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Matrix, por Luís Rodrigues

21/2/2005

The Matrix (1999), de A. Wachowski e L. Wachowski

 
 

 

Vinha adiando há já algum tempo o projecto de desenvolver um texto sobre o conhecidíssimo Matrix, dos irmãos Wachowski. Depois de contribuir para fundar o Cinefilosofia, prometi-me a mim mesmo não deixar passar muito tempo sem escrever umas linhas sobre os temas filosóficos levantados por este emblemático filme - que, diga-se em abono da verdade, foi um marco do, e revolucionou o, cinema Sci-Fi contemporâneo. Seria portanto, ruminava eu (como o Nietzsche), uma falha inqualificável não apresentar um mísero comentário que fosse sobre uma obra de (7ª) arte mundialmente discutida, principalmente nos meios filosóficos. Qual seria então o motivo por que ainda não o tinha feito? Bem, finalmente encontrei a resposta a esta questão: é que os problemas filosóficos tratados pelo filme (o primeiro) são tantos e tão interessantes, que, incrivelmente, não conseguia decidir qual escolher e analisar. Finalmente consegui fazer essa escolha. O resultado é o que se segue.

O principal tema filosófico abordado no filme é – sem dúvida – o problema do cenário céptico do cérebro numa cuba. Como já tratei deste interessante problema noutro artigo, também a propósito doutro filme, o qual não suscitou grandes reacções, depreendo que o fiz usando linguagem demasiado técnica ou, no mínimo, pouco acessível à maioria dos nossos visitantes. Decidi, por isso, usar neste artigo um “filosofês do povo” na esperança que todos os interessados possam seguir a ideia (perdoem-me então os puristas, especialistas e outros bichos).

Para perceber o que está em jogo devemos “voltar” ao primeiro filme. A ideia do filme era, se bem se lembram, mostrar uma situação em que alguém aprisionado por máquinas é "alimentado" exactamente com as mesmas experiências (os outputs inputs) que nós experimentamos. Como é isto? Que quer isto dizer? Bem, quer dizer que as máquinas conseguem manter o corpo de carne e osso do enganado, cérebro incluido, num determinado lugar da Realidade (algures no futuro 2099) e transportar a sua mente para um corpo virtual feito de bits que vive uma vida virtual numa realidade virtual (1999). O resultado é que essa mente pensa e aceita que está numa Realidade-real-normal como a que nós costumamos dar por garantida, isto é, numa realidade não-virtual, não-artificial, não-sonhada ou imaginada. Como é óbvio, a mente não faz a menor ideia que o corpo que lhe está na origem (isto é muito disputado) está, literalmente, na Realidade, não-virtual.

Para perceber melhor o que está em questão devemos recordar o que se passa com Neo (Keanu Reeves) no início do filme. Se se recordam, o rapaz pensa que vive em 1999, numa típica cidade americana. Pensa que tem um emprego de programador e que desenvolve, paralelamente, uma actividade de Hacker. Pensa, enfim, que tem amigos, chefe e uma vida irritantemente normal.

Todas estas coisas poderiam ser dadas como absolutamente garantidas por cada um de nós, não é? Poderíamos acreditar sem qualquer problema que vivemos a vida que vivemos, na realidade em que vivemos, tal como a experienciamos, não é? É? Têm a certeza? Porquê? Quem ou o quê nos garante que assim é? Como justificamos a nossa crença de que a realidade que experienciamos e na qual vivemos é, por assim dizer, a realidade verdadeira?

Ok! Pensem agora um pouco nas razões que nos poderiam dar a certeza absoluta, para lá de qualquer dúvida, de que a realidade em que vivemos e que experimentamos é de facto a Realidade (em letra maiúscula) - e não, por exemplo, um sonho que estamos a ter. Já pensaram? Ah, certo! Julgam que não vale a pena. Julgam que é um exercício fútil, não é? Julgam então que o exercício é estúpido e não tem qualquer razão de ser; inútil, não é? Tal é a confiança de que aquilo que experimentamos é de facto a Realidade, de que nem estamos a sonhar nem estamos “inseridos” em qualquer realidade virtual que, compreensivelmente, a hipótese parece-nos estúpida.

Mas recordem-se agora do desgraçado do Neo. Não pensava ele da mesma maneira que nós? Não! E é ai que reside a grande diferença entre ele e nós. Sim, nós que não colocamos sequer a hipótese de estarmos a ser enganados (por um demónio-máquina, por exemplo), ou a sonhar, ou até a viver numa realidade virtual, porque não achamos essa hipótese nada plausível. É precisamente por causa desta nossa postura incrédula face à referida possibilidade que mesmo que se estivermos num desses cenários virtuais jamais o questionaremos, dando-o como certo e seguro, para lá de qualquer dúvida. Provavelmente até diremos que a hipótese é tola. Dir-se-á então algo do tipo: "Maluqueira! Coisas de filósofos que não têm nada melhor para se entreterem". Pois, pois, fiem-se, fiem-se.

Neo achava que algo estava mal. Lembram-se? Algo “soava” mal. Ele sentia-se desencaixado nesse “mundo” que não dava por garantido: essa realidade “normal”, segura, caucionada, rotineira, habitual, parecia não lhe “servir”. Era como se usasse o 45 (de calçado) quando afinal o seu número era o 41. Mas apesar de ter essa intuição (vou ser trucidado), esse insight, o nosso herói não conseguia explicar racionalmente o que se passava com ele e com essa “realidade” em que vivia – o desfasamento era inexplicável, indizível, inefável, inelutável e inconcebível.

Vamos então agora formalizar o argumento da hipótese céptica. A hipótese céptica é a hipótese de estarmos num cenário de engano como a Matrix. Pode haver variantes deste cenário: podemos, por exemplo, estar a dormir, permanentemente e sem saber, sonhando que estamos acordados a experimentar a “realidade” tal como ela se nos apresenta (como o personagem representado por Tom Cruise no excelente Vanilla Sky). Suponhamos então por uns breves momentos que estamos na pele – virtual – do Neo (ou da Trinity, caso o leitor seja do sexo feminino, ou seja, uma leitora), mas que não temos forma de saber que estamos de facto a viver numa realidade virtual e que tudo o que experimentamos é um embuste elaborado por máquinas que mantêm os nossos corpos e cérebros encerrados em caixões transparentes dispostos de forma a gerarem energia eléctrica.

Pense agora nisto: se o leitor incarnasse a “pele” virtual de um destes personagens, poderia porventura ter acesso a razões que pudessem contribuir para justificar a sua crença de que a realidade em que vive é afinal uma falsa realidade? Ou seja, poderia o leitor(a) ter a certeza de que a sua realidade é uma realidade virtual? Se a sua vida fosse um sonho, o que não é uma hipótese logicamente contraditória, e se o leitor(a) fosse um mero actor no palco do mundo, tal como sugere Shakespeare, poderia assegurar que a sua vida não era um sonho? Como poderia confirmar a sua crença de que não era? Não continuaria a acreditar que não era? Como sairia do sonho para ver – e provar – que a sua vida não era um sonho?

Pense nisto por uns instantes antes de prosseguir a leitura. Como pode assegurar que a realidade em que vive, o computador em que agora está a ler este texto e até este texto, não são criações de máquinas que o levam a crer que tudo isto é real, quando, de facto, não é? Não serei eu uma criação virtual que o engana? Ou serei uma pessoa de carne e osso e não de bits? Já pensou nisto seriamente?

Sobre esta possibilidade, o Céptico argumenta assim: se formos personagens como o Neo, existindo (vivendo?) no mesmo género de realidade Matrix em que ele existe, não continuaríamos a acreditar que vivemos numa Realidade “normal”? Se sim, e tudo indica que sim, que continuaríamos a acreditar em tudo o que acreditamos, inclusive que não vivemos numa realidade virtual, como poderíamos saber justificadamente que isso não é o caso? Não poderíamos, afirma o céptico: pois nessa situação não temos qualquer crença verdadeira. Tudo o que vivemos, experimentamos e acreditamos nessa terrível “situação Matrix” é falso: Acreditamos que estamos no jardim a apanhar sol e estamos de facto encerrados num caixão num planeta coberto de nuvens onde o sol nunca aparece. Acreditamos que estamos a comer um bife no restaurante, mas estamos a ser alimentados por via intravenosa. Acreditamos estar a beijar a namorada(o), mas estamos sozinhos e isolados na nossa cuba cheia de liquido amniótico repulsivo. Enfim, se fossemos Neos ou Trinitys, e se estivéssemos encerrados na Matrix, acreditaríamos num rol imenso de falsidades. Mais grave ainda do que isso é que acreditaríamos falsamente que não estamos a acreditar falsamente em tudo o que agora acreditamos. Podemos perfeitamente estar a ser enganados que não temos forma de saber se estamos, i.e., não temos forma de dar pelo engano (embora possamos pensar nele, o que é algo completamente diferente).

Como se “evita” o cenário céptico da Matrix? Como se evita o engano e o embuste promovido por demónios ou máquinas que zombam com a, e da, nossa condição? Como se contorna a impossibilidade de sabermos que não somos cérebros em cubas? Bem, eu até poderia apresentar aqui uma teoria epistémica anti-céptica (não confundir com anti-séptica) que tenho na calha, mas estou certo que por enquanto é fraquita e que ninguém a entenderia ou lhe daria muito crédito. O melhor mesmo é pedir uma “pílula da Realidade” ao Morpheus (Fishburne) - O deus do sono, topam? Aquele que tem o poder para despertar-nos do sonho, ou introduzir-nos nele. Escolhemos o comprimido azul ou o vermelho? A escolha é nossa?

Matrix, in and out forever... and ever.

Luís Rodrigues