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| (O Que Eu Quero Ser) Quando For Filósofo, por Diogo Santos - 04/12/2005 | ||
Por que razão causa isso confusão ao Luís? Porque, para ele, os sacrifícios de Sócrates e de Gale são manifestações de [absoluto] dogmatismo. E, como (aprendiz) filósofo, não admite que estas figuras sirvam de modelo a seguir para qualquer futuro filósofo [contemporâneo]. Essa não seria a atitude filosoficamente adequada a adoptar. Dever-se-ia, antes, investigar com objectivo, «mas sem doutrina preconcebida ou aceite». O que implica que, quando for filósofo, o aprendiz não se agarrará às suas convicções «a ponto de estar disposto a dar a vida por elas». Não peço tanto. Peço apenas que o aprendiz, quando for filósofo, possua convicções, mesmo que as defenda com reservas. O que o Luís inadvertidamente pretende é um «embuste ficcional». Investigar e não dispor de uma doutrina «preconcebida» é um boicote à investigação. Que direcção pode tomar uma investigação se não tiver uma doutrina como base, um conjunto de pressupostos ou convicções acerca do seu objecto? Gostava de vir a saber o que faria Galileu com as suas investigações, caso não estivesse de antemão convicto do Heliocentrismo. Como será que ele interpretaria as luas de Júpiter girarem à volta desse planeta se fosse adepto convicto do Geocentrismo ou, pior, caso não defendesse qualquer doutrina? Não quero dizer que a doutrina não possa ser modificada com a investigação, no entanto, sem uma doutrina prévia, a investigação é inoperante. A doutrina antecede a investigação, e não o contrário. O Luís, em meu entender, toma a causa pelo efeito. Einstein é um excelente exemplo do que digo. Só depois da formulação da Teoria da Relatividade Geral na mente brilhante do cientista, é que a mesma foi investigada matematicamente e colocada à prova por meio de observações. Descartes é outro bom exemplo. Basta lembrar que as suas Regras do Choque não eram sequer possíveis de confirmação ou refutação, era impossível haver uma investigação empírica ou científica acerca das mesmas, ou seja, não derivaram de uma investigação, propriamente dita. As investigações e observações de Darwin também só são possíveis porque ele já tem em mente uma teoria específica sobre o objecto da sua investigação. Por isso, afirmo que possuir convicções não é sinal de dogmatismo, mas de bom senso. E o Luís é uma pessoa de bom senso, na medida em que também ele – quando for filósofo – quer seguir a atitude dos Einsteins,dos Descartes,dos Galileus e dos Darwins da modernidade. Estou a desviar-me ligeiramente do cerne da questão. Principalmente, o colega editor quer alertar para o perigo de se sacrificar tudo pela defesa de convicções. Para ele, isso é próprio de «seres dogmáticos». Tanto Sócrates, quanto Gale, são exemplos óptimos desse tipo de seres. Aqui está outro erro, na opinião do autor. Interpretar a vida [e a morte] do filósofo grego como uma vida dogmática é quase uma inversão do propósito dessa vida. O Luís esquece-se que Sócrates ia ao encontro das pessoas para colocar à prova as suas próprias convicções. ‘Convençam-me que o saber humano dispõe de algum valor’, parece ele querer dizer. Esses confrontos filosóficos, na forma de diálogos, apenas reforçam as convicções do filósofo. Tal atitude não é atitude de «ser dogmático». Bem pelo contrário, as suas pretensões são de abalar as atitudes acríticas dos seus conterrâneos. Assim se desvirtua uma vida dedicada à atitude crítica e anti-dogmática. Quanto ao ponto do [editor] filósofo aprendiz, convém dizer que a interpretação que faço da ingestão da cicuta é de integridade intelectual. O legado é esse. Os ideais do filósofo são produto final de investigações cuidadas e confronto de opiniões e ideias com as grandes mentes do seu tempo. Intitular a defesa das suas convicções sem reservas de atitude dogmática assemelha-se-me a exagero, no mínimo. Por que motivo deveria Sócrates renunciar às suas convicções recusando-se a ingerir a cicuta? Como diria ilustre conhecido meu: ‘não houve argumento melhor’. Ou seja, não houve razão para renunciá-las. Sei que não é isto que o Luís defende, mas mudar de convicções ao sabor da ocasião é oportunismo – e é bem mais perigosa a existência de seres oportunistas do que a de seres de tipo dogmático. A morte não é sinal de recusa a mudar de opinião mediante qualquer circunstância, pelo contrário – e isto ainda é mais claro no caso de Gale –, é mais um argumento a favor das convicções dos mártires. Não estou a argumentar que seja aconselhável que as pessoas morram pelas suas convicções. Primeiro, porque a razão do sacrifício pode ser incorrecta; segundo, porque essa decisão é algo que deve ocorrer em último recurso e por absoluta necessidade. Creio que em ambos os casos sujeitos a análise as decisões foram tomadas em último recurso. Mais, no caso de David Gale, o argumento da sua morte é fortíssimo e é excelente a favor da sua posição e convicções. O meu amigo Luís diria que é atitude desnecessária nos tempos que correm. Discordo. As condições que tornam atitudes como essas necessárias mantêm-se válidas no presente. Poder-se-ia dizer que o Sr. Gale poderia ter colocado a discussão os seus argumentos perante a comunidade. Para além de certamente tal ter sucedido, é do conhecimento geral que – e muitos «filósofos sérios» concordarão – as discussões de posições contrárias dificilmente acarretarão modificações substanciais nas posições iniciais dos intervenientes nessas discussões. A discussão entre duas pessoas racionais e minimamente convictas das suas opiniões muito provavelmente não resulta em consenso entre os indivíduos que nelas intervêm. As dificuldades em convencer alguém das nossas convicções filosóficas [correctas ou incorrectas], por meio de discussão civilizada e racional, permanecem as mesmas nesta era. Que escolha há, que não seja argumentar por vias mais fortes e incisivas, mesmo que tais vias sejam radicalmente drásticas? A apologia que faço das atitudes do professor de Platão e do Sr. Gale é justificável, na medida em que há coisas maiores do que a nossa vida [sem querer versejar]. Por um lado, há coisas, tais como as convicções, que ultrapassam em termos de importância objectiva a vida de alguém. São mais significativas as convicções [científicas, no caso] de Newton, por exemplo, do que o facto de eleter existido. Por outro lado, há coisas, tais como as convicções, que dispõem de uma longevidade consideravelmente maior do que a vida de alguém. Muitas das convicções de Copérnico mantêm-se ainda vigentes, apesar do astrónomo já não viver há muito. Por esses motivos não olho com repulsa perante as atitudes dos dois mártires da filosofia. Mais, interpreto-as como heróicas, tal a coragem envolvida. É preferível silenciar-me e dar voz a Sócrates (o Sócrates de Platão) a esse respeito: «Porque o verdadeiro preceito é este, ó Atenienses. Devemos permanecer no posto que escolhemos por julgarmos ser o melhor, ou que nos foi confiado por quem pode, ou quem deve, devemos afrontar os perigos, considerando a morte e outros perigos como ninharias, se comparadas com a infâmia» (Platão, Apologia de Sócrates, 28d). É assim que eu quero ser quando for filósofo. Uma última nota. A filosofia não deve ter pretensões a ser mais do que aquilo que é. Não nego a sua aplicabilidade e a sua utilidade. Porém, nego que deva ser ela a assumir a dianteira no que respeita à importância de uma actividade de investigação na vida quotidiana. É a ciência que deve assumir esse papel. A filosofia não serve para «curar ninguém», nem é esse o seu objectivo. Se ela se posiciona em posição dominante no dia-a-dia padecerá certamente de uma descaracterização, na medida em que os seus objectivos tornar-se-iam confusos e ocultos. Os seus objectivos devem ser situados de acordo com o ramo filosófico. Apesar de não questionar a aplicabilidade da maior parte da boa filosofia que se faz, essa aplicabilidade é também situada. A filosofia política, por exemplo, aplicar-se-á, naturalmente, no campo político – e é deveras útil nesse mesmo campo, veja-se Hegel, Rawls ou Locke. No campo ético passa-se o mesmo. Em epistemologia também. Por aí fora. Quero com isto dizer que a imagem do «professor pardal» que o filósofo tem passado para o exterior se deve, sobretudo, a um exagero injustificado da parte de alguma filosofia ou de alguns supostos filósofos na caracterização da sua profissão. Ao ponto de se tornar impossível apresentar uma definição ou um conjunto de propriedades da filosofia minimamente compreensível. Por isso dirá o leigo, com toda a razão de ser,que é coisa «muito abstracta e teórica e que não serve para nada». Esse é o perigo! Espero que o artigo seja compreensível para a maior parte das pessoas e que tenha feito valer os meus pontos. Agradeço ao meu caro amigo Luís Rodrigues pelo seu artigo, que é a causa deste. |