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A primeira vez que vi um dos episódios do filme Starwars (episódio IV) foi já no longínquo ano de 1977. O filme estreava então no saudoso, ou talvez não, cinema Império; agora, por ironia, julgo que transformado em local de culto e negócio de uma seita religiosa. De imediato as aventuras Luke Skywalker e Co. se transformaram numa parte importante do meu imaginário de adolescente, o que não é de estranhar, na medida em que todos os jovens sonham mudar o mundo, preferencialmente de espada em punho e soltando hormonas por todos os poros do corpo. Eu não era diferente. Identifiquei-me desde logo com a luta de Luke e com a Causa dos rebeldes (como bom adolescente rebelde que era revoltado contra o sistema) que ansiavam destruir o demoníaco Darth Vader Co e derrubar o insidioso Império galáctico.
As sequelas do filme só vieram reforçar as minhas convicções iniciais. Estive sempre do lado do Bem e contra o Mal, sendo este último personificado por Vader, o Imperador e o Império. Esta trindade representava para a minha compreensão de jovem adulto um sistema político tirânico e uma condição ética inaceitável. Revia-me obviamente no que era defendido pelo lado oposto, no sacrifício e abnegação de Obi Wan Kenobi, na sabedoria positiva de Yoda, na irreverência de Hans Solo, na garra de Luke Skywalker e na coragem de Leia Organa. Eu estava decididamente do Lado-bom-da Força, e repudiava veementemente o Lado-mau (o Darkside ) com todas as forças do meu ser. Só muito mais tarde vim a compreender o que realmente estava realmente em jogo neste filme, a saber, um maniqueísmo insustentável. Passo a explicar.
Quem viu os filmes compreendeu certamente que há dois lados da Força do Universo, sendo esta uma espécie de energia que tudo envolve e na qual tudo participa, em maior ou menor grau. Os dois lados da Força representam, à vez, o Bem e o Mal; são faces da mesma moeda, partes de um mesmo Todo, partes de uma mesma Realidade. Os filósofos costumam referir-se ao Lado-do-mal-da-Força como o Mal-natural, e ao Lado-do-bem-da-Força como o Bem-natural. Como exemplos do Lado-do-mal-natural podemos apontar os desastres naturais, e todos aqueles fenómenos cujos efeitos consideramos altamente negativos e cuja “responsabilidade” imputamos à Natureza. Como exemplos do Lado-do-bem-natural podemos apontar a criação de vida, e todos aqueles fenómenos que conotamos como bons e cuja “responsabilidade” imputamos também à Natureza.
Quem conhece os “caminhos da Força”, i.e., quem aprende a dominá-la, consegue proezas extraordinárias. Mas quem segue o Caminho-do-mal, i.e., quem aceita, domina, e se deixa dominar pelo Lado-do-Mal, incorre no Mal-moral. Quem segue o Caminho-do-Bem, i.e., quem aceita, domina, e se deixa dominar pelo Lado-do-bem, incorre no Bem-moral. O primeiro implica medo, ódio, ciúme, inveja, ganância e toda a parafernália de emoções e sentimentos que conduzem ao Mal. O segundo implica compaixão, altruísmo, paciência, prudência, calma e toda a parafernália de emoções e sentimentos que conduzem ao Bem. Portanto, segundo o filme, o Lado-do-mal-natural implica Mal-moral, ou seja, um mal cuja origem está em seres capazes de produzir actos moralmente condenáveis; e o Lado-do-bem-natural implica Bem-moral, ou seja, um bem cuja origem está em seres capazes de originar actos moralmente louváveis. Temos então que Starwars associa Mal-natural com Mal-moral e Bem-natural com Bem-moral. De onde vem esta ideia? Será que George Lucas tirou este coelho da sua cartola num passe de “magia filosófica”? Não, claro que não. Lucas baseou-se numa antiquíssima doutrina religiosa: o Maniqueísmo.
O maniqueísmo foi fundado por um tal de Mani. Este era, segundo se julga saber, persa, e foi supostamente visitado por um anjo, um ente divino que lhe confidenciou a verdadeira natureza dual da Realidade : o Bem de um lado e o Mal de outro, não havendo uma alternativa. Bem e Mal são conjuntamente exaustivos e mutuamente exclusivos para um maniqueísta (não confundir com maquinista). A seita associava o Bem (natural ou moral) à luz e o Mal (natural ou moral) às Trevas. Pelo que se diz, uma das principais ideias destes dualistas era que a Luz (o Bem) e as Trevas (o Mal) são faces antitéticas da realidade (1) , e que, respeitando o sentido da metáfora, existe uma tendência -- natural -- para as trevas aniquilarem a luz ou, conversamente, para a luz aniquilar as trevas. Daqui os maniqueístas retiraram, ao que parece, que os homens, uns quantos eleitos iluminados (daí a Ordem dos Jedis), claro, deveriam aniquilar as trevas (o Mal) e fazer vingar a luz (o Bem), o que é o mesmo que sugerir que o Bem-moral se pode impor ao Mal-moral e, em última instância, que o Bem-natural se pode impor ao Mal-natural.
Tudo isto é familiar em StarWars , que, além de um maniqueísmo exultante, combina elementos de várias tradições religiosas (e.g. Budismo=meditação, Hinduísmo=castas, Cristianismo=cruzadas contra infiéis -- e ordens monásticas --, Islamismo= a Força invisível de alah, etc) com componentes da tradição laica ocidental e oriental, como sejam, por exemplo, duelos cavaleirescos entre personificações do Bem e do Mal, sistemas políticos clássicos (tirania, oligarquia, democracia), e antropocentrismo humanista (repararam na evidente antropomorfização do império, não repararam? Quem manda são quase sempre os indivíduos da espécie humana. Por que será?).
Mas Lucas deve ter lido pouca filosofia na sua juventude, pois os filósofos descobriram que há vida para lá do Bem e do Mal, e que a existência não se confina a tão pobre dicotomia. Um tipo que percebeu bem o erro milenar cometido por Lucas ao aceitar uma visão maniqueísta da realidade (apesar desse tipo ter morrido muito antes de Lucas ter nascido) foi o Bigodes mais famoso da história da filosofia. Nietzsche viu muito bem que para termos uma perspectiva global da realidade temos que transcender de alguma forma os nossos conceitos básicos de Bem e Mal, pois a realidade não pode ser identificada ou representada apenas por duas das suas partes ou propriedades, em especial essas. O Bigodes percebeu, ao contrário de Lucas, que há espaço para a simples existência, para a indiferença, para a acção, para a vida e para a criação muito para lá da dicotomia do Bem e do Mal.
Agora outro argumento, que não de autoridade, contra a visão maniqueísta do Mundo filmada por Lucas. É o que eu chamo de “argumento da indefinição”. Primeiro, ele há coisas que pela sua essência não cabem em nenhum lugar da “Força”: ou não são intrinsecamente boas ou más ou não é possível categorizá-las por uma escala de valores dicotómica, i.e., com apenas duas varáveis por preencher. Exemplo: a Existência. Quem me sabe dizer se existir é uma coisa boa ou má? Com que premissas? Quantas variáveis têm que ser consideradas? Quantas conclusões reformuladas? Desejo boa a sorte aos que têm resposta a esta questão quando tiverem que sustentar racionalmente a sua posição. Segundo, quem assegura que uma qualquer acção que tenha efeitos imediatamente bons não venha a ter, a longo prazo, consequências más? E, pergunto eu agora, não haverá actos que não são inerentemente bons ou maus mas apenas “indiferentes” para o curso dos acontecimentos? Suponha-se que Obi Wan aceita uns “pauzinhos morte” para dar algum dinheiro ao vendedor que necessita desse dinheiro para sustentar a família em dificuldades. Este acto é bom ou mau? (Já estão a ver o problema, não é?). E suponha-se que um tsunami arrasa uma costa inteira, matando milhares de pessoas no processo, mas que graças a isso a costa sofre um desenvolvimento económico que permitirá a criação de grande riqueza e o subsequente nascimento de milhares de crianças que de outro modo nunca teriam visto a luz do dia. Será este tsunami, este “acto da natureza”, bom ou mau?
Quero deixar claro que a Realidade, o Mundo, não se confina ao apenas Bem e ao Mal, e que é possível encontrar alternativas. Bem e Mal são valorizações -- importantes, é certo -- que fazemos dos factos em função das nossas inclinações e da nossa predisposição racional para valorizar -- seja qual a motivação -- esta ou aquela ocorrência que presenciamos ou de que temos conhecimento. Mas, como dizia Kant, o homem não é naturalmente bom ou mau -- é apenas “torcido”, bivalente, trivalente, quadrivalente etc., capaz do melhor e do pior, da acção segundo fins morais ou imorais ou da indiferença absoluta. Eu partilho desta opinião, e hoje-em-dia revejo-me tanto em Obi Wan quanto em Vader, assumindo nesta senda que a natureza “fez-me” como sou e que tenho que viver com isso o melhor que posso e sei. Mas atenção! Apesar de ser-me impossível eliminar todo e qualquer resíduo do Darkside que em mim exista, pois o Darkside faz parte de mim tal como qualquer outro componente da realidade que me constitui e envolve, ainda assim compreendo que devo evitá-lo se quero ter um comportamento e uma atitude moralmente louvável -- louvável não só a partir da perspectiva da terceira pessoa, da perspectiva dos outros, dos meus pares humanos, mas e principalmente a partir da perspectiva da primeira pessoa, da perspectiva de mim próprio sobre mim próprio. Essa é, talvez, a única lição milenar interessante que Lucas “descobriu” com Starwars , a saber, o reconhecimento da nossa capacidade de reconhecermos o Bem, o Mal, o que está para lá de ambos, e de escolhermos consciente e intencionalmente o Bem por amor aos outros e a nós próprios.
Que a Força esteja convosco…usem-na bem
Luís Rodrigues
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Notas
1) Um expoente desta forma de pensar encontra-se presente no neo-platonismo de Plotino: o Uno, a Luz e as Trevas são faces de uma mesma realidade. Outro expoente, embora posteriormente convertido ao cristianismo, é Santo Agostinho (Agostinho de Hipona, para os filósofos) cuja obra revela traços de maniqueísmo, apesar de dissimulados. Mais recentemente encontramos em Kant e Rousseau autores que têm uma visão bipolar da realidade e da moral. Apesar de atenuado por milhares de anos de evolução filosófica, o maniqueísmo básico continua a estar bem presente no dia-a-dia e na mente dos pensadores, que, consciente ou inconscientemente, “dividem” sempre o mundo entre Bem e Mal.
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