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Metrópolis, por Luís Rodrigues 16/4/2006
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Metrópolis (1927), realizado por Fritz Lang e idealizado por Thea von Harbou, é sem dúvida um clássico do cinema, para mais, do cinema mudo. Sobre este filme, que só recentemente tive o privilégio de ver, interessa-me sobretudo falar de dois pontos, pontos que julgo terem, por assim dizer, algum interesse filosófico. Claro que o argumento do filme e a sua cine-(bio)grafia estendem-se muito para além daquilo que agora vou dizer, como facilmente poderão constatar pela leitura deste artigo. Não obstante, tentarei oferecer já de seguida dois novos elementos de reflexão a propósito do filme, elementos que não encontrei em parte alguma do referido artigo ou de outros de igual qualidade. O primeiro do elementos reporta-se mais cine-(bio)grafia da película do que propriamente ao seu argumento. Como é sabido, uma boa parte do filme perdeu-se, sendo, assim, uma grande secção do seu argumento irrecuperável. Têm sido feitas várias reedições ao longo dos tempos. Algumas delas apenas apresentam o que sobreviveu do filme original (das cópias da película original), enquanto outras tentam colmatar as suas falhas e até acrescentar coisas que originalmente nele se não encontravam – A BS compilada por Giorgo Moroder, com música dos 70s e 80s, é um bom exemplo do que digo. Como já disse, vi o filme recentemente. Tive o privilégio de ver uma versão com a chancela da Fundação F. Murnau, o que, no meu entender, dá algumas garantias de autenticidade e fiabilidade. Apesar disso, não posso deixar de pensar na melhor versão que chegou até nós como um documento antigo escrito e reescrito dezenas de vezes, um testemunho indirecto da história original de Von Harbou e da intencionalidade cinematográfica de Lang. Que era realmente para ser dito? Será que o que até nós chegou é suficiente para sequer circunscrever as ideias que motivaram a realização do filme e o contar da história ficcional intencionada? Será que não estamos perante um documento cinematográfico construído por estratos ou camadas, um pouco à guisa dos antiquíssimos livros (biblos) que formam o Antigo e Novo Testamento? Estas parecem-me ser questões amplamente interessantes para cinéfilos curiosos e dedicados. Encontrar respostas cabais para elas poderia militar a favor de uma teoria da formação sequencial das obras-de-arte cinematográficas. Talvez pudéssemos com isso encontrar um “algoritmo” que explicasse convenientemente o processo de construção gradual de peças arte antigas, peças que tantas vezes surgem perante nós – falsamente, claro – como produções “instantâneas” e acabadas, realizações de um tempo bem definido e de um espaço perfeitamente delimitado. O segundo elemento que desejo focar reporta-se aquela que penso ser a mensagem central do filme. Ela aparece logo no início do filme, assim como no seu final, pelo menos a confiar na versão que vi. A mensagem é a seguinte: "The mediator between head and hands must be the heart". Esta mensagem tem, a meu ver, um duplo significado. Primeiro, julgo que indica e sugere um método de acção que deve ser perseguido por todos os homens de bom-senso. Esse método é o de cada qual usar as suas boas emoções e sentimentos para mediar aquilo que pensa e aquilo que executa; isto tudo governado, claro está, por uma certa ideia de maximização do bem como objectivo final da acção (uma ideia filosófica clássica). Segundo, julgo que se trata de uma analogia entre a situação particular, pessoal e subjectiva, respeitante a cada indivíduo, tal como retratada no parágrafo anterior, e a situação social de separação clássica, no seio de uma sociedade, entre quem pensa e quem executa – ou, dito menos eufemisticamente, entre quem manda e quem trabalha. As “emoções mediadoras” entre o corpo pensante e o corpo executante (uma distinção só possível e que só faz sentido se encararmos, tal como o filme sugere, a possibilidade de distopias) seriam neste caso apenas homens com capacidades especiais, por exemplo, sensibilidade e inteligência apuradas, capacidades que lhes permitiriam unir sectores desavindos de uma mesma sociedade, de um mesmo “corpo” social. Enfim, muito teria de ser dito sobre estes assuntos para que pudéssemos chegar a alguma conclusão plausível sobre eles. Não o podemos fazer aqui. Fica, contudo, a convicção de que o filme consegue levantar ou recuperar algumas questões éticas e politicas interessantes: isto já para não falar das “maravilhas” de Sci-fi que postulava à data da sua (primeira) realização, coisas como robótica, metrópoles imensas repletas de tecnologia (tecnologia que escraviza trabalhadores sem fim e os prende a rotinas infernais) etc. Por tudo isto e por muito mais, o filme é um must see. Já agora, a BS da versão que vi, que é supostamente a BS original, até nem é nada má. Tem no entanto uns arranjos que me soam decididamente à Marselhesa. Estranho, não é?… Talvez não, se atendermos às motivações politicas do filme. |