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Ainda sobre The Life of David Gale: o que devemos ser quando somos filósofos... ...e não sócios do clube dos poetas mortos, por Luís Rodrigues - 6/12/2005 |
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É possível que uma das coisas mais interessantes na possibilidade de desenvolver uma discussão racional seja conseguir interpelar de viva voz aqueles com quem discordamos ou com quem queremos dirimir argumentos. Se tivermos suficiente imaginação, podemos até conseguir fazê-lo com o velho Kant: lemos dois ou três “calhamaços” que o tipo escreveu e, imbuídos de boa-vontade e espírito crítico, dispomo-nos a “discutir” com ele as suas teorias e argumentos. Mas o velho Kant só nos poderá responder por via daquilo que escreveu, e que lemos, ou por via das interpretações que alguns especialistas fazem do que disse. Porquê? Porque está morto! E também porque o dia do Juízo-final não deve ser já amanhã… Algo de parecido sucede com David Gale: já não podemos discutir com ele o problema da pena-de-morte simplesmente porque, ao suicidar-se em nome de uma causa, ele recusou-se a continuar a discussão. Temos então que o homem se suicidou por o filósofo ter falhado: Gale falhou redondamente na vida como homem, ao cometer erros crassos; e falhou redondamente na morte como filósofo, ao decidir-se pelo martírio em vez de continuar a luta positiva como pensador e activista. Mesmo que essa luta não conduzisse a um consenso ou a uma resolução, aliás como tantas outras, isso não seria dramático nem seria razão suficiente para que desistisse a meio, tentando pôr-lhe fim da forma mais estúpida e repulsiva que existe. Se ele estivesse certo, o melhor era suicidarmo-nos todos em nome dos nossos ideais, e assim deixavam de existir problemas com os seres humanos, pois deixavam de existir esses seres. Assim, por exemplo, um tipo qualquer que seja contra a inclusão de sal no pão, argumentando que a ingestão de sal conduz à morte prematura, devia matar-se para fazer valer a sua causa – pois milhares de pessoas morrem por ano em virtude da ingestão excessiva de sal na comida, o que faz os padeiros serem mais "assassinos" que os juízes norte-americanos ou tailandeses. Como é óbvio, Gale em nada alterou o curso dos acontecimentos ao tornar-se mártir, pois a pena-de-morte continua uma realidade dos nossos dias e só é talvez alterável em função da conjugação de múltiplos factores políticos, sociais, éticos, étnicos e económicos (o tempo das cidades-estados está morto e enterrado. Para quem ainda não acordou do torpor da era clássica, no qual as cidades-estado eram países de poucos mil habitantes, sugiro que abra os olhos e veja o fenómeno da globalização, que torna certos actos inúteis e estúpidos). Do mesmo modo, a injustiça, a pobreza, a discriminação e as desigualdades económicas ou religiosas não cessam de ser realidades no médio-oriente ou em qualquer outro lugar pelo facto de crianças de dez anos fazerem-se explodir em nome de uma causa. Além disso, Gale condena a morte provocada fazendo recurso à morte provocada, o que faz do seu acto um acto incoerente - tão incoerente quanto os praticados pelas seitas pseudo-muçulmanas. Se, pelo contrário, Gale tivesse optado pela vida, teria tido a possibilidade de conseguir algo mais em prol da sua luta. Teria talvez investigado e discutido o assunto um pouco mais e melhor; e, consequentemente, teria defendido de uma forma mais positiva e eficaz a sua causa. Teria talvez tido a possibilidade de contribuir para mudar gradualmente a mentalidade mesquinha e estúpida de um conjunto significativo de norte-americanos a propósito da pena-de-morte, tal como muitos outros antes de si mudaram o sentido do pensamento de outros tantos americanos com relação à escravatura e ao apartheid. Ao invés, Gale optou pelo fácil e pelo intelectualmente desonesto: acabar com o seu sofrimento pessoal e aproveitar essa sua necessidade para defender e vindicar a sua causa. Enfim, Gale optou pela negatividade e pela impostura intelectual: subverte-se o sistema que nos acolhe e acaba-se cobardemente com a luta, por via do suicídio segundo fins, doutrinas e dogmas - pois não são defendidos de forma racional, mas sim através da força bruta, da arbitrariedade e da imposição. Voltaremos a isto no final do artigo. Mudando agora um pouco de assunto. O Diogo diz explicitamente no seu artigo que Sócrates não abraçava qualquer doutrina e que renegava saber o que quer que fosse, insinuando (a interpretação dos livros) que Sócrates foi injustamente condenado por recusar a adopção de qualquer ponto de vista ou teoria. Isto não é totalmente correcto. Sócrates tinha, ao contrário daquilo que nos ensinam no Secundário e na Faculdade, pelo menos duas teses. A primeira, de natureza filosófica, era que nada sabia, sabendo-o; a segunda, de natureza moral, era que mais valia quebrar que torcer quando estamos certos de agir correctamente. Ambas as teses são recorrentes, embora não explícitas, nos diálogos platónicos nos quais intervém Sócrates. Apesar de todos os esforços de Platão para nos mostrar um Sócrates doutrinalmente agnóstico e profiláctico, fica claro da sua leitura que Sócrates abraçou estas duas teses até ao ponto de se tornarem convicções obsessivas e de dar a sua vida por elas (há ainda outras teses de carácter metodológico, mas não interessa agora para o caso referi-las). As teorias tornam-se doutrinas para nós precisamente no momento em que estamos tão convictos da sua verdade ou plausibilidade que nem consideramos a hipótese de serem falsas. Normalmente, quando uma proposição adquire o estatuto de inquestionável converte-se num dogma (do género: “a Sic radical é a melhor televisão portuguesa porque passa tipas nuas à noite” ou “o Benfica é o maior clube português porque é o que tem mais adeptos”). Neste particular, Sócrates foi ainda mais longe, temos de fazer-lhe justiça. Ele não sabia se as suas convicções estavam certas ou erradas – pois nada sabia – mas apesar disso decidiu morrer por elas!, o que, da minha modesta perspectiva, é um contra-senso de bradar aos céus por parte de quem não defende qualquer ponto de vista ou convicção. Estudiosos parados no tempo dirão que Sócrates era filosoficamente amorfo. Mas isso é falso. Sócrates foi o aguilhão que espicaçou os atenienses, fazendo-os ver os seus erros e defeitos, mostrando-lhes o caminho; um caminho (um methodos) que ele via e em que acreditava. Como fez ele isso sem ter a convicção profunda de que os seus concidadãos estavam errados? Alguns dirão que ele não tinha essa convicção, mas, como bem diz o Diogo, temos de ter algumas convicções de base se queremos agir e investigar, e Sócrates não era excepção: o “conhece-te a ti mesmo” era uma convicção enraizada na mente de Sócrates ao ponto de não haver nenhum sofista armado de pseudo-saber e retórica a conseguir demovê-lo dela. Mas há ainda outra confusão em que caem os incautos leitores de Platão: a confusão entre a recusa socrática de um pseudo-saber, assente na arbitrariedade e na autoridade, e a pseudo-recusa socrática do Saber per si , aquele Saber que assenta no método, na investigação séria e na procura da Verdade – de que Sócrates foi um dos principais fundadores, ao admiti-la como possibilidade. Os hilariantes críticos de Sócrates que vêem em Sócrates apenas um destruidor de crenças falsas dão-me obviamente vontade de rir. É que o nosso gorducho filósofo sabia que era aquele que mais sabia, aceitando e dizendo que nada sabia - i.e., que não possuia um pseudo-saber. Do que ele não queria saber era do pseudo-saber, pois esse, sabia-o ele bem, nunca poderia ser Saber, i.e., nunca poderia ser Conhecimento na verdadeira acepção da palavra. Contudo, há quem sugira que Sócrates era paradoxal nesta sua atitude. O paradoxo só surge se aceitarmos que Sócrates não conseguia distinguir entre pseudo-saber e Conhecimento. Vamos nós pensar que alguém tão inteligente quanto Sócrates e Platão não percebiam a diferença? Que tolice! Não há qualquer paradoxo, e Sócrates tinha de facto uma tese que defendeu negativamente ao argumentar contra a sua oposta, a saber, a de que o Saber é preferível ao pseudo-saber. Quando falei de doutrinas no meu outro artigo estava simplesmente a referir-me a convicções com um estatuto tão marcadamente inabalável da perspectiva do “crente” que mereciam que este cedesse aquilo que tem de melhor na vida: a própria vida; da qual derivam todas as possibilidades, inclusive a de escolher a ideias que lhe parecem mais interessantes, as causas pelas quais se deseja bater, ou até a própria morte (em vida podemos escolher a morte, mas o contrário não é lá muito plausível). Feita esta distinção, passo para aquela que me parece ser outra incorrecção do meu amigo Diogo. Parece-me que ele confunde teorias, convicções ou doutrinas com métodos. Eu posso seguir um determinado método, por exemplo, o científico ou filosófico (até não porque conheço outros), mas isso não me vincula por exemplo a qualquer doutrina sobre a natureza da matéria ou da energia. As minhas únicas convicções podem ser pois, tal como as de Sócrates, respeitantes a princípios de procedimento. Mas daí a morrer por essas convicções vai uma distância enorme. Quando digo que não quero fazer doutrina mas sim investigação estou a expor literalmente um modus operandi e não um conteúdo objectivo de uma qualquer tese ou doutrina que defenderei até à morte – e com a morte. Isto não é de todo contraditório com a ideia de ciência, de filosofia ou de investigação, muito pelo contrário. Claro que alguns princípios ou convicções devem ser primitivos de forma a serem a base do método e subsequente investigação. Mas do facto de serem primitivos não se segue que não possam ser questionados ou investigados. Portanto, nada me impede de ser investigador sem aceitar incondicionalmente convicções e doutrinas; ou, pelo menos – que é verdadeiramente o que está em disputa –, convicções tais e tão enraizadas que equacione a possibilidade de matar ou de me matar por causa delas. A diferença está aí: o Diogo não percebeu que quando alguém se torna obsessivo ao ponto de morrer pelas suas convicções deixa de poder contar como filósofo ou homem de ciência, na medida em que a metodologia da filosofia e da ciência sugerem que as investigações filosóficas e científicas devem ter um cunho de neutralidade e “positividade”. Galileu renunciou à sua tese para viver e ter a possibilidade de a melhorar ou de a defender de outro modo. E nada melhor que esse exemplo para mostrar que não é a morte dos autores que torna as teses boas; pelo contrário, é aquilo que produzem quando são vivos! Por tudo isto, hoje-em-dia vemos as coisas de maneira diferente: o suicídio romântico em nome uma causa, mais que uma tolice, é uma perfeita inutilidade. Provocar a nossa própria morte em nome de Deus ou em nome da abolição da pena-de-morte é algo que noventa e nove virgula nove por cento dos filósofos se desabituaram de considerar desde os tempos de Platão, pois compreenderam a ideia de que a obsessão por uma tese ou convicções deve ter limites, e que o sacrifício da nossa vida para demonstrar um ponto é tão absurdo quanto inútil. Eis por que não devemos ser suicidas fanáticos quando queremos ser filósofos. E eis por que a filosofia ainda reclama privilégios de rainha: porque é capaz de nos tirar do torpor da inutilidade das convicções falsas ou excessivamente obsessivas, criando em nós a vontade de procurar a Verdade, o que só se consegue adoptando o método crítico, a discussão saudável e a prova racional, i.e., investigando. Não me parece que Gale esteja agora em condições de o fazer, mas nunca se sabe. Porventura, talvez nunca viéssemos a saber quem foi Sócrates e quais os seus "ensinamentos" se Platão, seu discípulo, não tivesse seguido um método de investigação séria e activa – mas nunca se sabe: talvez Platão pudesse escrever uns diálogos depois de ter seguido o exemplo do seu mestre, i.e., depois de se ter suicidado para provar os seus pontos. O Nietzsche teria gostado por certo desse desfecho; e se a ideia vingasse entre os discípulos de Platão, Aristóteles não teria tido tanto trabalho para estabelecer as bases da lógica e da ciência…Bastava-lhe matar-se para alcançar os seus objectivos e para nos legar os fundamentos de todo o conhecimento (teórico, prático e ético) que hoje possuímos. Será? |