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Se Isto É um Homem, por Diogo Santos

3/1/2006

Blade Runner 3ª perspectiva

 
 

 

«No século XXI a Corporação Tyrell atingiu a fase Nexus na evolução robótica – um ser virtualmente idêntico ao homem – designado por replicant» (Blade Runner).

A apropriação do título do livro de Primo Levi Se Isto é um Homem – não é arbitrária. A ideia é apresentar imediatamente a intenção do artigo: a intenção é antropológica (ou meta-antropológica , explicarei porquê mais adiante).

O filme Blade Runner, creio que praticamente toda a gente já o conhece ou dele terá ouvido falar, será o filme sobre o qual o artigo se debruçará. Para nós, filósofos, aprendizes filósofos ou simples interessados em filosofia, é um filme óptimo, uma vez que dele se pode tirar muitos problemas de natureza filosófica. Não será esse o caso neste artigo. Os problemas a abordar não são directamente tratados no filme. Portanto, não é o caso que as questões a colocar pelo artigo tenham sido extraídas do filme, as questões subsistem sem o filme. Aquilo que o artigo pretende do filme é simplesmente extrair um ser hipotético que é de tal maneira semelhante ao homem que coloca problemas acrescidos à definição tradicional de homem – ‘animal racional' – ou a qualquer outra tentativa de defini-lo. Tais seres são chamados replicants (ou réplicas , em português). Não que esses problemas dependam da existência dos replicants , mas tornam-se mais claros à luz da possibilidade da sua existência.

Quando se pretende definir qualquer coisa, a definição, para ser uma definição aceitável, deve conter propriedades de um tipo específico, i.e. que satisfaçam certos critérios. Por exemplo, quando tento definir o cão posso defini-lo como ‘um animal que ladra'. A propriedade ser um animal que ladra , para estar contida numa definição aceitável ou satisfatória, deve pertencer a todos os indivíduos que fazem parte do género cão . Dito de outro modo, a propriedade deve ser predicada com verdade de todos os cães, sem excepção. Para isso suceder todos os cães têm de ladrar. Encontrar um cão mudo acarretaria dificuldades insuperáveis à definição, uma vez que, a definição é ‘um animal que ladra', não se aplicaria ao caso do cão mudo, o que resultaria na absurda conclusão: ‘o cão mudo não é um cão'. Mas a propriedade presente numa definição satisfatória tem também de satisfazer outro critério. A propriedade deve poder ser dita com verdade apenas daquilo que se pretende definir, ou seja, tem de ser uma propriedade específica daquilo que se está a definir. Novamente usando o género cão como exemplo, se o género fosse definido como ‘um animal diferente do gato' a definição não seria aceitável, na medida em que Mário Soares – apenas um exemplo e não uma declaração de intenção de voto – também satisfaria a definição; o que resultaria no absurdo ‘Mário Soares é um cão', apesar de algumas parecenças físicas que o senhor possa ter com a raça Bulldog . A definição clássica ou aristotélica de homem como ‘animal racional' não satisfaz os dois critérios (pelo menos, conjuntamente): (i) é comum a todos os homens e (ii) é específica apenas do homem. Primeiro, há homens que podem perder a sua racionalidade e, mesmo assim, mantém-se como elementos do género homem (esta dificuldade pode ser superável, porém, não nos interessa agora como). Por último, discute-se muito se de facto o homem é o único animal racional conhecido. Utilizando as entidades de Blade Runner o caso ainda se torna mais flagrante, pois, os replicants são, sem dúvida, animais racionais. Convirá acrescentar outro critério ainda. Se estamos perante uma investigação de carácter empírico, como é o caso da investigação antropológica, a identificação do objecto a investigar, no caso o homem , deve decorrer de forma empírica. Quero com isto dizer que a definição deve conter propriedades empíricas que permitam essa distinção. Definir, por exemplo, o género homem como ‘ aquele género cujo os elementos têm a propriedade de ser humanos ', para além de trivial e circular, não acrescenta nada à identificação [empírica] dos elementos que compõem esse género, apesar de satisfazer os critérios (i) e (ii).

Resumindo, uma definição de homem, para que seja aceitável no campo antropológico, deve satisfazer os seguintes critérios: (i) ser comum a todos os homens , (ii) ser específica apenas do homem e (iii) ter conteúdo empírico que permita a identificação dos elementos que compõem o género ‘homem' . É por causa do critério (iii) que não chamo à(s) propriedade(s) que a definição deve conter essencia(is)l. De qualquer modo, não é relevante estar a desenvolver isso agora.

O que se pretende da definição é que contenha algo que se possa dizer necessariamente específico e comum ao homem . O que significa que a definição não pode estar sujeita a revisão. Se a definição, por qualquer motivo, não é aplicável a determinado caso, então a definição não se pode dizer aceitável. Tem de ser assim em qualquer caso, para todos os homens que existem e que existirão. Porquê esta exigência? A razão deve-se à dificuldade que seria imposta à Antropologia, caso não se pudesse identificar com certeza quais os elementos do género homem . Se a definição é meramente contingente, há dificuldades em saber quando aceitá-la como válida para a investigação, na medida em que o plano da investigação é aberto, não se sabe aquilo que nos reserva. Quem nos garante que no mundo actual não haja replicants, por exemplo. Mesmo supondo que a existência desses indivíduos é somente uma possibilidade é necessário que uma definição forneça os meios suficientes para, em qualquer caso, procedermos à identificação daquilo que definimos.

O problema é: a haver indivíduos tão semelhantes ao homem , como é que podemos distingui-los? Ou se preferirmos em termos mais gerais: como podemos definir homem? Blade Runner apresenta uma resposta. A distinção entre homem e réplica seria de cariz emocional. A forma como os Blade Runner [como é o caso de Deckard (Harrison Ford)] identificam os seres não-humanos é segundo um teste que se espera que forneça uma reacção emocional específica da parte do indivíduo a ser testado. Se for não-humano, a reacção será emocionalmente imatura, se for humano a reacção será emocionalmente matura. Transformar esta especificidade emocional do homem em definição do mesmo apresenta um problema imediato: não se podem testar, pelos mesmos meios, crianças humanas; que, como é óbvio, não são emocionalmente maduras ainda. No entanto, o problema resolve-se se enunciarmos a definição da seguinte forma: ‘ homem é todo aquele que, a partir de uma certa idade, pode fornecer uma reacção emocionalmente madura '. Assim, o bebé humano é salvaguardado pela definição, e a propriedade por ela descrita pode-se dizer comum a todos os homens. Será isso verdade? Como é que se garante que a propriedade é atribuída com verdade de todos os elementos do género humano? A garantia não pode ser empírica, ou seja, posterior à investigação. Primeiro, tal seria tarefa impossível, uma vez que exigiria a investigação de todos os indivíduos humanos; segundo, a garantia a ser empírica seria circular, na medida em que se está a garantir uma definição com recurso àquilo que se quer garantir, a definição. Ou seja, procede-se à identificação dos elementos do género humano sem que essa identificação possa ser regida por uma definição garantidamente satisfatória . Como se pode justificar empiricamente uma definição de homem sem saber o que ele é, ou se não há garantias de que ele seja assim? Se a garantia não pode ser empírica, então tem de ser a priori [sem que se recorra necessariamente à experiência]. O problema é que não pode haver garantias a priori aqui. Reparem que se uma definição não tiver garantias empíricas ela só pode ser uma estipulação. Quero com isto dizer que a solução seria estipular uma definição de homem , apenas com uma amostra (parcial), derivada da investigação do que poderá ser o homem . A estipulação seria, assim, de carácter hipotético; sujeita a revisão durante a investigação antropológica. É de notar que será uma definição muito afastada daquilo a que chamaríamos definição satisfatória ou aceitável, na medida em que não satisfaz – ou não é possível estar certo que satisfaça – os critérios que foram mencionados acima. Veja-se no seguinte problema: estipule-se que a definição de homem é ‘ todo aquele que, a partir de uma certa idade, pode fornecer uma reacção emocionalmente madura '. É suficiente encontrar um indivíduo humano que não corresponda à definição para que ela seja errada ou inaceitável. Imagine-se agora que esse indivíduo é encontrado. Encontra-se alguém – sem saber-se de onde veio – com a aparência de um homem, mas que, devido a uma qualquer deficiência e apesar da idade avançada, não consegue ter reacções emocionalmente maduras. Com base na definição estipulada certamente não poderíamos dizer que o indivíduo seja humano, mesmo que o indivíduo o seja de facto. Pode-se dizer que a descoberta deste novo homem implicaria uma revisão da definição estipulada? De todo. Simplesmente a definição persistiria e, com base nela, rejeitar-se-ia que o indivíduo encontrado fosse humano, ainda que isso possa estar incorrecto. Naturalmente que, hoje em dia, executar-se-iam de imediato testes de ADN para garantir se o indivíduo é de facto humano. No entanto, não poderia ser assim no mundo de Blade Runner; os replicants não se podem distinguir dos homens com recurso a esse tipo de testes. Isso mostra que o ADN só é uma forma válida em alguns casos. Por conseguinte, tem o mesmo carácter hipotético do que qualquer outra estipulação que se possa imaginar para definir homem, apesar, de claro, haver um maior grau de fiabilidade no caso do ADN . Assim, em Blade Runner, se houvesse uma definição de homem com base apenas no ADN, os replicants fariam parte do género humano, e isso não obrigaria à revisão da definição, tal como no exemplo anterior.

Quais as consequências destas conclusões para a Antropologia? Não são tão funestas quanto se possa crer. Claro, a dificuldade aqui é metra-antropológica, pois o que está em causa é saber se é possível haver uma definição de homem e não exactamente saber o que ele é ou proceder à sua identificação, o que seriam tarefas propriamente antropológicas. Significa que a dificuldade precede qualquer questão antropológica que se possa colocar e que, por isso, abrange todo o campo antropológico. Ainda assim, não é impossível conviver apenas com estipulações hipotéticas. Estou em crer que a ciência sempre fez isso e que, a maior parte das nossas crenças, são dessa natureza. Os critérios estabelecidos são conscientemente demasiado exigentes. Seria consideravelmente difícil satisfazê-los. Mesmo com a dificuldade acrescida das definições estipuladas, apesar do seu carácter hipotético, não serem revistas com a frequência desejável, são substituídas, de tempo a tempo. Hoje em dia caiu em desuso identificar ou separar os seres humanos dos não-humanos de acordo com a definição aristotélica de homem . Simplesmente a identificação decorre mediante processos mais fiáveis e científicos, como o teste de ADN . É muito mais natural, portanto, definir-se homem agora como o ‘ animal ou ser vivo que tem o ADN tal e tal' do que propriamente defini-lo como ‘animal racional '. Creio que as definições não ocorrem mediante revisão das mesmas, mas por substituição, devido às mais diversas causas. Convirá não esquecer que definições que não sejam hipotéticas e que não ocorram por estipulação são ainda desconhecidas. Definir o homem é um trabalho inacabado.

 

Diogo Santos