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Munique por Luís Rodrigues - 10/2/2005 |
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Pessoalmente, recordo-me de ouvir falar-se dos acontecimentos de Munique. Lembro-me, por exemplo, do meu avô paterno seguir o relato - o pouco que chegava a Portugal - desses acontecimentos com algum interesse na rádio (espanhola!?). Enfim, aquilo nada me dizia. Percebia apenas que uns “homens maus”, os palestinianos, tinham raptado uns “homens bons”, os judeus (esta valorização acontecia na minha mente apenas por estes últimos serem desportistas) e os tinham assassinado. Depois disso nunca mais me interessei pela coisa, mas o assunto foi ressurgindo em várias ocasiões da minha vida. Recordo-me perfeitamente que em tempos estive até para adquirir o livro que deu origem ao primeiro filme (que não vi e sobre o qual não vejo pevide na Net) sobre o tema e no também se baseou Splieberg. Mas, vá-se lá saber porquê, nunca cheguei a fazê-lo, perdendo assim uma boa oportunidade de me entranhar nos meandros da realpolitik e das sub-reptícias ocorrências que estiveram na origem dos bem conhecidos factos. Bem, tudo isto para dizer que não me posso “esticar” muito no assunto A Ira de Deus (assim ficaram conhecidos por muitos os trágicos factos de Munique 72) simplesmente porque não percebo nada do tema. Apenas quero dizer que Munique explica perfeitamente o que é agir - politicamente, na pólis moderna - a partir de um quase Estado de Natureza do indivíduo (sobre isto consultar as obras de J.J. Rousseau e Thomas Hobbes, entre outros). Mas, exceptuando isso, não me parece trazer nada de novo à discussão filosófica sobre a guerra milenar entre árabes e judeus, ou sobre a procura, também milenar, por parte destes últimos de uma terra onde fixar a sua pátria, a que se seguiu a usurpação das terras dos palestinianos, transferindo-se os mesmíssimos problemas dos judeus para estes. Nada de novo também sobre o problema da dimensão psicológica dos assassinos, estejam a mando do terrorismo de estado israelita ou estejam a mando do terrorismo fanático dos seus opositores palestinianos. Ambos são homens que lutam convictamente por um ideal. Ambos são inteligentes e razoavelmente cultos (as chefias operativas, não necessariamente os cabecilhas políticos). Ambos têm dúvidas. Ambos valorizam valores morais (perdoem-me a redundância). Ambos têm desilusões. Ambos têm medos. Ambos acabam por perceber a estupidez da luta. Etc. Se excluirmos a exposição de clichés de análise política, Munique parece-nos um filme razoável, claro está sobre um assunto batido e rebatido nos nossos tempos: o terrorismo. Tem talvez um outro mérito que é o de mostrar-nos que não é possível decidir o lado que tem razão porque, simplesmente, não é possível qualquer lado ter razão ; o que torna o conflito ainda mais sem sentido, só sendo possível graças à falta de inteligência, tolerância e subsequente fanatismo de alguns chicos-espertos-burros que motivam a guerra por causa de interesses dúbios, quase sempre de facção. Mas até estes são atropelados pelos acontecimentos que despoletam, ficando nós com a ideia de que estamos a ver um carro sem travões cujos ocupantes vão metendo os pés de fora para o parar na eminência de se despenharem num precipício: uma solução pouco inteligente e um esforço inglório. Como resolver estes problemas? O filme não responde a essa questão (nem tenta sequer). Se o fizesse seria, do ponto de vista filosófico, genial. Assim, é apenas razoável.
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