal” não são sujeitos de transformações histórico-culturais que aprovam ou rejeitam determinadas ideias de “desvio”. A analítica-crítica da loucura já foi debatida por autores que formaram rizomas teóricos assentes nas ideias de “diferença” ou “anormalidade”. À cabeça estão Deleuze e Foucault.

Um dos maiores problemas deste conceito é a proliferação do seu uso, e com isso dos seus significados. A banalização da palavra conduz a uma dispersão do conceito, seja na sua utilização mais técnica (quando é um dos objectos da psiquiatria, por exemplo), seja na facilidade com que aparece em discursos quotidianos. Em comum parece haver sempre implícita a ideia de desvio, de desregra, de anormalidade. Até um certo grau, que é justamente delimitado pela linha da disfuncionalidade provocada pela loucura, a loucura é uma virtude, pelo menos para quem se ocupa da Filosofia. Ou da Arte, ou da Ciência. O que quer o filósofo, o artista ou o cientista senão ter o que é preciso para se desviar da norma, no campo onde trabalha? O pensamento que vive à beira do abismo (se possível, evitando dar o passo em frente) é “por norma” o mais produtivo e criativo. É necessário, como afirma Foucault, a procura pelo pensée du dehors, enquanto nos mantemos (se possível a custo) no interior. Relance de um conceito (invenção de conceitos: utilidade da filosofia para Deleuze) primário na formação da esquizofrenia: esquizo/frenus: espírito fendido. A noção heideggeriana (Artaud, Derrida e o subjéctil que é uma ruptura seja onde for: no Ser, na língua, na carne…) de corte concorre para fundar a própria loucura no núcleo de uma fissura incontida que jazia nervosamente numa unidade instável. Todos nós somos unidades instáveis, por vezes basta um clic, e produzem-se abalos, desabam-se as estruturas morais e devém a loucura como um jacto que ignoramos. A loucura, em mais uma das suas acepções, é uma necessidade. Produzida num lago vulcânico que repousa no fundo de nós, estarrece-nos a sua inacessibilidade. É o animal adormecido que habita em nós, antes de nós, socorrendo-me de Vergílio Ferreira.

O “aquele é louco” que desqualifica sugere essa mesma inacessibilidade. Apenas um laivo de loucura assoma no outro, destacamos a esfera da normalidade, mantendo a distância que se sabe ser afinal uma linha de continuidade apenas não percorrida por nós. Assim, o que é louco (o que parece louco) arrisca percorrer uma linha que nos trespassa a todos, apenas para aumentar possibilidades de cumprir a existência. Esta ideia apelativa e romântica do filósofo que escolhe destacar-se e subir conscientemente no nível de percepção que o liga ao mundo é uma instância de loucura. Apenas pode ser, para o filósofo como para o contabilista, uma vontade irreprimível, e portanto deixar de ser vontade, conduzindo ao negro de um abismo sem retorno. Aí perdem-se as ligações com as pontuais ordenações que o mundo dos humanos erigiu.

 

Já agora, o filme é muito bom mas não gostei do fim.

 

recomendo as seguintes leituras acerca deste(s) tema(s), em traduções portuguesas:

DELEUZE e GUATTARI, O Anti-Édipo -capitalismo e esquizofrenia-, Assírio e Alvim, Lisboa, 1996.

FOUCAULT, História da Loucura na Idade Clássica, Perspectiva, S.Paulo, s/d.

DERRIDA e BERGSTEIN, Enlouquecer o subjéctil, : Ateliê Edtorial Imprensa Oficial/ Editora UNESP, São Paulo, 1998.

 

 

Pedro Sargento